Hollywood morreu, viva Hollywood... e outras aventuras do cinema nos anos 70

"Taxi Driver", de Martin Scorsese
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"Taxi Driver", de Martin Scorsese

A Cinemateca Portuguesa começa a mostrar a partir de hoje, com o monumental "O Padrinho", de Coppola, o cinema que mudou Hollywood (e que o fez voltar à vida, depois da morte). Uma década inteira para redescobrir, de A a Z, em 60 filmes

O mundo mudou menos nos anos 70 do que nos anos 60: é uma questão de aritmética: houve menos revoluções, menos descolonizações, menos cenas da luta de classes. Mas o cinema continuou a mudar, assustadoramente, e de novo a partir de Hollywood.
"Eram os Anos 70", o ciclo que hoje se inicia na Cinemateca - começando exactamente onde o programa "Eram os Anos 60" terminou -, é o filme desses anos contraditórios que mudaram Hollywood a partir das cinzas do "studio system", de uma geração de cineastas com um programa, e de um novo modelo de negócio assente no "blockbuster". "É na década de 70, com 'O Tubarão', que a tradição de ir ao cinema uma vez por semana se perde e os filmes ganham essa dimensão de acontecimento excepcional. Depois da recomposição do cinema com a Nova Hollywood, que durou até 1975, o 'blockbuster' passou a ocupar todo o espaço disponível. É possível que 'O Tubarão' tenha sido o filme que mais mudou o cinema, mas seria demasiado pessimista abrir o ciclo com esse filme porque representa o princípio do fim", diz o programador do ciclo António Rodrigues.

Organizado em módulos que fazem um inventário o mais exaustivo possível - até geograficamente - do que foi o cinema da década de 70 (mas sem quebrar a quota de um filme por realizador), o programa não ignora a experiência absolutamente singular do cinema português: "O 'Amor de Perdição' do Oliveira é um luxo de pobres: fazer um filme daqueles, com quatro horas, naquela altura, é quase milagre. Mas esse filme mudou o cinema português nos 20 anos seguintes: se há país europeu cuja produção é completamente autoral até ao final dos anos 90, é Portugal", continua. Mas vamos por partes: ainda não chegámos ao O, de Oliveira.

América - A América já tinha perdido a face em 1969, quando percebeu que em Março do ano anterior 26 soldados tinham passado um belo dia a massacrar civis vietnamitas em My Lay, mas ainda tinha muito a perder (e perdeu tudo) quando entrou na década de 70. 58 mil mortos em acção (ver Vietname), duas crises petrolíferas e um Watergate depois, era um país encostado às cordas, e o cinema tinha passado a mastigar essa palavra "bigger than life", América, com remorsos, desde o "I believe in America, America has made my fortune" que abre "O Padrinho" (1972), de Francis Ford Coppola, ao "God bless America" que fecha "O Caçador" (1978), de Michael Cimino. Richard Nixon podia não saber o que estava a fazer, mas sabia o que estava a dizer: não foi o Vietname que derrotou a América, foi a América que se derrotou a si própria.

Blockbuster - Steven Spielberg era um miúdo de 27 anos quando começou a trabalhar num projecto que, mais do que fazer a releitura (ver clássicos) da tradição americana dos filmes-catástrofe (uma experiência regeneradora para uma nação que se estava a matar no Vietname), inaugurou o modelo de negócio que salvou Hollywood. "Tubarão" (1975) foi o primeiro "blockbuster" da história e alterou radicalmente a experiência do cinema. Lançado simultaneamente em 465 salas, fez mais de sete milhões de dólares só no primeiro fim-de-semana e com isso comprometeu definitivamente as 60 revoluções por minuto da Nova Hollywood, que acabou ali (e houve sangue), em Amity Island.

Clássicos - Embora se tenha feito em grande parte contra a lógica predadora do "studio system" e contra a moral que esse sistema continuou a reproduzir, mesmo depois de praticamente falido, a Nova Hollywood construiu-se também em cima das ruínas dos géneros que fizeram o esplendor do cinema americano. Os "movie brats" acharam que valia a pena reler os clássicos - e então vimos Peter Bogdanovich a reler a "screwball comedy" em "Que se Passa, Doutor?" (1972), Martin Scorsese a reler o "film noir" em "Taxi Driver" (1975) e o musical em "New York, New York" (1977), William Friedkin a reler o filme de "gangsters" em "Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), Alan Pakula e Roman Polanski a reler o filme de detectives em "Klute" (1971) e "Chinatown" 1974), respectivamente, e Sam Peckinpah a reler o "western" em "Duelo na Poeira" (1973).

