"Só Moretti podia ser Pietro Paladini"

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Sandro Veronesi estava convencido de que o seu livro "Caos Calmo" (Asa) não podia ser adaptado ao cinema. "É tudo psicologia, tudo palavras, há pouca acção, passa-se num único local", explica ao Ípsilon numa conversa por telefone a partir de Roma. Tudo isto o fazia duvidar dos esforços da produtora Fandango para encontrar um realizador para o projecto. Até que, um dia, Nanni Moretti apareceu numa apresentação do livro em Roma e candidatou-se não a realizar mas a interpretar a personagem principal, Pietro Paladini.

"Tenho uma confiança profunda em Moretti", diz Veronesi. "Ele tem uma experiência e um talento tal que acreditei imediatamente que poderia fazer um filme que até aí eu achava impossível". Paladini, que até esse momento, na cabeça do escritor, nunca tivera um rosto, passou a ter um, muito nítido: o de Moretti. Veronesi foi rever "O Caimão" e a imagem de Moretti dentro de um carro, no final, acabou com qualquer dúvida que ainda pudesse ter. "Vi que a presença dele continha tudo o que eu tinha pensado de Paladini. Só ele podia ser o Paladini cinematográfico".
O resultado não o desiludiu, antes pelo contrário. "Há no filme uma fidelidade muito forte ao 'mood' da narrativa, ao estado de estupefacção, até um pouco suspeito, do protagonista, ao sentido de contemporaneidade. Tudo isso foi muito bem conseguido". Moretti e o realizador Antonello Grimaldi "encontraram cinema" dentro do seu livro, quando ele "achava que não havia cinema ali".

E, sublinha, no seu trabalho como actor, Moretti "não transformou a personagem, antes pôs-se ao serviço de Paladini". Não se diga, por isso, a Veronesi que "Caos Calmo" é morettiano. "Havia, claro, um risco de vampirização da personagem da parte de Moretti. Mas se há coisa em que todos concordam é que neste caso Moretti não 'morettizou' Paladini, ele é que se 'paladinizou'".

Veronesi não participou na adaptação ao cinema, feita por Moretti e outros argumentistas. "Apliquei a regra de ouro de Alberto Moravia, que uma vez me disse que é preciso garantir a total autonomia do cinema, e que o autor [do livro] nunca consegue isso porque, mesmo involuntariamente, está sempre a defender o romance".
Mas acha que também nesse trabalho do argumento Moretti não tentou moldar a personagem à sua medida. Se reconhecemos traços "morettianos" em Paladini é porque eles já lá estavam. "Nunca tive Moretti como modelo, mas como o trabalho dele sempre me influenciou bastante, posso ter construído uma personagem na qual se encontrem coisas desse mundo de Moretti".

Como tantos outros italianos, Veronesi passou anos a ver Moretti ser Moretti, antes ainda de se terem tornado amigos e de passarem a ir ao cinema juntos, a jogarem ténis, e a discutirem os filmes de um e os livros do outro. "Na minha juventude ele foi sempre um ponto de referência, um guia moral. Há autores que dão uma carga moral às suas personagens, e é o caso dele".

Tudo isso tem um peso, e voltamos inevitavelmente à questão de perceber até que ponto Moretti contamina aquilo em que toca. "Neste filme", repete Veronesi, "ele põe-se ao serviço da personagem e faz coisas que nunca tinha feito antes, fala inglês e francês, fuma droga, chora, faz sexo, e não me parece fora de tom ao fazer tudo isso". Cá estamos, na tal polémica cena de sexo... "Quando quis fazer esta personagem, Moretti tomou uma decisão que o seu público tem que aceitar. É verdade que as pessoas mantiveram ao longo dos anos uma relação muito casta com ele, mas ninguém tem o direito de dizer que ele não pode fazer sexo nos filmes".

Este pode ser, então, o filme em que Moretti se emancipa e declara o seu direito de ser diferente daquilo que esperam dele. "Ele construiu sempre uma relação muito íntima com o público. Mas se decide que quer alterar as fronteiras dessa relação, o público terá que aceitar isso, por muito que lhe custe". E se há coisas em que não o reconhecem, paciência. "Se existe vício aí, é do espectador, que se viciou em vê-lo de uma determinada maneira".