Porto: onde é que estão os espectadores para o cinema?

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Que segunda cidade do país é esta que já teve um dos maiores cineclubes da Europa e onde agora há pessoas para tudo, menos para o cinema?

O poster encostado à parede descascada da sede do Cineclube do Porto, na Rua do Rosário, diz "hoje há cinema infantil" mas não há - não há cinema infantil nem há cinema, ponto. Podíamos não escrever mais nada porque tudo o que vem a seguir está escrito na testa desta parede descascada, ou do tecto da Casa das Artes, que desabou em 2004 e até hoje não foi reparado: é aí que vamos ter um pólo da Cinemateca, ou lá o que é, e ainda este ano (não estamos a delirar: são declarações solenes do ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, no centenário de Manoel de Oliveira, e o Porto leva essas coisas a sério).

Há anos que não víamos o poster (a sede do Cineclube praticamente não abre: chegou a ter mais sócios do que o FC Porto e agora tem 300, mas são só dez a pagar as quotas), há anos que não sabemos o que é feito do Cineclube, mas cruzámo-nos com eles um destes dias, numa exposição na Casa do Infante que conta a história, e é uma história exemplar menos na parte em que acaba mal, de um dos maiores cineclubes da Europa.

O panorama actual da exibição cinematográfica no Porto é tudo menos exemplar - 14 salas em funcionamento, 12 das quais em centros comerciais (oito salas Lusomundo no Dolce Vita do Estádio do Dragão, quatro salas Medeia no Shopping Cidade do Porto, com um anexo no Cine- Estúdio do Teatro do Campo Alegre), e apenas um cinema na Baixa (o Est dio 111, no Teatro Sá da Bandeira), a passar filmes porno. Dos 21 cinemas activos na cidade em 1978, não há nenhum aberto. O Cineclube do Porto não fechou mas é como se tivesse fechado, o Cineclube do Norte fechou, a Casa das Artes (equipamento que depende da Direcção- Geral das Artes) fechou, a Casa da Animação tem problemas de financiamento, o festival de documentário e novos media Odisseia nas Imagens, lançado pela Capital Europeia da Cultura em 2001, ficou na gaveta de Rui Rio - e continua a não haver Cinemateca.

É como se o Porto tivesse deixado de estar à sua própria altura. "É constrangedor ver o estado em que as coisas estão quando se viveram aqueles anos extraordinários em que o cinema era a base de uma militância cultural e também uma plataforma de oposição ao regime. Era uma vivência riquíssima: as pessoas viam filmes em condições que hoje não se imaginam, e depois discutiam até de madrugada", diz Bernard Despomadères, cinéfilo furioso, amigo de Oliveira e responsável pelos serviços culturais do Consulado Geral de França no Porto, que ainda no ano passado organizou com a Medeia um ciclo de cinema sobre o Maio de 68 - "com duas cópias cedidas pela Cinemateca", acrescenta António Costa, representante (íamos dizer resistente) da Medeia no Porto.

E o público?

É uma palavra que ouvimos de cinco em cinco minutos - há décadas. No ano passado, 4373 assinaturas depois, o Ministério da Cultura assumiu a criação de um pólo da Cinemateca no Porto: é uma declaração em que já ninguém acredita (sobretudo depois de se saber que o pólo é uma coisa a três, Serralves, Casa das Artes e Casa Manoel de Oliveira, e que duas delas não existem), mas que a há, há.

Era fácil, diz António Costa: "A Casa das Artes está equipada, e não é preciso fazer um investimento por aí além. Ainda por cima, a Sala Henrique Alves Costa tem uma tradição de cinefilia: foi programada pela Medeia durante dez anos, sempre com bastante público, foi lá que a Cinemateca fez as comemorações do centenário do cinema em 1997, leva o nome de um dos maiores divulgadores do cinema no Porto, e até tem espaço para uma pequena biblioteca".

Só não sabemos se tem público (ainda há poucos meses João Bénard da Costa atirou isto à cara dos signatários da petição: as tais comemorações do centenário do cinema, em 1997, não fizeram propriamente milhares de espectadores). "Temos um grave problema de oferta, que gerou um grave problema de procura: há um público a reconstruir no Porto", argumenta João Fernandes, director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. "O Porto tem vários públicos, mas são voláteis: a Casa das Artes fazia 60 a 70 mil espectadores por ano, e lembro- me de haver dias em que o "Vale Abrãao" esgotava as três sessões. Quando fechou, esse público dispersou- se - agora é difícil reconquistá-lo. Mas quando organizámos um ciclo de cinema italiano em Outubro quase todas as sessões estiveram esgotadas.