Disco - John Travolta tornou-se uma estrela da noite para o dia depois deste filme, "Saturday Night Fever" (1978), que corporiza tudo o que o disco foi para a América - uma música feita para as pistas de dança, mas sobretudo uma subcultura que mobilizou toda a grande família americana (tem as suas origens históricas nas comunidades negras e hispânicas de Filadélfia, e aqui é o diabo no corpo de um italo-americano). Parece um filme de entretenimento, mas é uma fotografia de família da América - e do estado das coisas num ano em que os heróis de sempre já tinham sido substituídos, no quarto de Tony Manero como em todos os outros quartos daquela juventude em marcha, por posters de Al Pacino (ver "Padrinho, O") e Sylvester Stallone.

Europa - Não há um cinema europeu dos anos 70: há dezenas de cinemas europeus dos anos 70, sublinha António Rodrigues: "O tempo passou, os realizadores que fizeram a Nouvelle Vague atravessaram o Maio de 1968 e já não são mais um grupo. Cineastas como Chabrol e Truffaut aproximam-se do 'mainstream', outros como Godard radicalizam completamente o discurso. Ainda havia espaço para tudo, até para os filmes árduos e fechados que autores como Straub e Huillet estavam a fazer. E os grandes - Fellini, Visconti e Bergman - continuavam a filmar". No mapa europeu, três casos particulares: a Alemanha (ver JDF), Portugal (ver Oliveira) e a URSS.

Feminismo - Da Bolívia ao Reino Unido (Portugal incluído), as mulheres tomaram o poder durante a década de 70 e ocuparam cadeiras que até então nunca tinham sido delas. O endurecimento do movimento feminista é um dos traços mais marcantes da nova ordem, e filmes como "Alice Já Não Mora Aqui", de Martin Scorsese (1974), sobre uma mulher obrigada a recomeçar do zero, depois da morte do marido, e "Klute", de Alan Pakula (1971), completamente dominado pela presença, aliás oscarizada, de Jane Fonda, dão conta dessas mudanças em curso.

Guerra - É possível que a América não tivesse feito "A Guerra das Estrelas" (1977) se não tivesse feito antes a Guerra do Vietname. "Há um lado profundamente Disneylândia, profundamente infantil - imbecil até -, do cinema americano dos anos 70 e este ciclo não podia omiti-lo", explica o programador. De todos os "movie brats", George Lucas foi o que levou mais longe o escapismo da sociedade americana com uma saga que fez 127 milhões de dólares de bilheteira no primeiro ano e descobriu a galinha dos ovos de ouro do "merchandising" consolidando, definitivamente, o modelo do "blockbuster".

Hollywood, Nova - A primeira metade da década de 70 é o único período da história do cinema americano em que os estúdios perderam completamente o controlo. A falência do sistema de produção depois do verdadeiro filme-catástrofe que foi "Cleópatra" marcou o fim de uma era em Hollywood - e enquanto "O Tubarão" não iniciou outra, uma nova geração de cineastas (com outra idade, outra formação e sobretudo outra agenda) ocupou o vazio de poder. "Há um render da guarda - o cinema americano recomeça do zero. Embora figuras tutelares como Hitchcock e Minnelli continuem a filmar, já são cineastas de outro tempo", comenta António Rodrigues.

Irão - O Irão foi notícia durante toda a década de 70 - desde 1971, o ano em que o "New York Times" noticiou que o Xá tinha gasto mais de 100 milhões de dólares com as comemorações do 250º aniversário da monarquia iraniana, até 1979, o ano em que o Ayatollah Khomeini fez a revolução islâmica. Também foi notícia por causa da sua própria Nova Vaga, iniciada em 1969 por Dariush Mehrjui e continuada depois por Abbas Kiarostami. O programa da Cinemateca mostra um filme de cada - "O Ciclo" (1978), e "O Passageiro" (1974), respectivamente.

JDF - Na Alemanha, a travessia no deserto imposta pela catastrófica derrota nazi na II Guerra Mundial paralisou todas as indústrias criativas, incluindo o cinema, que explodiu na década de 70 com uma nova vaga tardia (o movimento "Junger Deutscher Film"). Grande parte dos cineastas que a lideraram, como Fassbinder ("Jogos Perigosos", 1972), Wenders ("Movimento em Falso", 1975), Syberberg ("Ludwig - Requiem para um Rei Virgem", 1978) e Schroeter ("O Reino de Nápoles", 1978), fazem parte da "shortlist" da Cinemateca.

