O homem que inventa as mulheres

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Um homem é a soma das suas obsessões e o brasileiro João Paulo Cuenca tem as suas: inventar mulheres e viver muitos dias Mastroianni

João Paulo Cuenca acredita que a graça da literatura está no poder ser maravilhosamente inútil. Quando lhe vêm com histórias de como é difícil ser escritor, contrapõe logo: "Isso é muito chato, então vai fazer outra coisa, não enche o saco! Não amola."

A mãe deste carioca ensinou-o a ler, em casa, com a ajuda de bloquinhos de madeira com letrinhas. Por isso quando João Paulo entrou no colégio de freiras, onde estudou, já sabia ler. Rapidamente percebeu que tinha que "driblar" as freiras da biblioteca para ler o que elas não queriam que ele lesse, e costuma dizer que foi ao ler Dostoiévski que desgraçou a vida para sempre.

Licenciou-se em Economia, criou o seu primeiro blogue em 1999 (teve algum sucesso, hoje renega-o) e mais tarde, ao mesmo tempo que escrevia "uma narrativa longa e fragmentada" que viria a ser o primeiro romance ("Corpo Presente"), fez na Internet um diário onde contava aos leitores as suas "paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias" e onde falava de "tudo o que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda". Mandou, então, um excerto daquela narrativa longa (a descrição de um baile funk) para a revista brasileira "Ficções" - que mistura autores novos com autores consagrados - e foi publicado. "Teve imensa repercussão. A partir daí surgiu o convite de publicar o romance na editora Planeta. Tive muita sorte. Acho que não teria essa força de vontade de ficar procurando editora", afirma o brasileiro que participou no encontro de escritores de expressão ibérica, Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim.

É um livro "muito forte". Logo no primeiro capítulo de "Corpo Presente", Carmen está a dar de mamar, está a apanhar com chupadelas de um bebé, e enquanto o "bebê chupa e chupa, indiferente", ela masturba-se e "então explode". João Paulo diz que não sabe se a mãe chegou a ler o livro. "Ela foi ao lançamento, lhe dei o livro mas dediquei dizendo que ela não o podia ler. A abertura é muito pesada para a mãe do escritor ler."

Foi assim que aos 25 anos, João Paulo Cuenca (o pai é argentino) viu nas livrarias uma obra que escreveu durante três anos, julgando que nunca iria ser publicada, que nunca seria lida. Um dia, Chico Buarque, numa entrevista à BBC, disse: "Há um autor novo de que gosto muito, o João Paulo Cuenca". Para o escritor brasileiro Marçal Aquino "fazia tempo" que uma narrativa não o impressionava tanto; para outro autor brasileiro, Marcelo Rubens Paiva, o livro era "deslumbrante", explorando Copacabana e os seus personagens ao limite.

João Paulo Cuenca começou então a receber cartas, emails de leitores, principalmente de leitoras. Interpretavam o livro, diziam-lhe que as arrebatara. Um dia, uma dessas leitoras até o seguiu por Copacabana. É claro que Cuenca acabou por escrever um conto sobre isso.

Era uma menina que lhe escrevia a dizer que o tinha visto no metro no dia anterior, com determinada roupa, e confessava que o seguira durante vários quarteirões. "Eu nesse dia realmente estava vestido daquela maneira, como ela descrevia e foi estranho. Muito estranho, muito assustador. Se você entra nesse jogo literário, nessa brincadeira com o peito aberto, está sujeito a muita coisa. Muita coisa boa e ruim. Porque as pessoas fazem do que você escreveu o que elas querem."

Aquilo que parecia ser um sonho para qualquer jovem escritor, gerou uma pressão enorme. Cuenca perdeu a inocência: passou a ser um autor publicado e teve consciência de que tudo o que escrevesse a partir daquele momento era passível de ser lido.

"Você ganha muitos olhares quando está sozinho escrevendo. Ganha uma responsabilidade, um peso que não tinha até então. Por isso demorei quatro anos para publicar o meu segundo romance e é também por isso que ele é tão radicalmente diferente." É como se este segundo romance - "O Dia Mastroianni", editado agora em Portugal pela Caminho - purgasse essa pressão através da sátira.

Sem a experiência de conviver com outros escritores, de participar em festivais literários, este livro não existiria. "Ele é fruto dessa minha experiência como jovem escritor." Um autor que faz parte dos "39 escritores com menos de 39 anos" (naturais de um país da América Latina) que foram considerados os mais importantes da actualidade pela Bogotá Capital Mundial do Livro 2007 e pelo Hay Festival em 2007. Aqueles com potencial para definir as tendências que marcarão a literatura latino-americana. Um escritor que todas as semanas escreve uma crónica no suplemento "Megazine" do jornal "Globo" e que é um dos comentadores do programa Estúdio 1, da Globo News (canal de notícias 24 horas).

A nostalgia roubada

"No meu grupo de amigos no Brasil, temos essa piada interna, esse calão particular do dia Mastroianni. É quando o dia está muito divertido, inesperado e as coisas tomam um rumo glamoroso. Se você se vê numa cobertura de um hotel, tomando 'dry martini', numa festa de modelos da agência Elite de Nova Iorque isso é um dia Mastroianni", explica. "Toda a vez que isso acontecia a gente falava: 'Olha está ficando Mastroianni o nosso dia'. E no meio desse conceito, de desperdiçar as horas, comecei a engendrar essa narrativa que durasse um dia e que contasse a história de dois amigos bastante adolescentes e idiotas, pretensos artistas que vivessem de uma maneira episódica o percurso por uma cidade."

