Ordem de Malta, mais um episódio no confronto entre Papa e conservadores

Francisco vai nomear delegado para substituir grão-mestre da ordem, após conflito azedo entre as duas entidades soberanas. Em pano de fundo, um braço de ferro entre o Papa e o cardeal Burke.

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O Papa e Feisting numa audiência em 2016 Gabriel Bouys/Reuters

É uma decisão histórica: o Papa forçou a demissão do líder da Ordem de Malta que questionara a sua autoridade e nomeou em seu lugar um “delegado pontifício”, limitando na prática a autonomia de uma ordem com 900 anos de História e que, à semelhança do Vaticano, é uma entidade soberana. Foi o culminar de mais de um mês de conflito, que decorre no contexto de um confronto entre Francisco e os sectores mais conservadores da Igreja que se opõem aos seus esforços de abertura pastoral.

Há três protagonistas neste enredo: além do Papa e do britânico Mathew Festing, o demissionário grão-mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta, surge também o cardeal norte-americano Raymond Burke, que se assumiu como a principal voz da ortodoxia na hierarquia católica. Afastado do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, a mais alta instância judicial da Igreja Católica, no Outono de 2014, na mesma altura em que terminava no Vaticano o primeiro dos dois Sínodos sobre a família, Burke foi nomeado patrono da Ordem de Malta, um cargo sem o peso institucional dos que ocupava no Vaticano.

Foi nessa condição que assistiu, a 6 de Dezembro, a uma reunião entre Festing e o grão-chanceler da Ordem de Malta, o alemão Albrecht von Boeselager, o episódio que detonou a actual crise na instituição. Fundada no século XI em Jerusalém para assistir os peregrinos, é hoje simultaneamente uma ordem religiosa laica que conta com 13,500 membros e mais de 80 mil voluntários, uma entidade soberana reconhecida pelas instituições internacionais e uma organização que gere hospitais e programas de assistência em 120 países.

Festing terá exigido a demissão de Boeselager, alegando que, durante o período em que este liderou os programas humanitários da ordem, foram distribuídos milhares de preservativos a doentes com sida na Birmânia – a Igreja recusa o preservativo como método de contracepção e diz que a abstinência ou a monogamia são as formas mais eficazes de evitar a transmissão da doença, mas Francisco já adoptou uma abordagem menos dogmática, admitindo o seu uso em circunstâncias específicas.

O alemão recusou demitir-se, argumentando que suspendeu os programas assim que descobriu que estavam a ser distribuídos preservativos, mas Festing afastou-o por desobediência. Ao seu lado, Burke ter-lhe-à dito que essa era “a vontade da Santa Sé”. Boeselager não se resignou e pediu a intervenção do Papa, dizendo ter sido afastado por que era “demasiado liberal” aos olhos do grão-chanceler e de Burke.

Francisco nomeou uma comissão para investigar o caso, mas Festing decidiu que não iria cooperar, dizendo que a demissão era “um acto interno de governo”. O Vaticano respondeu que, ao contrário do que terá dito Burke, Francisco “nunca quis a demissão do grão-chanceler” e recordou que, apesar de soberana, “enquanto ordem religiosa está ao serviço da fé e do Santo Padre”.   

A saga precipitou-se terça-feira à noite quando o Papa chamou o grão-mestre da ordem, sediada num palácio em Roma. Segundo o seu porta-voz, foi pedido a Festing que se demitisse e ele, apesar de o cargo ser em teoria vitalício, “concordou”. A demissão tem de ser aprovada pelo Conselho Soberano da Ordem de Malta, que vai reunir-se sábado, mas Francisco antecipou-se e anunciou que nomeará um delegado para chefiar a ordem – uma decisão que alguns observadores comparam a uma “aquisição hostil” de uma entidade que goza de uma soberania idêntica à do Vaticano, mas que fontes citadas pela Reuters garantem ser temporária, com o único objectivo de acalmar as divisões internas geradas por este caso.

A poucos escapou o facto de a polémica ter acontecido após o Papa ter nomeado um irmão de Festing para a administração do Banco do Vaticano, instituição que tem vindo a reformar. Foi também semanas depois de ter vindo a público uma carta em que Burke e outros três cardeais conservadores pediam ao Papa que clarificasse alguns pontos da exortação apostólica Amoris Laetitia que publicou após os sínodos, nomeadamente o que abre caminho à comunhão de divorciados que voltaram a casar, alegando que estavam a criar confusão e “tremendas divisões” na Igreja. Francisco não respondeu, mas numa entrevista ao L’Avvenire, criticou os que continuam presos a “um certo legalismo, que pode ser ideológico” e insistem em “ver o mundo a preto e branco”. Burke respondeu dias depois, dizendo que se o Papa não “clarificasse os seus ensinamentos”, ele e os outros subscritores poderiam iniciar um “acto formal de correcção” da interpretação do pontífice.

“Estamos perante uma profundo embate de culturas dentro da Igreja Católica. Burke e a Ordem de Malta representam de muitas formas aquilo de que a Igreja do Concílio Vaticano II e Francisco se querem distanciar”, disse ao jornal Guardian Austen Ivereigh, biógrafa do Papa. 

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