Owen Pallett: a última fantasia em Lisboa

Owen Pallett foi obrigado a abdicar do nome Final Fantasy: "Já não há fuga possível. Agora sou eu mesmo"
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Owen Pallett foi obrigado a abdicar do nome Final Fantasy: "Já não há fuga possível. Agora sou eu mesmo"

O violino do canadiano outrora conhecido como Final Fantasy está cada vez mais polifónico. Em "Heartland", o terceiro álbum que começou a escrever em Lisboa, alia sensibilidade pop, formação clássica e métodos electrónicos.

Para a maior parte dos músicos o segundo álbum é o mais difícil, mas para Owen Pallett difícil foi o terceiro. "Houve alturas em que pensei em desistir", ri-se ele, a partir de Toronto, Canadá, a sua cidade natal. "Heartland", assim se chama o "difícil terceiro álbum", sucede a "Has A Good Home" (2005) e "He Poos Clous" (2006), ambos registados com o nome Final Fantasy.

"Queria compor canções mais complexas em termos de arranjos e também em termos vocais. Queria alcançar um som mais ambicioso, até do ponto de vista da qualidade auditiva e, por várias vezes, senti-me perdido pensando para mim próprio: 'Porque é que te estás a preocupar, se a maior parte das pessoas vai ouvir isto em ficheiros digitais de péssima qualidade'?", conta ao Ípsilon.

Talvez tenha razão, mas o esforço não foi em vão. Sem perder o contacto com as características essenciais dos registos anteriores, e aliando sensibilidade pop e composição clássica, o novo álbum vai mais longe. São 12 canções ainda assentes na tradição pop, baseadas mais uma vez numa narrativa conceptual, mas que parecem, e por vezes são, tocadas por uma orquestra. Poderia daqui resultar um pastel barroco. Mas não. Pelo contrário. São canções que expõem vulnerabilidade: "Quando as pessoas pensam em arranjos orquestrais, imaginam logo qualquer coisa de grandioso, mas não me apetece nada ir por aí. Quero, pelo menos, complexificar um pouco essa ideia", afirma.

Há uma modificação perceptível no percurso de Owen Pallett. A designação Final Fantasy foi abandonada. Não por opção, mas por contingência. Os advogados da empresa que produz o jogo de vídeo com o mesmo nome não estavam satisfeitos com a visibilidade que, ao longo dos anos, o músico foi granjeando. Teve de ser: "Não me apetecia nada mudar. Final Fantasy era uma boa tradução da música, um nome indicativo, sem ser muito sério. Era um trabalho, não era eu. Por outro lado, adoptar o meu nome próprio vai obrigar-me a compor canções a partir de um ponto de vista mais pessoal, o que pode vir a transformar-se num desafio muito estimulante."

Nos discos de Owen Pallett há sempre um ponto de partida, uma narrativa, um conceito. Compõe com uma ideia específica em mente. O último álbum, por exemplo, foi concebido à volta do jogo "Masmorras e Dragões". O novo é composto por canções de amor que têm no centro um agricultor heterossexual, Lewis, que habita um planeta ficcional chamado Spectrum, e que estabelece uma relação com o próprio Owen Pallett.

"'Heartland' é sobre o princípio, o meio e o fim de uma relação. É puro romance. Mas desta vez não me apetece muito explorar essa ideia da narrativa. Nos álbuns anteriores havia uma narrativa imaginária, que atribuía unidade às canções, mas desta vez essa realidade está mais dissolvida. É apenas uma espécie de sombra que atravessa as canções, nada mais. Gosto de álbuns com conceito, embora a maior parte dos meus preferidos sejam apenas um conjunto de canções. Nas entrevistas sobre o último perdi imenso tempo a explicar o conceito. Desta vez gostava que as pessoas se concentrassem apenas nas canções."

Lisboa-Reiquejavique-Praga

É difícil fazê-lo, quando Owen revela que foram escritas em Lisboa. "É verdade. Passei umas semanas em Lisboa, em Março de 2008, a escrever as canções. É a minha cidade favorita da Europa. Tem um encanto muito especial, a paisagem e as pessoas, qualquer coisa que tem a ver com o espaço e o tempo que não sei precisar muito bem. Sinto-me em casa quando estou aí e isso é um sentimento fantástico. Em Toronto sinto o mesmo, mas aqui conhecem-me. Lisboa acaba por ser o refúgio ideal." A 10 de Março, regressará a Lisboa, ou seja a casa, para um concerto no Teatro Maria Matos. "Estou ansioso por voltar. Sinto que tenho com essa cidade uma relação profunda que me permite dizer isto. Quero regressar aos sítios que já conheço e descobrir outros."

