Torne-se perito

Micachu & The Shapes são únicos e são a sua geração

Foto

É preciso "lata", dirão, para disparar: "Eu vi o presente da pop e o seu nome é Micachu & The Shapes". Mas é o que arriscamos. "Jewellery" destaca-se entre a cacofonia da actualidade.

Não é de ânimo leve que se declara algo assim. Em 2009, não é suposto atirarmo-nos às páginas do suplemento que o caro leitor tem em mãos, escarrapachar que o trio que ilustra a capa é algo de novo, isso mesmo, novo, e esperar escapar impunes. Isto por culpa de um "cliché" que, de tão repetido, ganha dimensão de dogma. O "cliché" consiste em afirmar que tudo já foi inventado e que estamos condenados, não à invenção, mas ora à reinvenção, ora ao plágio. Quem acompanha a pop sabe do que falamos. São décadas e décadas de História e os ouvidos que a apreciam a multiplicarem-se exponencialmente à medida que os anos passam. "O novo não existe", exaspera-se entre o tédio e a fúria, e nada disto, repetimos, é novidade: lá longe, agora certamente preservado em âmbar, estará o berro de um velhote denunciando os Rolling Stones como plagiadores de Muddy Waters.

Acontece que nos últimos anos tudo se complexificou. Como diziam os nossos Macacos dos Chinês numa das suas primeiras canções: "Há cada vez mais artistas e cada vez menos obras de arte". Com que "lata" podemos afirmar que tudo isso é verdade, que a multiplicação de músicos disponibilizando o seu trabalho na internet democratizou a criatividade, mas tornou uma orientação precisa virtualmente impossível; como podemos concordar com tudo isso, dizíamos, para depois disparar: "Eu vi o presente da pop e o seu nome é Micachu & The Shapes"? Como? Ora, da forma de sempre. Passando o ónus da "lata" para o outro lado. E, se for mesmo necessário, puxar dos galões de alguém como Björk, que já se declarou fã, ou como Matthew Herbert, que produziu "Jewellery", o álbum de estreia da banda, e que, em declarações à revista "Clash", não foi parco em entusiasmo: "Com todos os anos que tenho de trabalho na indústria musical, posso afirmar que ela [Micachu, 21 anos, nome verdadeiro Mica Levi] é 'the real deal'": "a próxima mulher numa linhagem de músicas brilhantes e experimentais". Entretanto, a imprensa britânica tem-se desfeito em elogios, no Festival South By Southwest foi destacada como "o" concerto a ver e o número de datas da actual digressão não pára de aumentar. Mas adiantamo-nos. Retome-se o fio à meada.

O segredo está na personalidade

Perguntávamos então: como é que os Micachu & The Shapes, a banda de Mica Levi, produtora de hip hop experimental transformada em vocalista de banda inclassificável, têm a lata de editar um álbum como "Jewellery", que nos confunde todas as coordenadas sem que isso, enquanto passamos por esta pop contagiante feita com instrumentos inventados e sons do quotidiano transformados em argamassa musical, tenha relevância? São as canções que nos conquistam, o processo criativo surge como factor de entusiasmo posterior.

É verdade que nos fomos habituando a titubear, tacteando aqui e ali entre uma cacofonia de músicas e sons vindos de todos as proveniências - entusiasmamo-nos por um segundo e, entretanto, já caiu outra recomendação, já temos mais um link para seguir: há que abandonar tudo para, num interminável vórtice de micro-revelações, recomeçar novamente. Ainda assim, não estamos condenados. De tempos a tempos, ainda acontece que uma dessas "micro-revelações" nos obriga a prestar atenção por mais tempo que os 15 minutos da praxe.

A rapariga com ar de maria-rapaz que ilustra estas páginas, cabelo curto e caracóis caindo sobre a testa, é um desses casos. Representa o presente, no sentido em que se move com à vontade por uma série de expressões. Tem formação erudita (estudou composição na Guildhall School Of Music And Drama) e tentações avant-garde (compôs uma peça para a London Philarmonic Orchestra, inspirada pelos "zumbidos e ruído branco" da estática radiofónica). Grava mixtapes que traçam roteiros sonoros das ruas de Londres, século XXI, convive com cantautores em concertos em pubs, farta-se de elogiar escultores sónicos como o amigo Kwes, ou estetas pop como outro amigo, Lime Headed Dog, e, nos Micachu & The Shapes, pega na guitarra para inventar canções em estética "do it yourself". Mais: representa o presente por não ter qualquer intenção de o fazer - não há quaisquer vestígios de programa estético. Há uma necessidade de fazer - "A música é como que o ofício da família", dir-nos-á desde a cidade de Leanington Spa, a meio de uma digressão britânica, esta filha de uma professora de violoncelo e de um docente no Royal Holloway College, estudioso da música criada durante o III Reich.

