Legendary Tigerman: um tigre entre as mulheres

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Legendary Tigerman encontrou-se com Asia Argento, Maria de Medeiros, Peaches, Lisa Kekaula ou Rita Redshoes e gravou "Femina". É uma viagem, em duetos, em direcção ao feminino - e a viagem ainda não acabou.

Já não podemos dizer de Legendary Tigerman que é uma "one man band" viajando mundo fora com blues na guitarra e ritmo no bombo. Não é de agora. Já há não o podemos dizer há algum tempo.

Depois de "Naked Blues" (2002) e "Fuck Christmas, I Got The Blues" (2003), depois de um livro de fotografias, "In Cold Blood" (2004), e de um disco, "Masquerade" (2006), que lhe começou a definir um outro corpo iconográfico, Legendary Tigerman já não pode ser "só" aquela guitarra lamacenta, aquele bombo percutido furiosamente, aquela voz que se liberta com urgência irreprimível.

Não é propriamente o "Homem Ilustrado" de Ray Bradbury, que a ficção do homem tigre habita outra dimensão. Mas é construção constante que, agora, se expande uma vez mais. Apresente-se "Femina", álbum de duetos gravado Europa fora, um filme que deu em disco (mas que ainda há-de ser filme). Legendary Tiger Man, ele que se farta de cantar as mulheres, partiu à descoberta delas.

Há quanto tempo alimentava esta ideia de um álbum de duetos?

Curiosamente, não começou como álbum, mas como um filme chamado "Femina". Essa ideia tem quase três anos e um argumento do qual acabaram por sair algumas letras para o disco. Um ponto comum, logo à partida, era a Asia Argento. A minha primeira ideia foi convidá-la para o filme, o que ela aceitou. Mas, a partir daí, o "Femina" começou a ser uma coisa mais global. Podia ser um filme, podia ser um álbum, podiam ser músicas soltas, podiam ser curtas-metragens. Tem sido isso que tenho feito. A primeira música que fiz com a Asia ["Life ain't enough for you"] seria aquela com o filme começaria e acabaria. Procurava que, tendo todos pontos de contacto entre si, [estes desenvolvimentos] pudessem também existir autonomamente.

Nesta edição, já temos o disco e seis curtas. E o filme? Que será?

São várias histórias de várias mulheres que se cruzam. Passa-se num dia e a presença masculina é quase residual, tratada como um adereço, como se não passasse de uma cadeira ou de uma mesa. É um filme que fala sobre o sentir feminino - do máximo que consigo perceber dele, pelo menos. Não penso que seja um exercício fácil ou difícil. É uma questão de pressentir algumas coisas no modo de pensar e de agir que te permitem identificar algum tipo de padrão, de "modus operandi". Sem entrar em considerações mais radicais, do género "os gajos são todos iguais e as gajas são todas iguais", acho que há coisas francamente mais femininas. Quanto mais não seja, a complexidade que tudo pode atingir. Normalmente, um homem olha para uma parede preta e vê uma parede preta, uma mulher vê dez demãos de cinzento.

As canções foram criadas já com alguém em mente?

Os processos foram diferentes, se bem que tenha feito a maior parte das canções a pensar numa pessoa. "These boots are made for walking" [original de Nancy Sinatra e Lee Hazelwood] foi uma delas. Queria gravar essa versão e pareceu-me óbvio que a Maria de Medeiros poderia dar-lhe uma abordagem completamente diferente, uma falsa inocência. Há nela uma força contida e uma intenção que fazem com que seja tímida e sensível mas que, por outro lado, mostre um controlo sobre essa fragilidade. Um "power" pela ausência de "power", que é um modo de atingir as coisas tipicamente feminino.

Dizia há pouco que foi o encontro com Asia Argento que fez arrancar o disco. Esse encontro foi, digamos, um encontro de fãs. Ela já conhecia a sua música. Gosta dos álbuns de Legendary Tigerman.

Sempre gostei imenso do trabalho dela, principalmente como realizadora, principalmente do segundo filme ["The Heart Is Deceitful Of All Things"]. E sabia que ela tinha um gosto próximo do meu por uma conversa que tive com a guitarrista dos Demolition Doll Rods. Disse-me que ela era fã deles e, principalmente, dos Gories, que são a banda preferida dela e sempre foram a minha banda favorita. A verdade é que com a Asia houve empatia desde o primeiro contacto, o que se foi tornando claríssimo à medida que trabalhámos a música e as letras. É estranho. Não conheces uma pessoa de lado nenhum, e essa pessoa tem algum peso, como é o caso da Asia, e de repente chegas a Roma, apanha-la e enfias-te num estúdio a gravar. Correu muito tranquilamente e foi isso que me fez perceber que o projecto poderia funcionar - e como poderia funcionar. Por exemplo, houve um nome que ficou fora do disco, a Simone de Oliveira. Inicialmente, houve uma recusa do management. Tentei passar por cima disso, mas comecei a sentir alguma resistência. Ou seja, antes mesmo de ir chamando as pessoas, fui percebendo se poderia ou não existir empatia. Paralelamente à questão artística, isso passou a ser para mim um pormenor muito importante.

Diz que os homens não conseguem cantar as mulheres, que só conseguem cantar uma certa imagem de mulher. Não se pode acusá-los de não tentarem. A maior parte da música é exactamente isso: homens a cantar sobre mulheres.

