jornalismo escolar
“Podemos fazer perguntas aos jornalistas?” Sim, estão no sítio certo
O 4.º Encontro Nacional de Jovens Jornalistas juntou, durante dois dias, cerca de cem alunos e professores de todo o país. Aprendeu-se partilhando e aprendeu-se fazendo. No final, fez-se um jornal.
Beatriz Marques, 14 anos, lança a questão à professora: «Podemos fazer perguntas aos jornalistas?» Está sentada a meio da plateia do Auditório Municipal de Almada, e não precisa de sussurrar, porque ainda não começou a sessão de abertura do 4.º Encontro Nacional de Jovens Jornalistas, uma iniciativa do PÚBLICO na Escola e da Direção-Geral da Educação (DGE) que, nos dias 13 e 14 de março, reuniu uma centena de alunos e professores de 27 escolas e agrupamentos para falarem das suas experiências no jornalismo escolar e aprenderem com jornalistas do PÚBLICO.
Beatriz e o colega Diego Bastos vieram do Poceirão, Palmela, com a professora Paula Barroca, para se inspirarem no que aqui iam ver e ouvir e tornarem Sumário, do Agrupamento de Escolas José Saramago, num jornal dos alunos. «O jornal já existe, no site da escola, mas é escrito por professores e queremos dar o próximo passo: construir uma nova dinâmica com alunos», explica a professora, pouco depois de Beatriz lhe ter mostrado os apontamentos que tomara num caderninho. «Adoro escrever», conta Beatriz, «e vou escrever sobre tudo o que estou a viver, incluindo a viagem para cá chegar.»
Talvez Beatriz escreva um dia sobre o «vês, vês?» que a professora lhe murmurou quando David Pontes, diretor do PÚBLICO, contou, na abertura do Encontro, que o primeiro jornal por que foi responsável foi o Pirata da Imprensa, quando andava na escola em Espinho. «Com os vossos jornais escolares, vocês serão cidadãos ativos e mais bem preparados para intervir. É nisso que pensamos quando fazemos o PÚBLICO na Escola», explicou, acrescentando que sentia um «banho de energia» ao estar ali com estudantes das publicações premiadas no último Concurso de Jornais Escolares, a que se juntaram alunos de Clubes de Informação e Comunicação de escolas de todo o país e estabelecimentos de ensino do concelho de Almada, convidados pela DGE. José Carlos Sousa, diretor de Projetos da DGE, há-de enquadrar o Encontro na estratégia de Cidadania e Desenvolvimento: «É fundamental termos a voz ativa dos jovens nos documentos orientadores da Escola, sabermos o que sentem e como escrevem. Cabe-nos dotá-los da capacidade de decidir.»
Tal como nas edições anteriores (em Lisboa, Mafra e Ponte de Lima), o Encontro realizou-se no território de um jornal distinguido no concurso do PÚBLICO na Escola – na verdade, dois: o Margem Certa, da Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, e Mar da Palha, do Agrupamento de Escolas Emídio Navarro, anfitriões da iniciativa, juntamente com a Câmara Municipal de Almada.
Foram alunos desses dois estabelecimentos de ensino que desenharam o logótipo da iniciativa, asseguraram a receção e acolhimento dos participantes, assumiram o papel de apresentadores, entrevistaram em palco dois jornalistas de Almada (André Luís Alves, freelancer que tem coberto o conflito na Ucrânia, e Sofia Quintas, diretora do Almada Online), imaginaram e criaram o Escape Room que animou a noite de quinta-feira, antes de os alunos recolherem ao ginásio da ES de Cacilhas-Tejo, onde acantonaram.
Não sabem? Pesquisem
No primeiro dia, no palco do Auditório Municipal, alunos dos jornais premiados foram contando à vez como se organizam, a que se propõem, o que têm feito. Tiago Marques, do Escrita Irrequieta, Albergaria-a-Velha, diz que sente que esta «também é uma maneira de nos prepararmos para a vida, porque vamos entrevistando pessoas e perdendo a vergonha». «Para mim, o jornal é importante porque posso escrever sobre o que gosto, cinema e música, e tenho melhorado a minha escrita», partilha Leonor Carvalho, do Se Bem Nos Lembramos, da ES Vitorino Nemésio, ilha Terceira. «Queremos criar uma relação mais próxima entre os jovens e a realidade», diz, convicta, Matilde Moreira, também dos Açores, mas de Santa Maria.
