Eusébio nunca será suplente na equipa dos melhores de sempre

A chegada a Portugal, a afirmação no Benfica e no futebol mundial, as peripécias de uma carreira ímpar.

Humilde, mas sem falsas modéstias. Quando Eusébio chegou à “metrópole” e ao Benfica campeão europeu em 1961, sabia o que valia. “Não me interessa se eles são campeões europeus, vou entrar nesta equipa.” Ele era um jovem moçambicano acabado de chegar de Lourenço Marques e já metia medo aos consagrados Águas, Augusto e Coluna, os “senhores”, como os novatos da equipa lhes chamavam. “Comentávamos entre nós: quem é que vai sair? Porque o Eusébio era um jogador de excepção”, diz José Augusto. Alguém saiu e ele, Eusébio da Silva Ferreira, entrou na equipa do Benfica para se tornar uma lenda do futebol mundial. O melhor jogador português de todos os tempos que brilhou numa altura em que o futebol era diferente. Como Amália, o seu nome é sinónimo dele próprio. Não existirá mais nenhum Eusébio.

Eusébio, o King, Eusébio, o Pantera Negra, Eusébio, a Pérola Negra. Ele só não gostava muito que lhe chamassem Pantera Negra por causa dos Black Panthers, o partido activista negro dos EUA. Preferia que lhe chamassem King, o Rei. Foi em Wembley, esse mítico estádio que iria marcar sua carreira, que Eusébio passou a ser pantera. Foi na sua segunda internacionalização pela selecção portuguesa. Dos onze, apenas um jogador tinha nascido em Portugal continental (Cavém, algarvio) e um nos Açores (Mário Lino). Havia um jogador brasileiro (Lúcio), todos os outros, incluindo o seleccionador (Fernando Peyroteo), eram africanos.

O jogo era de qualificação para o Mundial e a Inglaterra acabaria por ganhar (2-0). Portugal mandou quatro bolas ao poste, duas delas foram remates de Eusébio. Foi o seleccionador inglês Walter Winterbottom que avisou o jogador que estava encarregado de o marcar: “Tem cuidado com o Pantera Negra.” Mais tarde, seria um jornalista inglês, Desmond Hackett, a cunhar esse nome no Daily Express após a final de Amesterdão, com o Real Madrid.

O jogo de Wembley foi a 25 de Outubro de 1961. Menos de um ano antes, em Dezembro de 1960 (15 ou 17, consoante as versões), chegava à metrópole proveniente de Lourenço Marques “o disputadíssimo Eusébio”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro. “Faço qualquer um dos postos do ataque menos o de avançado centro”, contou ao jornalista de A Bola Cruz dos Santos, que era o único jornalista à sua espera no Aeroporto da Portela. “Chegou com um ar muito tímido. Fui com um sobretudo quentinho que tinha comprado em Edimburgo uns meses antes e o Eusébio apareceu-me com uma roupinha muito de Verão, uma gravatinha, com um ar muito modesto”, recorda o jornalista. É a sua primeira fotografia na metrópole: Eusébio de fato e gravata, com Cruz dos Santos ao lado, a tirar notas num bloco. Eusébio embarcara em Lourenço Marques com nome de mulher: Ruth Malosso.

Tinha 18 anos, fama de prodígio, pronto para conquistar o mundo. Um mundo que seria dele pouco depois. Basta dizer um número: 671, o número total de golos que marcou pelas selecções e clubes que representou em jogos oficiais. Pelo Benfica, foram 473, em 440 jogos oficiais. Mais números: sete vezes o melhor marcador do campeonato português, três vezes o melhor marcador da Taça dos Campeões. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17).

Dos craques do passado, talvez seja Eusébio aquele que melhor se adaptaria ao futebol de qualquer época, mesmo ao mais calculista e táctico do nosso presente, menos atacante e ingénuo do que no tempo de Eusébio. O seu poder físico, potência de remate, técnica e capacidade goleadora fariam dele uma estrela em qualquer equipa de qualquer era. Apenas no final de carreira, com os joelhos em más condições (só no joelho esquerdo sofreu seis operações) é que saiu de Portugal, onde era património de Estado. Eusébio seria um Cristiano Ronaldo apresentado no Santiago Bernabéu perante dezenas de milhares de adeptos. Eusébio esteve lá em 2009 para apresentar Ronaldo ao Real Madrid, ao lado de Alfredo di Stéfano, que sempre foi o seu grande ídolo. As palavras de Don Alfredo, o argentino feito espanhol, não podiam ser mais verdadeiras. “Isto serias tu.”