Micachu tem a convicção que, se "qualquer um consegue fazer isto [criar música]" e se é impossível "propormo-nos a fazer algo realmente novo" - sim, ela acha que "já tudo foi feito"  -, o segredo estará na "personalidade" que se conseguir incutir aos instrumentos e ao som das demais ferramentas musicais. Estará em "sermos nós mesmos interessantes" - a música, acredita, seguirá atrás. Foi por isso que a produtora Micachu formou os Shapes com os amigos Marc Pell (baterista; assina Mark Whitasee como produtor de drum'n'bass) e Raisa Khan (teclista; estudante de música na mesma escola por onde passou Mica Levi). Buscou pessoal interessante que lhe permitisse explorar novas ideias e multiplicar soluções - e que a ajudasse a suprir uma necessidade: "fi-lo [juntar a banda] para ter uma vida", confessa-nos. "Todos somos antes de mais produtores, por isso é óptimo tocarmos instrumentos juntos. Enquanto produzes e enquanto compões acabas por esquecer-te... [pausa] de comunicar com outros humanos". 

Cartografia sonora

A primeira vez que reparámos, Micachu estava na capa de Janeiro de revista britânica "Plan B". Era a cara da "nova vaga de 2009". A seu lado, publicavam-se artigos sobre as indie Vivian Girls, sobre os shoegazers Women ou sobre os Buraka Som Sistema. Não tinha ainda qualquer álbum editado. Havia quatro canções no MySpace e uma delas, "Golden phone", com o seu ritmo minimal, o luxo da sua electrónica barata e uma voz de exuberância mínima e eficácia máxima servindo um refrão contagiante, começava a tornar-se um caso "underground". Havia as canções e uma "mixtape", intitulada "Filthy Friends" e ainda disponível para download gratuito, que funcionava como passeio sónico por Londres (ouvia-se o negrume do grime, hip hop nublado e matéria electrónica perturbante, tudo intercalado pelas rimas de uma série de colaboradores e pelos samples de um áudio-livro, "London: A Biography"). Uma óbvia intenção de cartografia sonora, obviamente desordenada - quando a gravou, assinava como Shapeless [disforme] e a designação não era inocente (ter chamado Shapes à sua banda que cria canções de formas definidas é sinal do que mudou entretanto). "Filthy Friends" é então uma viagem eclética e fragmentada, criada por alguém que não tem qualquer dificuldade em filtrar e processar a imensidão de música actualmente disponível. Compreende-se: Mica Levi pertence a uma geração que nunca conheceu outra realidade. Um elo geracional que, de resto, se estende a outras questões. Por exemplo, o facto de a sua homossexualidade não ser assunto. Não por uma questão de protecção, entenda-se: é uma questão tão liberta de problematização que abordá-la em entrevistas parecer-lhe-á tão relevante quanto discutir a heterossexualidade latente de Rod Stewart. Centremo-nos então na música. É nela que Micachu se revela totalmente: "A minha irmã é mais capaz que eu e os meus pais noutras áreas, nós só nos conseguimos destacar nesta", brinca. Mica Levi destaca-se realmente. É uma personalidade criativa singular onde se manifestam, de forma notória e vital, as marcas do presente. Vejamos.
Quando os professores lhe pediam, sem sucesso, que compusesse peças mais longas, mais ambiciosas, desculpava-se com uma reduzida capacidade de concentração: "pertenço à geração i-Pod".

Quando o Ípsilon aborda a fragmentação actual da música popular urbana ela só vê possibilidades em aberto: "Parece-me que as pessoas começam a ajustar-se a essa realidade. Existe, claramente, uma grande quantidade de pessoas interessantes, com a capacidade de preencher o nosso espaço mental durante tempo suficiente". Mais: "Já não temos necessidade de esperar pelo que quer que seja, agarramo-lo simplesmente. Temos vontade de pôr as coisas cá fora rapidamente e não somos definidos por um álbum, mas por várias parcelas em conjunto: a nossa música, as colaborações que fazemos, as 'mixtapes' que montamos".