Mas nem foi preciso iniciar-se a primeira sessão do Encontro para se começarem a trocar experiências. À entrada do Auditório, Cristina Pereira, professora do AE Pioneiros da Aviação, Amadora, meteu conversa com a professora do AE Silves Sul. Ambas trouxeram duas alunas, e ambas querem aprender com outros como dinamizar os jornais das suas escolas. «Fiz a formação do PÚBLICO na Escola para aprender a funcionar com o True [plataforma que o PÚBLICO disponibiliza para as escolas criarem jornais digitais] e gostei muito», comenta a professora da Amadora.
Além do efeito de contágio que a troca de experiências entre alunos proporciona, outros dos objetivos do encontro, durante o qual é elaborado um jornal, é promover o contacto entre jornalistas profissionais e os jovens jornalistas escolares. Na tarde de quinta-feira, cinco workshops com jornalistas do PÚBLICO permitiram aos alunos, divididos por salas de aula na escola de Cacilhas, aprenderem e meterem as mãos na massa. O tema da realidade aumentada ficou nas mãos de duas professoras de design da ES de Cacilhas-Tejo, Ana Ladeiro e Rita Gorgulho.
Já os professores tiveram oportunidade de ouvir Luísa Gonçalves e Bárbara Simões, coordenadoras do PÚBLICO na Escola, falar sobre como editar um jornal escolar e trocar ideias e debater exemplos com elas.
Reportagem em vídeo
Quando, no workshop sobre jornalismo multimédia, Joana Bourgard, editora de multimédia do PÚBLICO, lançou o desafio de produzirem uma reportagem em vídeo sobre o Encontro, a primeira reação foi o silêncio. Mas depois de explicar as fases do processo – guião, recolha de imagens, produção, edição —, houve muitos dedos no ar. Mafalda e Hugo, colaboradores de O Furo, jornal do AE nº 2 de Serpa (criado há mais de três décadas por Luís Afonso, cartoonista do PÚBLICO), oferecem-se como jornalistas. A sessão termina com o guião escrito, mas o trabalho não acaba: os alunos terão até segunda-feira para enviar as imagens, vídeos e entrevistas que fizerem durante o encontro, para depois o vídeo ser montado.
Noutra sala, Beatriz Marques, que na sessão de abertura tomava notas para escrever sobre o Encontro, está surpreendida com o que está a aprender sobre fact-checking com Bárbara Baltarejo, jornalista do PÚBLICO. Ela e os colegas têm de confirmar a frase: «O próximo governo será o quarto a mexer no PRR.» Não sabem o que é o PRR? Pesquisem. Será que já existiram quatro governos desde o PRR? Pesquisem. E, claro, não vale usar o Chat GPT.
No andar de baixo, Manuel Carvalho fala sobre os diferentes géneros jornalísticos, socorrendo-se da edição impressa do PÚBLICO. Desenha uma pirâmide invertida para explicar a técnica clássica de escrita de uma notícia e propõe que os 11 alunos se dividam em grupos e façam eles uma notícia sobre aquele workshop.
«Foi uma sessão com muita informação que me fazia falta, só sabia o básico», comenta no final Gabriel Antão, do jornal Sinopse, Albergaria-a-Velha. «Interessou-me sobretudo um género específico, a crónica, que eu conhecia mal e agora vou tentar», diz Luís Trindade, do AE de Monserrate, Viana do Castelo, que escreve regularmente artigos de opinião para um jornal regional. «A apresentação dos jornais escolares premiados foi bastante enriquecedora, mas, até agora, o workshop foi o ponto alto do encontro», acrescenta.
Manuel Carvalho já não ouviu o comentário de Luís. Mas os alunos ouviram muito bem o que o redator principal do PÚBLICO disse antes de se despedir deles: «Vocês estão de parabéns! Tão de parabéns que gostava de fazer outra sessão convosco. Vocês têm feeling, não deixem de fazer jornalismo escolar.»






