Centenas de empresários e gestores reunidos para trilhar futuro

"Compromisso Portugal" arranca hoje

Os signatários querem desenhar um modelo que crie níveis superiores de riqueza
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Os signatários querem desenhar um modelo que crie níveis superiores de riqueza António Cotrim/Lusa

Depois dos manifestos das finanças públicas, da Educação, do Contributo para um Conceito Estratégico Nacional, que ficou conhecido como manifesto dos 40, e do Pacto para a Reforma das Finanças Públicas, que envolveram nomes da sociedade civil portuguesa, surge agora um novo movimento designado "Compromisso Portugal".

São mais de 300 pessoas que se reúnem hoje em Lisboa com a missão de lançar "uma nova geração" de decisores. Propõem-se debater, entre outros pontos, um modelo económico que permita ao país alcançar níveis superiores de riqueza e sair da "cauda da Europa" nos próximos dez anos.

Com esse objectivo, os participantes do encontro, protagonizado por três gestores, António Carrapatoso, da Vodafone, António Mexia, CEO (presidente-executivo) da Galp, Diogo Vaz Guedes, Somague/Sacyr, e um empresário, Filipe de Botton, da Logoplaste, com visões marcadamente neo-liberais, querem ajudar a criar condições que levem "a sociedade civil a pressionar o governo a realizar as mudanças indispensáveis ao país". De acordo com um dos participantes, o primeiro-ministro Durão Barroso terá manifestado vontade em estar presente no Beato.

O encontro trouxe de novo para primeiro plano da actualidade um dos temas que maior controvérsia gera na classe empresarial: deve-se, ou não, manter centros de decisão estratégicos em Portugal? Ou deve-se optar apenas por manter centros de competência? Uma controvérsia a que os organizadores pretendiam fugir e que nesta fase de antecipação da reunião tem estado longe de gerar consensos.

António Carrapatoso considera a discussão em torno dos "centros de decisão nacional (CDN)" inútil. "As empresas serão centros de criação de riqueza, ou seja, também centros de competência, mais relevantes do que os chamados centros de decisão empresariais nacionais". Estes, afirma, "serão uma consequência das capacidades e competências dos empresários portugueses". António Mexia, presidente-executivo da Galp caminha pelo mesmo diapasão. "Só se consegue decidir se se for competente. A origem do capital não é importante, até porque as empresas muito eficientes são mais caras." "Não podemos ser proteccionistas", reforça. No entanto, em entrevista recente ao sítio espanhol Expansión Directo o gestor da petrolífera defendeu "um certo proteccionismo ibérico, para manter os centros de decisão das empresas energéticas em Lisboa, Madrid e Barcelona. Desta forma assegura-se os investimentos necessários em infra-estruturas", justificou, alegando estar a pensar em "França".

Já o economista António Nogueira Leite, um dos subscritores do Manifesto dos 40 e que irá participar no "Compromisso", considera "muito importante que nas áreas relevantes haja de facto capacidade de decisão autónoma. E essa capacidade passa por ter centros de decisão nacional relevantes em Portugal". "A oposição dos centros de decisão nacionais aos centros de competência é um mero jogo de palavras, pois não existem centros de decisão, se não assentarem em centros de competência", concorda o também economista Vítor Bento, redactor principal do Manifesto dos 40, insistindo numa política económica correcta. E lembrou que muitos comentadores pretendem associar os CDN ao proteccionismo, prevertendo a discussão, dado que com proteccionismo, dificilmente estes centros se mantêm. Ontem, no Expresso, o presidente da Fundação Luso-espanhola, Ernâni Lopes, defendeu o mesmo: " Se ficarmos sem nada, que papel temos? Como pode afirmar-se uma entidade política sem centros de decisão?"