Kung Fu - O ciclo "Eram os anos 70" inclui um módulo de cinema popular que percorre alguns dos mais significativos fenómenos de bilheteira - e, nalguns casos, de culto - daquele período, como "Febre de Sábado à Noite" (ver disco), "Fritz the Cat" (ver sexo), "Suspiria" (ver terror) e "The Rocky Horror Picture Show". "Enter the Dragon" (1973), o filme que resgata Bruce Lee do circuito dos filmes de artes marciais "made in Hong Kong" para fazer dele património americano e com isso continuar a renovar a galeria de heróis nacionais, faz parte desse módulo.

Location, on - Com a descida dos custos das filmagens "on location" e a introdução de equipamento mais leve, o cinema americano pôde finalmente sair dos estúdios e mudar-se para o país real. Foi uma mudança tecnológica e política: sair para a rua deu a toda uma nova geração de realizadores o poder de ver a América por trás do papel de cenário, e de ir atrás dela até ao fim do mundo. Coppola levou isso às últimas consequências com "Apocalypse Now" (1979), filmado em condições impossíveis na selva (ver Zoetrope), para poder dizer: "Isto não é um filme sobre o Vietname. Isto é o Vietname."

Movie Brats - Coppola, Bogdanovich, Scorsese, Spielberg, Lucas, Friedkin e de Palma foram os pivôs de uma geração de meninos-prodígio formada nas escolas de cinema e no contacto com influências vindas de todas as partes do mundo. O colapso do "studio system" deu-lhes as chaves da fábrica de brinquedos, e o cinema americano nunca mais foi o mesmo até 1975, o ano em que, com a invenção do "blockbuster", os estúdios vieram reclamar o que lhes pertencia.

Niro, Robert De - Não há grandes heróis no cinema americano dos anos 70 - há grandes anti-heróis, e um deles é o Travis Bickle que Robert de Niro construiu em "Taxi Driver" a partir da ressaca do Vietname, da crise moral que se seguiu e da degeneração dos grandes espaços urbanos. Para António Rodrigues, De Niro é "o actor mais emblemático dos anos 70": está praticamente com todos os realizadores decisivos (de Palma, Corman, Scorsese, Coppola, Bertolucci e Cimino) em praticamente todos os filmes decisivos, e ainda chega, como Brando, de quem é herdeiro, a filmar com Kazan no último filme do realizador, "The Last Tycoon".

Oliveira, Manoel de - O cinema português do pós-25 de Abril é uma experiência radical, contaminada pela euforia do PREC e rapidamente atropelada pela normalização democrática. "Não podíamos escamotear esse cinema muito datado mas que vale a pena rever", nota o programador a propósito, por exemplo, de "Deus, Pátria, Autoridade", de Rui Simões. O ciclo também passa por Alberto Seixas Santos, António Reis e Margarida Cordeiro, João César Monteiro e José Fonseca e Costa, mas a figura central é o Manoel de Oliveira de "O Passado e o Presente" (e, fora do ciclo, de "Amor de Perdição").

Padrinho, O - Não havia outra maneira de começar o ciclo a não ser por este filme que é toda uma declaração de princípios da "Nova Hollywood": Coppola recupera o cadáver do filme de "gangsters" e transforma-o numa história alternativa da América, paralela à narrativa oficial, que é ao mesmo tempo uma metáfora da sucessão que tinha acabado de acontecer em Hollywood (não por acaso, Al Pacino é o "Don" que sucede a Marlon Brando).

Quinzena dos realizadores - Fundada em 1969 - no "day-after" dos estragos que o Maio de 68 fez no Festival de Cannes - pelo mesmo grupo de realizadores que, um ano antes, sequestrara o festival em protesto contra o academismo da selecção oficial, a Quinzena foi fundamental para a divulgação de novos autores e de novas cinematografias (muitas vezes à revelia dos países de origem). Entre os filmes por ela anunciados ao mundo nesses anos estão três que cabem neste ciclo: "Cerimónia Solene" (1971), de Nagisa Oshima, "O Reino de Nápoles" (1978), de Werner Schroeter, e "Scenic Route" (1978), de Mark Rappaport.

Rocky Horror Picture Show, The - Exemplo acabado do filme de culto que com os anos perdeu a relevância para se transformar numa extravagância (as salas que ainda hoje o exibem regularmente, em várias cidades do mundo, são autênticos parques temáticos), este musical filmado nos estúdios Bray, como os grandes sucessos de terror da Hammer, dançou literalmente em cima do túmulo da tradição britânica do cinema série B - e, por uns instantes, reinventou-a.

