Escavações continuam

Achados mais fósseis do Homo floresiensis na Indonésia

A gruta de Liang Bu, na ilha das Flores, continua a ser escavada e estudada pelos cientistas que fizeram o achado
Foto
A gruta de Liang Bu, na ilha das Flores, continua a ser escavada e estudada pelos cientistas que fizeram o achado M. J. Moorwood

Os investigadores que descobriram há um ano o famoso homem das Flores, que se pensa ser uma nova espécie de hominídeo que sobreviveu até há cerca de 12.000 anos na ilha das Flores, na Indonésia, voltam hoje a reafirmar a sua tese na revista Nature.

A equipa da Universidade de New England, na Austrália, e de Wollongong, na Indonésia, diz que achou mais ossos, que podem corresponder a mais nove indivíduos desta espécie do tamanho de um pigmeu, que pode ter coexistido com o homem moderno.

Há um ano, a Nature divulgava a descoberta de restos fossilizados no lugar de Liang Bu. Tratava-se de vestígios de um hominídeo muito pequeno mas sem sinais de deformação, provavelmente do sexo feminino, com apenas um metro de altura e uma capacidade craniana idêntica à de um chimpanzé, mas que reunia características nunca antes descritas.

Agora a equipa anuncia que achou ossos do rádio de vários indivíduos, mandíbulas, tíbias, fémures, vértebras e vários ossos dos dedos dos pés e mãos. Ao todo, pensam que os ossos pertencem a nove indivíduos diferentes. "Com estes novos achados, podemos reconstruir, em proporções perfeitas, o Homo floresiensis. Não se trata apenas de um indivíduo aberrante ou afectado por uma patologia, mas sim de um indivíduo diferente, representativo de uma população de longo termo", explicam.

A descoberta do Homo floresiensis desafiou concepções estabelecidas sobre a evolução do homem. No primeiro artigo, a equipa afirmavam que os achados datavam de há 12 mil a 13 mil anos. Agora adiantam que há vestígios de indivíduos com essa datação, outros com 15 mil anos, e até alguns que podem ter 18 mil anos, o que não muda nada o alcance da descoberta, pois isso continua a significar que o Homo floresiensis pode ter coexistido com o homem moderno (Homo sapiens, a nossa própria espécie, que se pensava ser o único hominídeo na Terra desde o desaparecimento dos neandertais, há 28 mil anos).

"Se de facto esta é uma nova espécie, então partilhámos este planeta com outros hominídeos há muito menos tempo do que se imaginava, muito depois dos neandertais se terem extinto, depois de os humanos modernos terem chegado à Austrália e ao mesmo tempo que a agricultura foi inventada", diz Daniel Lieberman, investigador do Museu Peabody da Universidade de Harvard (EUA), num comentário publicado também pela Nature.

No artigo publicado no ano passado, Peter Brown, um dos cientistas da Universidade de New England que participou nas escavações, explicava que o Homo floresiensis tinha algumas características semelhantes aos Australopithecus, o nosso antepassado mais remoto, que terá vivido há cerca de há três milhões de anos em África. A estatura baixa, o tamanho do crânio e o facto de a base do crânio assentar na região auditiva são os pontos de proximidade. Mas a pouca espessura da caixa craniana, a cara achatada e os dentes molares muito pequenos aproximam-no do Homo erectus, que existiu há entre há 1,8 milhões e 300 mil anos.

Esta descoberta do homem das Flores gerou grande controvérsia. Alguns investigadores defendem que se trata de um pigmeu com grandes deformações ao nível do cérebro, que o fizeram mais pequeno do que o que acontece com os pigmeus modernos. Não se trataria, então de uma nova espécie de hominídeo, mas de humanos com uma doença grave. Mas nenhuma das teses contraditórias foi publicada em revistas científicas, como deve acontecer para que sejam reconhecidas.

Os novos achados incluem ossos de uma espécie de elefantes anões que existiram naquela ilha (estegodontes), e indícios de que estes hominídeos tinham dominado o uso do fogo, por exemplo para cozinhar a carne dos elefantes. Foram encontrados também utensílios. "Este comportamento complexo indica que provavelmente tinham a capacidade da fala", comentou Michael Morwood, citado pela revista New Scientist. "Mas não há indícios de que enterrassem os seus mortos, tivessem arte, ornamentos ou outros comportamentos simbólicos."