Um dia depois de ser constituída, a F9 celebrou contrato com a AdP, na altura liderada pelo ministro das Obras Públicas

Empresa que fez estudos das Scut trabalhou com Mário Lino na Águas de Portugal

Mário Lino
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Mário Lino Inácio Rosa/Lusa (arquivo)
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A F9 Consulting, a empresa que fez os estudos que levaram à introdução de portagens em três Scut, assinou um contrato por quatro anos com a Águas de Portugal (AdP) - na altura presidida pelo actual ministro das Obras Públicas, Mário Lino - um dia depois de ter sido constituída. Segundo o registo na Conservatória do Registo Comercial, a consultora foi criada a 18 de Janeiro de 2001 e estabeleceu uma parceria para apoio financeiro com a holding estatal no dia 19. A publicitação da criação da empresa saiu no Diário da República número 73, de 27 de Março desse ano.

Contactado pelo PÚBLICO, Jorge Carneiro, actual administrador da F9 Consulting, afirmou que esta foi criada a 10 de Janeiro, e que a Águas de Portugal se tornou um dos muitos clientes que granjeou desde que foi criada. "Não há nenhuma coincidência [na proximidade das datas]. O facto é que a empresa foi criada por gente que já estava no mercado da banca de investimento há mais de 18 anos, e que é reconhecida pela sua competência. E se o contrato com a Águas de Portugal se mantém até agora, e resistiu a quatro administrações e a cinco ministros, é porque somos competitivos e competentes", afirmou.

Também o gabinete do ministro das Obras Públicas explica a proximidade das datas argumentando que "os consultores pertenciam ao BCP e já faziam trabalho na área financeira para a AdP, pelo que, na prática, a constituição da empresa e a assinatura com o grupo foi uma continuação dessa parceria".

Ligações no Ministério das Obras Públicas

O contrato entre a AdP e a F9 foi celebrado quando o actual ministro das Obras Públicas, Mário Lino, presidia ao Conselho de Administração e Paulo Campos, actual secretário de Estado das Obras Públicas, era vogal. A polémica sobre a empresa surgiu há uma semana, quando o semanário Sol divulgou que a F9 foi fundada pelo adjunto de Paulo Campos. O ministério reagiu, dizendo que Vasco Gueifão já não tem qualquer participação na empresa e que tinha havido um "lapso" no despacho de nomeação.

A ligação entre o grupo AdP e a consultora é referida no relatório e contas desse ano de 2001. Nele se lê que, "para apoio à sua actividade, a AdP estabeleceu uma parceria com a F9 Consulting, empresa de consultoria financeira com experiência relevante no sector da água e do ambiente em geral, com o objectivo de garantir o apoio, na vertente financeira, à execução dos diferentes projectos a implementar pelo grupo". Entretanto, e já depois de o PÚBLICO ter descarregado o relatório de 2001 da Internet, o documento desapareceu da página da AdP.

Jorge Carneiro recusou-se a explicar que tipo de contratos é que mantém com a empresa, afirmando que está obrigado a esse sigilo. E quis lembrar que, "para haver uma relação, tem de haver um contrato, não interessa se é avença". "Mantemos uma relação contratual com a AdP, como temos com muitos outros clientes. Somos consultores de grandes agrupamentos, com quem estabelecemos relações de confiança", afirmou.

A ADP confirmou ao PÚBLICO a existência de um contrato em vigor com a F9 Consulting: "Dada a utilidade e a satisfação com os serviços prestados por aquele consultor, a administração então em funções [liderada por Joaquim Poças Martins] decidiu estabelecer um novo contrato em Janeiro de 2005". Em relação ao pagamento, durante os primeiros quatro anos "os serviços eram pagos através de uma avença", tendo passado agora "a ser remunerados à hora, com os plafonds de cada projecto acordados previamente", explicou fonte da holding.

"O sistema de avença foi escolhido devido à grande intensidade do trabalho estimado para esse período, decorrente da necessidade de desenvolvimento dos planos de negócios relacionados com os contratos de concessão dos sistemas multimunicipais e a participação nos concursos das concessões municipais, e por se afigurar financeiramente mais favorável para o Grupo AdP quando comparado com o pagamento por projecto ou mesmo com a opção de integrar novos colaboradores nos quadros da empresa", adianta ainda a empresa. Nessa altura, os consultores da F9 trabalhavam nas instalações da AdP.

O PÚBLICO tentou, sem sucesso, mas repetidamente, contactar Poças Martins.

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