Sem-abrigo

O que lhe ocorre quando ouve a palavra sem-abrigo? Que sugere para enfrentar o problema? Uma crónica regular sobre pessoas em situação de exclusão

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Adriano Miranda

“O que pensas quando ouves a palavra sem-abrigo”?, perguntou-me. Olhei-o sem lhe responder. Teria sido mais simples fazê-lo antes de o conhecer, há uns meses, na Estação de São Bento.

Não, não me ocorreu a imagem de um velho desgrenhado embrulhado num cobertor encardido. Nem a de um jovem desdentado a fazer gestos inúteis enquanto tento estacionar. Quando ouço a palavra sem-abrigo lembro-me dele, do Chris (na foto), e da sua solidão desmedida.

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Ana Cristina Pereira é jornalista do PÚBLICO

“Eu nunca pensei!”, comentou comigo, noutra ocasião. “Eu nunca pensei chegar a uma altura da minha vida em que só falaria com toxicodependentes, alcoólicos, mendigos, prostitutas, prostitutos, sem-abrigo.” O resto do mundo parece-lhe interdito no que aos afectos diz respeito.

Levanta-se cedo. Levantam-se todos cedo lá na Casa da Rua, comunidade de inserção da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Têm de estar na rua às 9h. A rua é o seu lugar. A casa é um lugar emprestado, aonde vão comer, tomar banho, tratar da roupa, dormir, desenvolver alguma actividade.

Sim, ser sem-abrigo também pode ser ter um quarto, três refeições completas e muitas roupas para trocar. É um vaidoso, o Chris. “Gosto de vestir bem. Se tivesse uma casa, mudava de roupa três ou quatro vezes por dia. Às vezes, saio todo de vermelho ou todo de branco ou todo de preto. Quando ando na rua bem vestido, olham para mim e pensam: ´Ó, bem vestido e sem dinheiro!´

Acha que a sua solidão se faz de não ter dinheiro, nem eira, nem beira. Amiúde, pensa no que seria se. O que seria se sucumbisse à tentação de voltar às velhas lides? Conhece tanta gente que anda a furtar e a quem não faltam roupas, perfumes, mulheres, sim, sexo, namoro, talvez amor.

Está a fazer um esforço para agir segundo as regras, para encontrar uma passagem dentro delas. Está a ajudar a preparar um encontro de sem-abrigo e quer saber o que vem à cabeça de cada um quando ouve essa palavra e que soluções sugere para atacar o problema – não as pessoas.

Preciso da vossa ajuda para lhe responder. O problema é tão complexo. O país deu alguns passos, mas há tanto por fazer. A vontade dos sem-abrigo é fundamental. É preciso trabalhar essa vontade. Sem isso, nada. Sem oportunidades – a nível de saúde, habitação, formação ou emprego –, nada também. E tudo isso se torna mais difícil à medida que o país se afunda nesta crise.

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