Sexo - Com a revogação do Código Hays - que proibia a nudez, as drogas e a homossexualidade, entre outras "perversões" morais -, em 1968, o cinema americano foi onde nunca tinha ido na representação da sexualidade com "Fritz the Cat" (1972), de Ralph Bakshi, o primeiro filme independente de animação a fazer mais de 100 milhões de dólares, e o mítico "Garganta Funda" (1972). Mas foi fora da América que a figuração do sexo foi mais extrema, com filmes-escândalo como "O Último Tango em Paris" (1972), de Bernardo Bertolucci, "Salò ou os 120 Dias de Sodoma" (1975), de Pier Paolo Pasolini, ambos censurados em Itália, e "O Império dos Sentidos" (1976), de Nagisa Oshima.

Terror - O William Friedkin que está neste ciclo da Cinemateca não é o William Friedkin de "O Exorcista" (1973), o primeiro "blockbuster" da Warner Bros., mas também podia ser. O terror é um dos géneros em releitura na década de 70, de um lado e do outro do Atlântico, com o aparecimento de realizadores como os americanos George Romero, Wes Craven e John Carpenter e do "giallo" italiano com Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento.

URSS - Em 1979, a União Soviética festejou o 60º aniversário da nacionalização da indústria cinematográfica com a criação, pelo Soviete Supremo, do Dia do Cinema Soviético. O cinema ainda era completamente controlado por um regime que o via como a continuação da política por outros meios, mas alguns filmes já anunciavam a implosão do Bloco de Leste - como "Tema" (1979), de Gleb Panfilov, profundamente censurado, que o Ocidente teve de esperar sete anos para ver na versão integral.

Vietname - O Vietname dividiu a sociedade americana ao meio logo a partir de meados da década de 60, mas demorou mais uma década a impor-se, quase como um género à parte, no cinema (consumando a invasão da América pelo Vietname que foi a contrapartida emocional da invasão física do Vietname pela América). Chegou tarde a Hollywood, no final dos anos 70, com três filmes que estão fora deste ciclo - "Apocalypse Now", "O Caçador" e ainda "Coming Home", de Hal Ashby - mas que ainda assim o assombram, tal como assombraram o cinema que se fez a seguir, nos anos 80.

Woody Allen - Sete filmes, três obras-primas incontestáveis ("Annie Hall", de 1977; "Interiors", de 1978; e "Manhattan", de 1979), e isto era Woody Allen a chegar, a ver e a vencer. As fronteiras do território que ele ocupou a partir de meados da década de 70 - e que, em boa verdade, nenhum outro realizador americano quis disputar - fixaram-se com essas obras que estabeleceram Woody Allen como o grande autor europeu do cinema americano.

X-Rating - Depois de décadas de estagnação (ver clássicos e sexo), o sistema de classificação do cinema americano alterou-se radicalmente, primeiro em 1968 e depois em 1972, baixando para os 17 anos a idade legal para assistir a um filme pornográfico ("x-rated") e passando a admitir mais frequentemente a representação da violência. Depois dessas alterações, a violência gráfica passou a fazer parte da personalidade do cinema americano, sobretudo com "Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), de Friedkin, "Serpico" (1973) e "Um Dia de Cão" (1975), de Sydney Lumet, "Cães de Palha" (1971), de Sam Peckinpah, e "Taxi Driver" (1975), de Scorsese.

You talkin' to me? - Robert De Niro ao espelho, com um revólver a girar no polegar e aquela frase repetitiva a tornar-se uma ameaça. Mesmo quem nunca viu "Taxi Driver" do princípio ao fim ouviu este "You talkin' to me?" que o American Film Institute pôs em décimo lugar na lista das 100 citações mais lapidares do cinema americano - e que é a mais impressionante banda sonora, apesar de Bernard Herrmann, deste "western" nova-iorquino.

Zoetrope - Fundados em 1969 por dois "movie brats" acabados de chegar a Hollywood, os estúdios American Zoetrope foram decisivos para a viabilização de alguns dos projectos mais pessoais dos dois realizadores: "Apocalypse Now" (1979) e "Do Fundo do Coração" (1982), de Francis Ford Coppola, e "THX 1138" (1971) e "American Graffiti" (1973), de George Lucas. A história da American Zoetrope é também a história de Coppola, e de como o cinema quase o matou fisicamente, com "Apocalypse Now", e financeiramente, com "Do Fundo do Coração". Continua a ser da família - Coppola passou a empresa para o nome dos filhos, Roman e Sofia. É um filme "to be continued", a grande aventura do cinema dos anos 70.