Eu não quero morrer no Facebook

O pior é já cá não estar para explicar! E se faço tanto falta, porque diabo não me disseram antes de partir?

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Eu não quero morrer no Facebook, eu não quero que digam a meio mundo onde eu (já) não estou, porque eu não quero que meio mundo saiba, nem meio mundo nem o mundo todo, porque se eu me dei a tanto trabalho para nada divulgar sobre o que com a minha vida se passava (já o mesmo não posso dizer de certas pessoas, cujas mentes e vidas são livros abertos para que outros possam discorrer, comentar, vilipendiar, espezinhar), porque raio há-de alguém "postar" a minha fotografia com o título “mais um anjo da guarda“ quando eu nem fotografia de perfil, frente ou costas, tenho no Facebook, ou asas a acompanhar (e anjo por certo não sou!), e se assim é por alguma razão há-de ser?

O pior é já cá não estar para explicar! E se faço tanto falta, porque diabo não me disseram antes de partir? Porque carga de água não me telefonaram, mandaram um postal ou, já agora, um "email", que de "emails" também eu sabia e a idade é só a fingir, para dizer um “olá, aqui estou. Está tudo bem?“, porque estão genuinamente preocupados connosco ao invés de andarem para aí a correr entre os empregos que não quiseram, os filhos que não planearam, as vidas que não escolheram, como a família, mas ao menos a família ainda queria saber de vós, já a vida nem por isso, e quando a gente cá não andar será tarde demais, para no fim ficarem tão sós como só vivi eu, esquecidos pelos filhos como eu esqueci os meus pais, repetindo uma história que não pediu para se repetir ou tocar em "playback", mas que no entanto se repete numa linha contínua de velhos achados em casa quando já não há ninguém para abrir a porta, ou caídos ao lado dos lençóis de boca no chão sem sequer uma mão que os agarre num último adeus.

Por isso, por amor de Deus, e eu que nem católico sou, mas sou português, não me encham a fotografia de bordados, rendilhados e florinhas, quais meninos e meninas de calções e saiotes a quererem chamar a atenção dos adultos para o seu sofrimento, quando já não há adultos para vos levar pela mão, talvez porque tenham enxotado essa mão quando, por vossa vez adultos, caíram pela primeira vez, e nós só quisemos ajudar. E depois também não percebo como se pode pôr um “like“ nestas fotos (?), porque afinal já não sei se a ideia é homenagear o morto, esticado ao comprido das tábuas e da madeira, ou apenas mais um “post“ cujo intuito consiste em cultivar essa vaidade que de mim não herdaram, nem eu incentivei.

No fim, façam-me um favor: já que mais uma vez fizeram das vossas sem dar cavaco aqui ao falecido expondo-me nas redes sociais contra vontade, agradecia que ao menos se viessem despedir no funeral do velho ao invés de andarem para aí a tirar "selfies" nas férias marcadas para a Malásia há seis meses e o gajo logo tinha de morrer agora. Porque no fim não sei mesmo o mal que vos fiz para além de vos ter feito, e se um filho não escolhe os pais, a verdade é que um pai também não escolhe os filhos.

O padre, chamado à última da hora, e eu que nem Católico sou (já o disse), pergunta-se “mas, então, não vem ninguém?“ entre um pai-nosso com a mão direita, meia dúzia de preces e dois homens de mangas cavas e calças rotas, ao melhor estilo dos trolhas, que me baixam em direcção à terra e ao pó de onde um dia há muitos anos vim, ao mesmo tempo que, com a mão esquerda, tecla no Facebook: “Agora os funerais são só nas redes sociais :)“.

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