Pizarro recusa saúde em estilo ChatGPT do PSD e acredita em acordo com médicos

Ministro da Saúde esteve na Academia Socialista e, além de criticar o “afã de privatizar” da direita, ironizou sobre a alternativa de Montenegro para atribuição de médico de família.

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Manuel Pizarro disse estar "muito motivado" para chegar a acordo com os médicos LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS
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O ministro da Saúde lamenta a "crispação com as organizações profissionais" nas negociações e quer um discurso "ao contrário disso" porque sabe que não conseguirá fazer as mudanças necessárias na reorganização dos cuidados de saúde, incluindo a aplicação da dedicação plena, "sem a colaboração dos profissionais". "Temos que tentar diminuir as nossas diferenças e encontrar um espaço comum de cooperação. O Governo está muito motivado", disse Manuel Pizarro este sábado ao fim da tarde, perante os jovens que frequentam a Academia Socialista que se realiza em Évora até domingo.

O ministro defendeu a reorganização da prestação de cuidados de saúde primários com a generalização das Unidades de Saúde Familiar (USF) de tipo B que passam a usar critérios que medem a quantidade e a qualidade dos serviços prestados e fazem depender um aumento da remuneração dos profissionais desses resultados. Um modelo de organização que se deve estender a prazo também aos hospitais, através dos chamados centros de responsabilidade integrados (CRIS), onde a dedicação plena dos profissionais é um critério fundamental para a sua concretização.

Pizarro realçou que o Governo fez um acordo "com a generalidade dos sindicatos para a valorização [das carreiras] dos enfermeiros". "Estamos com esta proposta aos médicos, de generalização das USF tipo B e nos hospitais a generalização da dedicação plena, com o correspondente aumento da sua remuneração" de 33%. Um valor que "não pode ser visto como uma menorização da profissão", defendeu o ministro com números: um médico em início de carreira passa de 2861 euros para 3780 no regime de dedicação plena.

Com auto-elogios ao PS pela melhoria dos indicadores de saúde como da mortalidade infantil e materna e a esperança média de vida (como consequência da criação do SNS), Manuel Pizarro falou dos actuais três grandes objectivos das políticas de saúde: aumentar a "produção", organizar e aumentar o acesso aos serviços de saúde e requalificar o SNS (através da mobilização dos profissionais e da melhoria dos equipamentos).

Mas houve também bicadas à oposição. Pizarro recusou a acusação de "preconceito ideológico" do PS na saúde - tem preconceito, sim, mas o de querer assegurar que "todos os cidadãos têm acesso a cuidados de saúde sofisticados" -, assim como de ignorar o sector privado. Em resposta, lembrou que PSD e CDS votaram contra a criação do Serviço Nacional de Saúde e que foi o PS que lançou todos os concursos e assinou todos os contratos para os hospitais em parceria público-privada.

"O PSD fala, fala, fala, mas nunca fez nada. Tentam repetir que haveria solução mágica para resolver os problemas que o SNS enfrenta, mas esse é um discurso baseado em falácias e demagogias", apontou o ministro. "Estive a ler as propostas do PSD e percebi que a solução de Luís Montenegro para quem não tem equipa de saúde familiar é o ChatGPT: em vez de atendimento presencial, o utente telefona. Temos investido na linha SNS24, mas não é em vez de médico de família", ironizou Manuel Pizarro.

"O recado da direita sobre saúde é privatizar, privatizar e privatizar; a única proposta que fazem é essa. Além da linha de atendimento para substituir médicos de família... (...) O tema da saúde tem que ser tratado com mais responsabilidade e menos demagogia, como faz a direita no seu afã de atacar o SNS."

"O que queremos é ter médico de família para todos", vincou o ministro, mas essa é uma promessa em que o Governo tem visto escapar-lhe os números por entre os dedos, já que em vez de reduzir os utentes sem médico de família, essa estatística já duplicou. A solução vai demorar e exige "persistência", admitiu. As vagas dos cursos de medicina foram aumentadas, assim como dos concursos para medicina geral e familiar alargadas, a que se somará o "isco" do aumento dos salários com a dedicação plena nas USF e nos CRIS.

A antiga ministra Ana Jorge, a outra convidada do painel "SNS: que futuro?", salientou que o sistema de saúde enferma de dois problemas: a organização dos serviços e a saúde das pessoas. A também actual provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa admitiu que "faltam directores que saibam e queiram motivar e organizar equipas para trabalharem de forma diferente", num regime multidisciplinar e em rede.

No caso das pessoas, é preciso agir pela prevenção, apostando em comportamentos mais saudáveis, mas também investir na literacia em saúde, isto é, ensinar os utentes a saberem procurar o serviço de saúde de que necessitam em cada situação e usarem os meios que têm à sua disposição. Isso impediria o afluxo desnecessário às urgências, por exemplo. Ana Jorge lembrou que enquanto ministra lançou o cheque-dentista, mas a maioria deles não foi usada, apesar de os utentes se queixarem da falta de acesso a cuidados de saúde oral.

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