O ''Fome'', do Steve McQueen, fez mil espectadores em duas semanas, o que não foi mau numa fase em que já só se falava dos Óscares. É óbvio que se pudéssemos estrear certos filmes em simultâneo em Lisboa e Porto podíamos potenciar o efeito multiplicador. Quando chegam cá, os jornais já deixaram de falar deles há meses - e as pessoas vêem na carteleira ''A Rapariga Cortada em Dois'' mas não se lembram que é um filme do Chabrol", explica António Costa. É um facto: as quatro salas Medeia do Shopping Cidade do Porto são notícia mais vezes por estarem em risco de fechar do que pelos filmes que tem em exibição.

No curto prazo - com ou sem Cinemateca - não vai haver milagres demográficos, e o Porto vai continuar a ser esta segunda cidade que perdeu quase 100 mil habitantes em duas décadas e que tem uma população cada vez mais próxima da que tinha no início do século XX (por dia, são 20 pessoas que saem e já não voltam).

Há uma parte desse problema que não é específica do Porto - as salas monumentais, como o Águia D''Ouro e o Batalha, fecharam porque esse modelo de cinemas se tornou obsoleto com o VHS e o DVD e com a abertura de complexos multiplex dentro dos centros comerciais. Mas há outra parte que faz desta história um caso particular. "O número de cinemas fechados e abandonados é assustador.

O Porto tem um problema grave de empreendedorismo cultural que tem a ver com uma centralização progressiva das estruturas culturais em Lisboa, a ressaca da Capital Europeia da Cultura e o desinteresse da câmara por estas questões. As gerações mais novas cresceram desligadas da produção artística - e do cinema", aponta Guilherme Blanc. Está a estudar fora do Porto, como a maioria dos miúdos que estiveram por trás do movimento Circuito - Cinema na Universidade, que federou uma série de cineclubes universitários e que acabou como sabemos, numa petição com mais de 4000 assinaturas. David Barros também: não podia estudar cinema no Porto. "Em Lisboa posso ver em sala, com condições excepcionais, 95 por cento dos filmes que no Porto teria de ver em DVD. Não fui para Lisboa fazer um mestrado por causa da qualidade da Universidade Nova mas por causa da qualidade da Cinemateca.

É disso que nos queixamos: falta-nos todo o cinema anterior à década de 90, falta a possibilidade de uma geração inteira crescer a ver cinema. Não foi sempre assim. Ainda há dias estive a fazer uma pesquisa na Cinemateca e encontrei artigos sobre as vindas do Jean Rouch ao Porto", resume. Sim, há um problema de público no Porto e também tem a ver com isto: "Se formos contar espingardas, vamos perceber que muitas pessoas que trabalham em Lisboa na área do cinema vieram do Porto, que não consegue fixar essa massa criativa", lembra Dario Oliveira, um dos quatro directores do Curtas Vila do Conde (já foram cinco, mas Luís Urbano foi para Lisboa gerir uma produtora, O Som e a Fúria).

David Barros não está interessado em ir para o divã procurar explicações: "Temos é de lidar com a situação e ultrapassar esta falácia de que não há cinema no Porto porque não há público. Também não há público se não houver cinema. É preciso começar a criar novos circuitos de cinefilia".

Carlos Azeredo Mesquita, que continua ligado ao Cineclube da Faculdade de Belas-Artes, admite que já houve mais espectadores, mas continua a ser "uma experiência curiosa": "Há pessoas mais velhas que não sabemos de onde vêm". O futuro pode passar por projectos a esta escala, diz: "Fiquei chocado com a quantidade de cinemas independentes, de bairro, que vi em Varsóvia. No Porto faltam pessoas que se mexam.

A Cinemateca seria a instituição perfeita, mas não resolve os problemas todos: há coisas mais pequenas, menos institucionais, que podem criar práticas mais densas. Também achávamos que não havia público para as artes visuais, e tanto Serralves como Miguel Bombarda são o que são".

Tudo ou nada?

Rodrigo Affreixo, que já tentou - teve os seus anos de militância no Cineclube do Norte e na revista "A Grande Ilusão", na década de 80, quando o cineclubismo do Porto teve o seu grande cisma e se partiu ao meio -, tem dúvidas: "Nisso o Porto é diferente de Lisboa. Estive a programar a sala do Teatro do Campo Alegre entre 2000 e 2001 e tentei fazer uma coisa tipo Cinemateca. A sala estava sempre vazia - não sei se por falta de promoção, ou por estar a decorrer o Porto 2001 ao mesmo tempo. De facto o circuito de exibição não pode resumir-se a isto que temos agora: era como se deixasse de haver restaurantes e passasse a haver apenas praças da alimentação. Mas a ideia com que fiquei é que os circuitos alternativos não funcionam".