Para todos os efeitos, portanto, a operação "Heartland" começou no Bairro Alto. "Estava alojado no Bairro Alto, deambulava pela cidade, ia aos concertos à ZDB - adoro a ZDB e a vida cultural da cidade, com tantos concertos - e jantava no Toma Lá Dá Cá, na Bica. Às vezes ia a Sintra. Conheci aí os Silver Apples e só eu sei o quanto eles me influenciaram neste disco. Sim, Lisboa está no centro deste álbum, não diria que foi uma influência directa, mas foi o início de tudo."

Inicialmente, o produtor do disco era para ser Chris Taylor, dos Grizzly Bear, mas incompatibilidades de agenda fizeram abortar a ideia. Depois de Lisboa, Pallett voou para Reiquejavique, na Islândia, na companhia do amigo Jeremy Gara, dos Arcade Fire, para registar o disco nos estúdios Greenhouse, onde Bjork ou Bonnie Prince Billy já gravaram.

Depois de ter registado o esqueleto de 16 canções, voou para Praga, onde viria a trabalhar com uma orquestra. Foi a parte mais difícil de toda a operação. "Sentia-me exausto, não conseguia discernir o que interessava do que era acessório. Foram tempos complicados", ri-se agora Owen. "Queria desafiar-me, mas sentia que toda aquela história da orquestra estava a ir longe de mais. De repente, percebi que não podia ser o produtor executivo, o compositor, o cantor, o orquestrador e sei lá o que mais, em simultâneo. Mas, depois, tudo se recompôs."

O verdadeiro Owen Pallett

Em palco também existem mudanças. Até agora, Owen Pallett era conhecido por enfrentar multidões munido apenas de violino, sampler e pedal de efeitos. Agora tem um cúmplice, o guitarrista e percussionista Thomas Gill. "Conhecemo-nos no Verão passado e estabeleceu-se uma boa relação entre nós. É bom estar acompanhado por alguém em palco. É mais confortável. Pelo menos quando dou barraca posso partilhar o embaraço."

Não é um disco mais ou menos difícil de transpor para palco. "Estou sempre insatisfeito" confessa. "Às vezes parece-me que devia ter mais parafernália electrónica em palco, outras vezes penso que ter um monte de músicos de carne e osso é que era. Este é o meu disco mais orquestral, mas ao mesmo tempo é também o mais electrónico. Estou bem assim. Acho."

Na composição do novo álbum, reconhece a influência de formações históricas, como os Kraftwerk e os Silver Apples, ou de outras bem mais antigas, de Bartók à música militar do séc. XIX, mas diz-se um conhecedor da realidade actual, enaltecendo os Dirty Projectors, as Telephate, os Grizzly Bear e os Sunn O))). Não surpreende que possua um conhecimento alargado sobre a música do presente. Afinal, enquanto orquestrador ou violinista, tem colaborado com imensa gente (Pet Shop Boys, Beirut, Nico Muhly, Grizzly Bear, Mountain Goats, Last Shadow Puppets, The Hidden Cameras), embora seja com os compatriotas Arcade Fire que tem estabelecido uma relação mais próxima. Foi ele que criou os arranjos para os álbuns do colectivo, "Funeral" e "Neon Bible", e o mesmo para o novo disco, a editar este ano. "Desde o primeiro momento que era perceptível que iriam ser enormes", afirma, "são pessoas muito especiais."

Durante muitos anos, a figura do produtor foi ganhando um protagonismo quase similar ao do músico com quem colaborava. Hoje em dia são orquestradores, como ele ou Nico Muhly, que estão em evidência. "Sim, é verdade" concorda, "talvez tenha a ver com o facto de o som orquestral conter muitas possibilidades expressivas, ser rico e diverso, e pouco explorado em campos musicais como o rock."

A música de Owen Pallett é circular, tem qualquer coisa de encantatório, estimulando a intimidade ou conduzindo-nos para panoramas expressivos, quase teatralizados. Há naquilo que ele faz uma aura clássica e um forte apelo lúdico, como se quisesse habitar um mundo de fantasia que, afinal, em vez de distanciar, nos aproxima dele. Final Fantasy foi-se. Agora temos Owen Pallett, o próprio. "Já não há fuga possível. Sou eu mesmo."