Sim, mas cantamos sempre a nossa perspectiva das mulheres - e o contrário também será verdade. É algo intrínseco ao modo como sentimos e fazemos, mas não me parece que estejamos condenados a não nos compreendermos. Mesmo que não seja uma situação tão desesperada, há coisas que serão sempre incompreensíveis de parte a parte. Disso tenho a certeza. Começa logo, obviamente, pelo ponto de vista físico. E não digo isto relativamente às diferenças óbvias que estão visíveis, mas no próprio funcionamento do corpo, naturalmente de uma maior complexidade no caso da mulher.

No livro cita esta frase da escritora iluminista Madame de Staël, considerada uma das precursoras do feminismo: "O homem deseja a mulher, mas a mulher deseja o desejo do homem". Concorda com a ideia?

Acho-a uma ideia completamente feminina e que não explica nada. É uma perspectiva que nos faz pensar nas pequenas nuances, mas a nuance que ela revela é claramente feminina. A primeira vez que li a frase achei que fazia muito sentido. Da segunda, achei que seria injusta para nós e muito simplista. Segue aquela história de que, para as mulheres, o fundamental num homem não é ser bonito, é ter sentido de humor, sendo que, depois, se associa aos homens a imagem contrária: o físico é o mais importante e o resto também o é, mas um bocadinho menos. São estereótipos. A frase tem piada precisamente por isso, por ser um estereótipo, uma definição rápida e preto no branco do que é o amor entre um homem e uma mulher. Obviamente que não é tão linear quanto isso, mesmo tendo em conta que a frase foi dita no século XVIII, num contexto completamente diferente.

O conceito do álbum seria deixar-se conduzir pelas mulheres com quem cantava. Mas sendo as canções suas e seu o imaginário, a verdade é que já estava a enquadrá-las numa determinada perspectiva.

Claro que sim. Isso acontece quando escolho apresentar uma canção a uma pessoa e não a outra ou quando lhe atiro a primeira frase de uma letra. Sabia o caminho que queria tomar, mas era um caminho em aberto. Tanto que acabei por receber músicas, como aconteceu com a da Becky Lee que tocámos ["Old fashioned man"], ou com a versão que fecha o disco, com a Cibelle ["True love will find you in the end", de Daniel Johnston]. Não foi ideia minha e originalmente não queria gravá-la mas, de repente, tornou-se essencial tê-la no disco. Para mim, é a música que fecha o álbum e que liga tudo aquilo.

O rock'n'roll e o blues são por vezes apontados como um reduto machista, com algo de misógino. Haverá aqui também, da sua parte, uma vontade de desmontar essa ideia?

Certamente, até porque acho que essa imagem não faz grande sentido. Talvez fizesse há cem anos no Mississípi, não hoje. Os homens cantarão mulheres ou homens, cantarão o seu objecto de desejo até ao fim da música. E as mulheres cantarão homens ou mulheres, cantarão o seu objecto de desejo até ao fim da música. O que quis aqui, desde o início, foi estabelecer uma relação de igual para igual. Que a minha perspectiva masculina não tivesse mais peso do que a perspectiva delas. Isto tendo em conta que é um álbum meu, dentro do contexto do meu trabalho.

Ao observar as fotos em que Jean-Baptiste Mondino, responsável pela capa de "Femina", o retratou, é curioso que nunca vejamos uma verdadeira androginia. Apesar do batom e das pestanas, não há ali feminilidade.

A dificuldade da foto era exactamente essa. A minha ideia era fazer várias fotos em que me adaptasse à imagem delas [das cantoras], mas depois o Mondino propôs-me fazer o "remake" de uma capa do Gainsbourg, "Love on the Beat". Nunca quis que passasse como um homem travestido, queria que passasse como um homem a aproximar-se do universo da mulher, mantendo a sua masculinidade e a sua heterossexualidade. Obviamente que terá interpretações diferentes conforme os olhos que vejam as fotos, mas para mim isso foi conseguido. Mostrei a foto da capa a várias pessoas e ninguém me soube explicar porque é que não sente que seja um travesti ou, por outro lado, de um universo masculino fechado em si. Isso agradou-me muito.

Sendo este um projecto em aberto, como diz, o que falta para estar completo? O filme?

No álbum saem 15 músicas e, até ao momento, tenho cerca de 22. Entretanto, estou a trabalhar com a Brigitte Fontaine, com quem já deveria ter gravado para esta edição, mas os timings não o permitiram. Ela é fantástica e trabalhar com ela está a ser completamente diferente de tudo o resto. É difícil arrancar-lhe coisas e só quer é que lhe envie material. Os telefonemas são sempre longos e interessantes, comigo a cantar-lhe algumas coisas para que perceba o que quero, com ela a cantar-me de volta. Só não se lhe pode ligar antes da uma da tarde. Das primeiras vezes que falámos liguei por volta do meio dia, acordei-a e ela não ficou com muito boa impressão de mim.

Para além dela, estou também a trabalhar com a Jehn, do duo francês John & Jehn. E, claro, a Marianne Faithfull, com quem tenho apalavrado gravar no início do próximo ano. Mas, apesar de ter músicas suficientes para já poder ter feito dois álbuns, essa nunca foi a minha ideia. Na minha cabeça, não faz sentido. Agora, estou concentrado em fazer as curtas-metragens - faltam-me filmar quatro e montar outras quatro. Depois, acho que isto só estará terminado quando fizer o filme. Vai ser ele a fechar o círculo.