Mas sempre com essa ideia de fazer alguma coisa que o divertisse.

Além da referência ao cinema a que se chega pelo título, o livro está salpicado de brincadeiras e de referências literárias. O narrador, Pedro Cassavas, é um pretenso artista, cheio de planos e de intenções mas que não realiza nada. Cuenca traça o retrato de uma geração que tem muitos projectos e que não faz nada. As personagens brindam aos dândis precoces, aos escritores sem livros, aos músicos sem discos, aos cineastas sem filmes. "Pessoas que têm planos e pretensões e têm todo um discurso já pronto mas não têm obra."

"Oito e Meio", de Fellini e "O Acossado" de Godard deslizam pelo romance. São referências para algumas pessoas da geração de que o brasileiro faz parte, aquelas que gostavam de ter vivido há 40 anos. "Existe uma nostalgia roubada que eu tenho e conheço muita gente que tem, uma nostalgia de uma época que não se viveu. Tenho saudades dos anos 60 quando vejo certos filmes. Nunca vivi nem nunca vou viver aquilo. Vivo num mundo muito mais sem graça. E o meu livro tem um pouco disso, dessa ressaca. Essa vida que os dois personagens desperdiçam por essa cidade é uma vida sem ideologia, sem grandes amores, sem objectivo num mundo em que é muito mais difícil viver. Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, os personagens deste livro, queriam ser Mastroianni. Queriam viver em Roma na década de 70, em Paris, ou numa mistura dessas cidades e não na cidade onde eles vivem hoje", continua.

No Brasil "O Dia Mastroianni" gerou certa polémica. "Se o leitor não faz um pacto com o livro, vai detestar os personagens e tudo o que estou querendo dizer ali. Ainda mais se esse leitor for um escritor jovem ou um pretendente a ser publicado. O romance teve óptimas resenhas mas tomou também algumas pancadas. Porque é um livro ousado e corajoso. Faço uma crítica destruidora - eu acredito - à minha geração. Por mais que eu queira que o livro seja divertido ele é um pouco arrasador."

Mas ao mesmo tempo há ali universalidade. "O livro faz graça com esse cosmopolitismo que a gente vive. Ele se passa numa cidade que é a mistura de várias cidades. Numa grande cidade você tem o quarteirão chinês, o restaurante japonês, o restaurante egípcio onde você fuma haxixe, vê uma mulher fazendo dança do ventre. Tem as mulatas sambando. Dentro de uma cidade grande na Europa ou na América Latina você tem um caleidoscópio de paisagens de cidades e eu levo essa imagem nesse livro ao extremo, é uma cidade completamente inventada e misturada."

"Quero crer que o livro é universal, o caminho desses dois jovens, os dramas todos do protagonista e o seu amadurecimento, eu quero crer que não é uma coisa localizada no Brasil."

"O Dia Mastroianni" tem também uma componente de meta-literatura: "Faz piada com ele mesmo". Cuenca achou divertido começar um romance com o protagonista a ser interrogado. "O protagonista está num interrogatório, refém de uma voz. Está num balanço [baloiço], nas nuvens, no meio do céu, e tem essa voz gigantesca que fala com ele em maiúsculas. E ele responde em minúsculas. Na verdade, essa voz que as pessoas acham que é Deus ou crítico literário ou o próprio leitor, na verdade sou eu, aquela voz é minha. É uma das coisas mais polémicas do livro - tem gente que detesta - mas eu acho que funciona, inclusive como recurso narrativo."

Como queria que os leitores encarassem o livro com alguma leveza pediu a um ilustrador que fizesse uns desenhos para ajudar a dar o tom. "Como se fosse 'O Principezinho', de Saint-Exupery, que é o livro preferido das modelos do mundo inteiro. Esse traço fino foi a referência que eu passei para o meu desenhista. Pedi que fizesse desenhos de abacaxi, uma lagosta, as havaianas, Brasil o país dos chinelos."

E depois há a forma como descreve as mulheres nos seus livros "bombas de hormônio cada vez menos exigentes e mais desesperadas". Carmen, em "Corpo Presente"; doce Maria e Françoise em "O Dia Mastroianni". São livros que só podiam ser escritos por um homem, mas ao mesmo tempo João Paulo olha para as mulheres de uma maneira em que elas se reconhecem. "O meu olhar sobre as mulheres é muito infantil. É muito primário. É um horror", afirma quase envergonhado. "Perco muito tempo da minha vida pensando no que pensa uma mulher porque sou infantil. O texto pode ser maduro, mas o ponto de vista é de uma criança chocada. Uma vez uma repórter ficou muito revoltada comigo e me perguntou: 'Você escreve essas coisas para chocar, não é? Você quer chocar.' E eu falei: 'não. Eu escrevo porque estou chocado, porque me choca. E isso me gera uma reacção.'

Essa coisa com as mulheres é porque eu tenho um ponto de vista infantil e fascinado. A única maneira que um homem tem de conhecer realmente uma mulher é inventando essa mulher. Um homem não conhece uma mulher. Jamais. É uma ilusão, a fantasia de você achar que vai desconfiar aquilo que uma mulher está pensando. É impenetrável. E você pode perder a sua vida nisso. É o que eu faço. E aí você inventa. Você conhece inventando."