Os primeiros anos

Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de Janeiro de 1942, o quarto filho de Laurindo António da Silva Ferreira, um angolano branco que trabalhava nos caminhos-de-ferro de Moçambique, e Elisa Anissabeni, uma mulher moçambicana. Foi na Mafalala, bairro pobre na periferia de Lourenço Marques (actual Maputo), que Eusébio começou a dar uns pontapés em bolas de trapos sem ligar muito à escola. “A minha mãe não gostava nada que eu andasse enfronhado no futebol, apertava comigo, que me importasse com a escola e me deixasse dos pontapés na bola, mas eu não sei explicar, havia qualquer coisa que me puxava, sentia um frenesim no corpo que só se satisfazia com bola e mais bola. O resultado disto era uns puxões de orelhas bem grandes e, uma vez por outra, umas sovas que não eram brincadeira nenhuma”, recordava Eusébio numa entrevista ao jornal A Bola.

No bairro onde viveram o poeta Craveirinha e os antigos presidentes de Moçambique Joaquim Chissano e Samora Machel, Eusébio ganhava os berlindes aos amigos apostando que conseguia dar x toques seguidos numa bola. Entre os jogos de futebol na rua e a presença intermitente na sala de aula, Eusébio sofreu uma tragédia precoce. Aos oito anos, ficava órfão de pai, vítima de tétano. “Segundo a minha mãe, o meu pai era muito bom jogador de futebol”, disse numa entrevista. Ficava Dona Elisa, os quatro rapazes (Jaime, Alberto, Adelino e Eusébio) e uma rapariga (Lucília). Num segundo casamento, Elisa teria mais três filhos (Gilberto, Inocência e Fernando).

Foi na Mafalala que conheceu a sua primeira equipa, Os Brasileiros, “um clube de pés-descalços” em que os jogadores adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Nené, um médio da Portuguesa dos Desportos, um primo seu é que era Pelé, ano e meio mais velho do que o moçambicano. Em 1958, Eusébio tinha 16 anos e Pelé 17 quando o Brasil foi campeão mundial na Suécia, a equipa que também tinha Didi, Zagallo e Garrincha. Todos tinham as suas contrapartes no FC Os Brasileiros.

Mas onde Eusébio queria jogar era no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual o pai era adepto. No Desportivo não o aceitaram porque era “franzino, pequenino” – Eusébio contou que esse treinador foi, depois, despedido. Também no Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o Sporting de Lourenço Marques, filial moçambicana do Sporting Clube de Portugal, que ficou com ele de imediato, depois de ter ido fazer testes com um grupo de rapazes do bairro. Mas Eusébio impôs uma condição: ou ficam todos, ou não fica nenhum. Ficaram todos.

O Sporting Laurentino insistia, mas Eusébio resistia, porque aquele não era o seu clube, nem o do seu pai, apesar das insistências de Hilário da Conceição, seu vizinho na Mafalala e futuro defesa esquerdo do Sporting e da selecção portuguesa – Hilário, dois anos mais velho do que Eusébio, foi o primeiro jogador negro a jogar no Sporting de Lourenço Marques e iria para Lisboa primeiro do que o Pantera Negra. Eusébio acabou por ir contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu bairro gostava do Sporting. Porque era um clube da elite, um clube da polícia, que não gostava de pessoas de cor”, contou mais tarde. Começou nos juniores, passou rapidamente para os seniores e estreou-se contra o “seu” Desportivo. Não queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e chorou. Tinha 17 anos. O Sporting foi campeão regional com 30 remates certeiros de Eusébio, a quem o clube tinha arranjado um emprego como arquivador numa empresa que fabricava peças para automóveis.

