Jornais Escolares

Com Efeito e CREScendo vencem Concurso Nacional de Jornais Escolares

Publicações vencedoras são reflexo dos interesses dos alunos e do trabalho persistente dos professores.

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No universo dos jornais escolares, “diversidade” é palavra de ordem. Há jornais em papel, digitais, de parede, de agrupamento e de escola, uns mais generalistas e outros especializados. As histórias e os contextos de cada um também são diferentes, mas há momentos em que se assemelham ou intercetam. Poderá um jornal escolar tornar-se uma versão melhorada de si mesmo depois de um aluno lançar o desafio aos professores coordenadores? O Com Efeito, jornal do Agrupamento de Escolas Dr. Mário Sacramento, Aveiro, e o CREscendo, da Escola Secundária de Sampaio, Sesimbra, são a prova de que podem. E são os grandes vencedores do Concurso Nacional de Jornais Escolares 2024/25, iniciativa do PÚBLICO na Escola.

Para ambos, o destaque na categoria A (Melhor Jornal de Agrupamento) e B (Melhor Jornal de Escola), respetivamente, é uma estreia. As suas coordenadoras, ambas professoras de Português, não escondem a surpresa e a felicidade, numa chamada telefónica com o PÚBLICO. Teresa Correia, coordenadora do Com Efeito, conta que esta publicação com mais de uma década já tinha estado para concorrer noutros anos, mas nunca conseguiam ter a segunda edição do ano pronta a tempo. Desta vez conseguiram, concorreram e venceram. Já para o CREscendo, receber esta distinção é subir um degrau: na edição de 2022/23 ganharam o Prémio Melhor Reportagem. “É simbólico do nome do nosso jornal, estamos mesmo a crescer”, diz a coordenadora, Catarina Labisa, entre risos.

Nos segundos lugares das categorias A e B, também há uma estreia e um jornal que já tinha recebido um prémio especial: o Entre Pontes, do Agrupamento de Escolas de Ponte de Lima, e a Revista Atómica, da Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, Oeiras. Distinguem-se entre cerca de uma centena de projectos provenientes de escolas em Portugal continental, ilhas e escolas portuguesas no estrangeiro. Na lista final de prémios, que tem mais oito especiais e totaliza 10.500 euros, estão jornais em papel e digitais representativos dessa dispersão geográfica. São feitos em São Tomé e Príncipe, Almada, Loulé, Cascais, Vila Real, Covilhã, Odivelas e Santo Tirso.

“O CREscendo, no início, há uns 20 anos, era uma pequena publicação da biblioteca sobre os livros que chegavam, e não tinha muita contribuição nem dos alunos nem dos professores”, recorda a professora Catarina Labisa. Foi nas suas mãos que se expandiu e começou a incluir artigos maiores, com um forte incentivo de João Pinhal, o autor das reportagens premiadas em 2022/23, que na altura era um aluno com “muito interesse pela área”. Catarina aproveitou o entusiasmo e incentivou os alunos a começarem a escrever sobre assuntos que lhes eram próximos ou os inquietavam.

Recorda-se, ainda hoje, da reação a uma dessas reportagens vencedoras, sobre as aulas de educação sexual na escola: “Gerou muito debate. De repente é a própria escola que está a ser analisada, e as pessoas podem refletir e reconsiderar qual é o seu papel naquela área, o que podem fazer melhor e repensar. Conduz-nos a um exercício de autoconsciência.”

Os exemplos do CREscendo e do Com Efeito mostram que o jornal escolar pode ser um espaço para que os alunos sejam ouvidos e se apresentem como cidadãos do agora. Que tenham naquelas páginas a garantia de liberdade. “Os artigos que os alunos escrevem são muito livres: fazemos notícias sobre o que aconteceu na escola, mas grande parte dos artigos é sobre temas propostos por alunos e preocupações que eles têm. Quando nos reunimos, perguntamos sobre o que gostariam de escrever, quais são as preocupações deles, e também os orientamos”, explica Teresa. Entre alguns desses temas que sugeriram estão as eleições, multiculturalidade, o uso de substâncias ilícitas, mas também “assuntos culturais relacionados com livros que leram ou filmes que viram”.

Para a professora de Aveiro, não há dúvidas: “Esta é uma forma de cidadania ativa: estar atento ao que nos rodeia tanto em termos sociais, políticos, culturais e ambientais.” ­­

Um “balanço muito positivo”

Luísa Gonçalves, coordenadora do PÚBLICO na Escola, é presidente do júri do concurso e conta que tem notado um envolvimento cada vez maior dos alunos, ao longo dos últimos anos, nas publicações a concurso. Os temas abordados, que vão desde a contraceção de emergência à Inteligência Artificial, são “a maior evidência” disso. “Estes fatores são relevantes para a construção das estratégias de Educação para a Cidadania das escolas”, destaca.

O júri constatou ainda, diz, “uma maior articulação das disciplinas e mobilização dos recursos que existem na escola”. “Temos muito mais reportagens, que era um género residual noutras edições, muitos trabalhos de ciência (é rara a publicação que não tem um trabalho de ciência), revistas especializadas em matemática, literatura, artes, com uma forte presença das bibliotecas escolares”, continua.

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No concurso participaram jornais impressos e digitais, das mais diversas proveniências geográficas Tiago Bernardo Lopes?

O papel das bibliotecas escolares é, aliás, o mote de um dos novos três prémios especiais deste ano — Melhor Trabalho Dinamizado pela Biblioteca Escolar, Melhor Trabalho de Promoção da Leitura e Melhor Trabalho sobre o Poder Local Democrática — , mas Luísa Gonçalves sublinha que “essa importância é visível na maioria das publicações, assim como o investimento na promoção da leitura”. Destaca ainda a influência positiva de alguns programas de âmbito nacional dirigidos às escolas — das ciências às artes, como o Ciência Viva e o Plano Nacional de Cinema, entre outros — , com fortes reflexos em trabalhos produzidos. “São jornais que nos mostram as escolas muito para além dos seus desempenhos nos rankings.”

O balanço é “muito positivo”. “Esta foi uma edição especialmente feliz, porque registámos vários jornais novos, e acima de tudo assinalamos a inexistência de publicações institucionais e que são meros repositórios de trabalhos.” No sentido de continuar a incentivar uma prática de jornalismo escolar cada vez mais intencional, vale a pena recordar o lançamento recente do livro O Mundo na Escola. Dinamização de Meios de Comunicação Escolares, coordenado pelos investigadores do projeto bYou, da Universidade do Minho, e com a participação de vários jornalistas do PÚBLICO e da equipa do PÚBLICO na Escola.

O júri do Concurso Nacional de Jornais Escolares 2024/25 foi composto por Andreia Sanches (redatora principal do PÚBLICO), Helena Soares (designer e professora), Isabel Leite (Edulog-Fundação Belmiro de Azevedo), Luísa Gonçalves (coordenadora do PÚBLICO na Escola) e Teresa Calçada (ex-comissária do Plano Nacional de Leitura).