Guia para ouvir uma canção antiga

Ouvir hoje as músicas que marcaram tantos anos é como comprar um bilhete de comboio para um lugar que já não existe. No meu caso pessoal, sei que foram os Offspring que me orientaram a vida para o rock e, posteriormente, para o metal

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José Manuel Ribeiro/Reuters

Gosto de acreditar que sou um melómano, embora saiba que não carrego em mim uma daquelas invejáveis enciclopédias que conseguem, sem esforço, desbravar o terceiro álbum de originais da Joan Jett. Acompanho a indústria da música como um curioso apaixonado e, uma vez por outra, canso-me de tanta novidade. Por isso mesmo, permiti-me regressar ao passado e atirar para o iPod a discografia inteira da primeira banda à qual me dediquei com afinco.


Oiço hoje Offspring quase como se fosse um “guilty pleasure”. Já não gosto das vozes, os ritmos acelerados “apunkalhados” já pouco me dizem e as melodias estão muito vistas. Mas é a minha banda de adolescente. Aos que lêem estas palavras, este facto pouco interessará: tanto são Offspring como podiam ser os Xutos ou os Cebola Mol. A minha questão é esta: de alguma forma, todas as nossas primeiras músicas nos ensinaram algo e definiram um gosto para os tempos vindouros.


Ouvir hoje as músicas que marcaram tantos anos é como comprar um bilhete de comboio para um lugar que já não existe. No meu caso pessoal, sei que foram os Offspring que me orientaram a vida para o rock e, posteriormente, para o metal. Sei também que é graças àqueles quatro sujeitos insuspeitos que sei fazer música numa guitarra e que foram eles que me definiram, a um nível embrionário, o gosto pela política. Graças a eles e ao seu ideário anti-nacionalista, não me espanta assim tanto que os Estados Unidos invistam mais em drones do que na educação das suas crianças. Graças a eles, este que escreve até levou a cabo uma tese de mestrado sobre músicos que assumem papéis enquanto intelectuais na esfera pública. Custa-me, ainda assim, ver uns Offspring caídos em desuso. Já pertíssimo dos seus 50, de barriguinhas em riste e sem o fulgor de outros gloriosos tempos. Mas sobram as canções, que me fazem admirar os músicos pelas carreiras que seguem.


Pensemos juntos: é admirável que dois ou três ou quatro ou cinco ou nove indivíduos decidam juntar-se para tocar, sem fazer a mais pálida ideia de que podem influenciar a vida de alguém até aos ossos. Brian “Dexter” Holland — que até tirou um doutoramento em bioquímica, mas preferiu andar pelo mundo fora de guitarra aos ombros e de microfone à frente do nariz a estar enfiado num laboratório a descobrir salvações para a humanidade —, desconhecerá, ainda hoje, a plena magnitude da sua decisão. Nunca virá a saber que, numa aldeia do Portugal profundo, um garoto de catorze anos rebentou vinte e três cordas de uma viola velha a tocar o “Self Esteem” e o “The Meaning of Life” e o “No Brakes”, há mais de uma década.


A uns mais, a outros menos, as primeiras canções ouvidas ensinaram alguma coisa. A uns mais, a outros menos, a primeira música amada foi definidora dos dias e de hoje e assim permanecerá sempre. Ver com os olhos de hoje aquilo que tanto se amou quando ainda éramos farrapos de gente representa uma extraordinária chamada à Terra. Uma visita ao passado é sempre professora para o futuro.

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