Pormenor fundamental em toda esta história é a forma como Mica Levi parece não reconhecer legitimidade a fronteiras ou hierarquias criativas. Por exemplo: Matthew Herbert não é "o" músico importante - é um colaborador que a abordou, tal como ela fez com tipos chamados Mayhem ou Baker Trouble para a gravação de "Filthy Friends". Outro exemplo: ela toca violino e viola de arco, os seus instrumentos de formação, compõe para orquestras ou para MCs, empunha uma guitarra de três cordas criada por si ou um aspirador, que tem sido transformado em peça emblemática dos concertos. Ou seja: a tradição erudita, o saber da produção hip hop, o apego ao DIY do punk. Tudo isto como uma mesma coisa. Tudo isto, um mesmo impulso: "Vem do mesmo lugar, só é composto para instrumentos diferentes e para diferentes tradições de audição". Para ela, não há distinções de valor, há diferentes "espaços mentais" - expressão que utiliza recorrentemente.

O ídolo de Mica Levi é Harry Partch, compositor americano do século XX que foi espírito beatnick precoce e é conhecido pelas dezenas de instrumentos que inventou e pelas teorias musicais revolucionárias que desenvolveu - no MySpace de Micachu, o espaço "influências" foi assim preenchido: "Harry Partch e todos aqueles outros tipos".

O compositor é um dos seus temas predilectos e, ao Ípsilon, alonga-se em explicações sobre as suas teorias e nas descrições dos instrumentos que inventou. Entusiasma-se: "É daquelas pessoas que, apenas com os recursos que têm à sua volta, conseguem criar todo um novo universo". Esse exemplo, percebemos, é a razão maior do fascínio que Partch lhe inspira. Acto contínuo, arriscamos que, de certa forma, é também isso que Micachu ambiciona. Ela baixa a fasquia: "Pessoalmente, propus-me a fazer a música que queria ouvir". Não faz sentido de outra forma: "Faz a tua própria cena e tenta não te comprometer demasiado. Especialmente agora, que ninguém compra a porra dos discos, será melhor fazer tudo exactamente como queremos". Um segundo de silêncio depois, acrescenta: "Mas neste mundo pequeno, isso não é nada de especial". Um ponto em que discordamos. A música de Micachu & The Shapes é especial: um som que se destaca, nitidamente, entre a cacofonia da actualidade.

Planeta Micachu

A comunidade

Nada de nomes cintilantes. A comunidade Micachu é de proximidade. Fala-nos de Kwes, seu colaborador e produtor londrino também destacado por Matthew Herbert. Dele e do amigo americano dele, Dog Bite ("exploram a electrónica centrados na textura e no som, por oposição a batidas propulsoras e electrónica 'glitch'"). Segue por aí fora e junta-lhes outro londrino, Lime Headed Dog, criador de pop deliciosamente disfuncional (disco de estreia este ano) - "tens de investigá-los", incita.

Harry Partch

Em 1930, aos 29 anos, Harry Partch pegou em todas as suas partituras, juntou-as num pote e ateou-lhes fogo. Nas décadas seguintes, criou um novo sistema de afinação e os instrumentos que lhe permitissem aplicá-la. Micachu adora-o: "Fez exactamente o que queria numa altura em que era quase insano fazê-lo". A principal inspiração é o exemplo: "Surpreende-me que existam tantos milhões de pessoas no mundo que não criem as suas próprias 'merdas'. Num certo sentido, é profundamente ilógico".

Grime

A referência ao grime, fulcral na música urbana britânica recente, não será imediata. Micachu desvaloriza-o como "cena": "Para muitos dos envolvidos, não era mais que a música que faziam quando se encontravam. A sua importância foi ter vincado uma identidade britânica. Era desordenado, desconjuntado e agressivo". É essa identidade que se identifica em Micachu & The Shapes. O grime, esse já foi: "Foi muito excitante, mas durou o que durou".

Do It Yourself

"Do it yourself": fazer com os meios à disposição, inventando-os se necessário. Assim foi com o punk. Hoje, as condições mudaram. Se há vontade de criar, todos os meios estão disponíveis. Micachu & The Shapes criaram uma identidade gráfica com padrões geométricos pintados em t-shirts, fazem música com o material à sua volta - guitarras e sintetizadores, aspiradores e panelas. Punks que são já são outra coisa - e que, de resto, não estão interessados em saber o que foi isso do punk.

Sugerir correcção