A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

Há dez anos, em "O Sentimento de Si", o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em "O Livro da Consciência", volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar.

"Fa franziu o sobrolho e olhou para a sua barriga, levou a mão direita à cabeça e disse: 'tenho uma imagem'. Abandonou a escarpa e apontou para o bosque e o mar: 'estou ao pé do mar e tenho uma imagem. É uma imagem de uma imagem. Estou - disse, levantando a cara e franzindo o sobrolho - a pensar."

William Golding (mais conhecido como o autor do Senhor das Moscas) escreveu estas linhas em Os Herdeiros (The Inheritors, 1955), um romance onde imagina o encontro, há dezenas de milhares de anos, de duas espécies de seres humanos. Uma mais evoluída (nós?), os "cara de osso", imberbes, erguidos, magros, com rituais e ferramentas mais complexos; a outra mais primitiva (os Neandertais?), peluda, robusta e ágil a trepar às árvores.

Uma das características mais salientes da estranha e maravilhosa narrativa de Golding é o número de vezes que recorre à palavra "imagem". Os Neandertais estão constantemente a "ter" imagens e a declarar que têm imagens (que portanto lhes pertencem) e a reflectir sobre essas imagens. Enquanto isso, as imagens, combinadas com o que vai acontecendo no mundo exterior e com a memória do passado, vão gerando emoções e sentimentos que geram outras imagens e orientam os seus actos, tanto exteriores como interiores. Estas personagens primitivas são seres perfeitamente conscientes do mundo e de si próprios, dotados de uma história pessoal e individual.

Os hipotéticos neandertais têm contudo alguma dificuldade em manipular ideias complexas - talvez um sinal de que as suas capacidades de memória ainda não desabrocharam totalmente. A tribo mais evoluída, essa, tem muito mais jeito para todos esses exercícios mentais (algo que o autor talvez quisesse sugerir quando abandona o uso da palavra "imagem", mesmo no fim, mal o relato passa a ser do ponto de vista dos "cara de osso").

Os humanos modernos tornaram-se mestres na produção de imagens mentais, na sua análise consciente e na análise, também consciente, dos sentimentos que elas provocam em nós. O nosso cérebro produ-las em contínuo e nem sequer quando dormimos conseguimos interromper o seu fluxo. Somos todos cineastas mentais natos.

As imagens são "a principal moeda da nossa mente", explica António Damásio no seu novo livro, intitulado O Livro da Consciência. E a palavra não se esgota apenas nas imagens visuais, mas aplica-se aos padrões, aos "mapas" neuronais auditivos, viscerais, tácteis e por aí fora, que o cérebro constrói em permanência. Nem os sentimentos fogem à regra: são igualmente imagens. Mais ainda, o nosso cérebro que é "viciado" na criação de mapas, também mapeia o seu próprio funcionamento, gerando imagens totalmente abstractas. "Estou convencido", escreve Damásio, "que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de imagens."

Esse filme super-multimédia que vemos na nossa cabeça começa na nossa infância - e de facto, através das relações sociais, da cultura e da aprendizagem, remonta até muito mais longe no passado, quando ainda não tínhamos nascido. Mais ainda, conseguimos antecipar o futuro e agir sobre ele em nosso benefício, individual e colectivo. E mais mais ainda, sentimos que o filme é nosso e só nosso (e de facto, somos o público exclusivo do espectáculo da nossa mente).

Mas como é que lá chegámos? O que aconteceu no nosso cérebro que tornou a consciência possível?

Cérebro, mente, consciência

Como já aconteceu nos seus livros anteriores, as respostas que Damásio se propõe dar a estas perguntas só podem ser válidas se forem firmemente ancoradas na biologia. Afinal de contas, os neurónios que suportam a mente e a consciência são células vivas como as outras; afinal de contas o cérebro, com as suas várias subdivisões e as ligações nervosas entre elas que suportam a mente e a consciência, é a mente e a consciência. Afinal de contas, tudo o que se passa na nossa mente passa-se na nossa cabeça e no nosso corpo (where else?). "De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente" escreve Damásio.

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