Integração ibérica gera polémica

Quando se fala de centros de decisão, surge inevitavelmente a questão espanhola. Inicialmente agendado para Janeiro, o CP acabaria adiado, sendo provável que a divulgação da venda da Somague à espanhola Sacyr, quando Vaz Guedes protagonizava o seu lançamento tenha contribuído para isso. Facto que a organização nega, lembrando que a iniciativa "não é proteccionista" em relação às empresas portuguesas, tratando-se de um "encontro de reflexão".

"Pensar que o Compromisso Portugal se realiza com objectivo de promover a integração do mercado ibérico é um disparate", disse Mexia, contrariando a tese que corre, segundo a qual esta iniciativa pretende fazer passar a mensagem de que a "venda das empresas a espanhóis é a estratégia mais acertada".

O debate já envolveu o Presidente da República que foi a Espanha classificar "de anómala e desiquilibrada a presença empresarial espanhola em Portugal".É ques se Portugal deve entender o mercado ibérico como uma região que tende a desenvolver relações, é igualmente verdade que deve ter uma estratégia autónoma de Espanha, país que não pode avaliar como um monobloco. Algumas das autonomias, adoptam estratégias de competitividade económica mais eficazes e desenvolvem um percurso de conquista de instrumentos de soberania.

O próprio primeiro-ministro também contribuíu para a polémica, quando a 15 de Fevereiro de 2003, reuniu com empresários portugueses para debater a estratégia em Espanha. Durão Barroso escolheu como orador, Horta Osório, presidente do Totta, banco que o grupo espanhol Santander adquiriu de forma pouco ortodoxa. Na ocasião, a situação e a afirmação de Barroso, de que a integração peninsular era "inevitável", e que não estava preocupado com a compra de empresas e banco nacionais por espanhóis, foi mal recebido por alguns empresários e gestores, que se mostraram incomodados com o gesto. Um dos gestores presentes em São Bento, e que irá terça-feira ao Beato, suspeita que os promotores do CP possam estar em sintonia como Barroso: "pois quando um pinto pia, é porque quer pôr ovo". E deixa a questão: "Porque razão foram convidar Horta Osório, do Santander, e Viana Baptista, da Telefónica para discursar? Com todo o respeito, o que trazem de novo?"

Segundo o mesmo gestor existe "hoje entre as nossas elites uma falta de visão estratégica global e como não a perspectivam, concentram as suas relações em Espanha por quem têm fascínio". E lembra o caso do empresário da Iberomoldes, Henrique Neto, que embora exporte para Espanha, não privilegia o entendimento com Madrid, que encara como "rival". "O mundo dele é global, por isso é líder mundial no sector, onde fornece a Boeing e a Sunsonite". Em regra, no entender de Neto, uma empresa de outra área geográfica instala-se em Portugal para conquistar a partir de Portugal o mercado Ibérico, o que está de acordo com uma estratégia nacional de desenvolvimento. Ao abandonar o aeroporto da OTA, Barroso não viu a relação Portugal/Mundo, mas sim Lisboa/Porto.

Outro tema que tem sido discutido nos bastidores do "Compromisso Portugal" é o do associativismo patronal. Durante 2003, Vaz Guedes e Filipe Botton lançaram uma ofensiva contra as confederações empresariais portuguesas a quem acusam de falta de ambição e de ausência de liderança. Confrontado com a eventualidade do "Compromisso Portugal" ser uma rampa de lançamento, para substituir os actuais dirigentes, Mexia negou. Temos "que explorar o que nos une e não o que nos divide", justificou, embora admitindo como inevitáveis mudanças nas "cúpulas empresariais".

Questionado sobre a necessidade de rejuvenescer os movimentos empreariais, um gestor financeiro ironizou: "as gerações mais novas têm aspectos positivos e negativos. No 25 de Abril substituíram-se todos os lugares por gerações mais novas e o resultado não foi brilhante." E lembrou que o presidente da FED, Greenspan, tem 80 anos e "não se deu mal no lugar". O importante "é que se crie um sistema que corrija as limitações, pois existem pessoas mais velhas que estão cristalizadas, e que devem sair das funções que desempenham, e outras devem manter-se no seu lugar."

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