Mário Dorminsky, director do Fantasporto, concorda: "As pessoas não se interessam por ciclos, a não ser que sejam suportados por filmes inéditos, porque já viram tudo em DVD. Acontece com o Fantasporto. Gostávamos de fazer mais coisas ao longo do ano, mas não vale a pena. Nesse sentido, no Porto não falta nada: está tudo editado em DVD, muitas vezes em cópias remasterizadas de altíssima qualidade".

É uma questão de perspectiva: Carlos Azeredo Mesquita diz que falta tudo, "cinema anterior à década de 90, algum cinema da própria década de 90 e muito cinema contemporâneo", João Fernandes diz que "falta, conhecida e reconhecidamente um confronto com a História do cinema, com o cinema experimental e também com muitas possibilidades do cinema contemporâneo e com as cinematografias do mundo, até porque há filmes que desaparecem após uma semana de exibição".

Olhamos para o que aconteceu em Serralves, na Casa da Música, no S. João e na rua Galeria de Paris e decidimos: tem de haver público para o cinema. "O Porto 2001 é a prova: havendo uma programação séria, uma ligação à universidade e ao meio artístico, há público. O Festival Odisseia nas Imagens tinha tudo para ter ficado para a cidade, mas a câmara não teve abertura para uma única reunião. Havia um trabalho de ligação com as universidades, com a Cinemateca e com os festivais estrangeiros, deu-se formação, encomendaram- se filmes. Todo esse trabalho se perdeu", sublinha Dario Oliveira. Falta esse festival e faltam salas de rua, diz: "Micro-multiplexes, como em toda a Europa. Não adianta haver uma sala sozinha na Baixa: fizemos essa experiência com o Passos Manuel e não foi viável porque a média de espectadores era muito baixa. É o que se passa agora com este movimento da rua Galeria de Paris: dez bares na mesma rua criam práticas com que um bar sozinho não pode sequer sonhar". Tudo o que existe no Porto na área do do cinema existe pontualmente, subscreve Abi Feijó, que foi o primeiro director da Casa da Animação: "O Fantasporto pontualmente, Serralves pontualmente, a Casa da Animação pontualmente. São gotas no oceano".

Uma rede de salas de bairro, na Baixa, pode funcionar como incentivo para que a cidade volte a ocupar o centro, mas isto já é "wishful thinking": "A distribuição e a exibição comercial são áreas difíceis, mas seria interessante que aparecessem aventuras privadas a par do formato mais institucional de um pólo da Cinemateca, até porque muitas das salas fechadas estão equipadas", defende João Fernandes. "Não temos razões para frequentar a Baixa, está tudo em ruínas a não ser a vida nocturna. O fim do projecto do Rivoli, que de facto funcionava como centro cívico, foi terrível. E tudo isto acontece à nossa frente, sem que a cidade pareça incomodada. Há esse mito de que os cidadãos do Porto são muito activos e muito resistentes, eu acho que não são: a cidade não reage às suas perdas.

É impensável que, depois de 2001, a cidade tenha eleito um presidente de câmara não só inculto como manifestamente anti-cultural", frisa o arquitecto Alexandre Alves Costa, filho do histórico director do Cineclube do Porto Henrique Alves Costa. É a favor de uma Cinemateca no Porto, mesmo que seja só para 20 pessoas: "Se não começarmos pelas 20 pessoas, nunca passaremos para as 2000". É uma decisão política, diz António Costa: "Ou se faz ou não se faz. Não se pode é desistir antes de começar".

Mas também há outras coisas que se podem fazer antes da Cinemateca: "A Casa das Artes é o centro ideal para a difusão do cinema no Porto. Ainda existe o espaço, ainda existem as pessoas, existem as universidades. Era possível abrir o Porto a outro tipo de cinema com custos baixíssimos, se houvesse boa vontade. Pode não haver público real, mas há público potencial, e um sítio para esse público se encontrar. O cinema no Porto é uma bela adormecida: precisa de pouco para despertar", diz Bernard Despomadères.

Estamos naquela fase em que já não interessa o que se vai fazer - desde que se faça qualquer coisa para acabar com este sono de 20 e tal anos.