Eusébio era um fenómeno na colónia e, na metrópole, já se ouvia falar dele. Portugal era o sonho dos jogadores nas colónias portuguesas em África e Eusébio não era excepção. E era um sonho muito possível. África era um grande fornecedor de jogadores para os clubes e selecção portuguesa. Os pretendentes eram muitos. Sporting, Benfica, Belenenses e FC Porto queriam Eusébio. Guttman já tinha ouvido falar dele, através de um brasileiro que o tinha visto jogar em Lourenço Marques. Os clubes começaram a movimentar-se, mas foi o Benfica quem chegou lá primeiro. Ofereceu 110 contos a D. Elisa, que deu a sua palavra de que o filho iria jogar no Benfica de Lisboa.

O Sporting terá oferecido mais depois, mas palavra dada era sagrada e a mãe de Eusébio não voltou atrás. Para além do mais, o Sporting queria Eusébio à experiência. “Eu já estava no Sporting e o presidente, sabendo que eu era muito amigo do Eusébio, chamou-me para lhe pedir para vir fazer testes. Ele respondeu: ‘Estás a ver o Seminário [peruano que jogou no Sporting entre 1959 e 1961, conhecido como "o expresso de Lima”]? Eu dou-lhe avanço a marcar golos. Querem experimentar o quê?”, recorda Hilário.

Tavares de Melo, talhante e representante do Benfica em Lourenço Marques, coordenou toda a operação. Depois de garantido o acordo de Eusébio e de D. Elisa, o objectivo era colocar o jogador na capital o mais depressa possível e sem que os adversários soubessem. Fez Eusébio embarcar com nome de mulher e terá feito chegar um telegrama ao Sporting lisboeta comunicando que o jovem jogador iria de barco para a capital. Por isso é que, quando Eusébio aterrou às 23h30 no aeroporto de Lisboa, apenas estavam lá representantes do Benfica (e o jornalista de A Bola) à espera dele. Do lado “leonino” falou-se de rapto, Eusébio sempre negou esta tese: “Eu só assinei contrato com o Benfica. Só quando aterrei aqui é que se começaram a inventar raptos. O contrato com o Benfica até dizia que, se não me adaptasse em Lisboa, o clube podia recuperar o dinheiro.”

A chegada ao Benfica

Quando Eusébio, menor de idade, chegou a Lisboa, o Benfica já estava nos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. “Não gosto de jogar a avançado centro”, foram as suas primeiras palavras, depois de uma viagem de “Portugal para Portugal”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro de 1960. Foi directo para a Calçada do Tojal, em Benfica, para viver no Lar do Jogador, onde estavam alojados os futebolistas “encarnados” que eram solteiros e que tinha hora de recolher obrigatório para os seus hóspedes. José Torres, dois anos mais velho, foi o seu anfitrião, eles que, pouco depois, fariam uma dupla temível no ataque do Benfica e da selecção nacional.

Mas Eusébio ainda não podia jogar, apesar de impressionar nos treinos. Bela Guttman, o treinador, chamou-lhe o “menino de oiro” da primeira vez que o viu. O processo de transferência de “Ruth” ainda não tinha acabado. Eusébio tinha contrato assinado com o Benfica, mas ainda não tinha a carta de desobrigação que teria de ser passada pelo Sporting de Lourenço Marques, ainda empenhado na ida do jogador para os “leões” de Lisboa. A batalha jurídica é longa. Os dois lados esgrimem argumentos e o tempo vai passando, sem que haja uma decisão definitiva. Na Taça dos Campeões, o Benfica ultrapassa o Aarhus, da Dinamarca, e o Rapid de Viena, da Áustria, e com Eusébio sempre integrado na comitiva.

A final será contra o Barcelona, em Berna, a 31 de Maio. O Benfica manda Eusébio para um hotel em Lagos, para o esconder dos jornalistas e de outros pretendentes. A 12 de Maio, cinco meses depois de sair de Moçambique, o desfecho: Eusébio já é jogador do Benfica, que paga por ele 400 contos, mas não poderá defrontar a formação catalã devido aos regulamentos da União Europeia de Futebol (UEFA).

Ele não irá à Suíça, mas vai estar no jogo de despedida do Benfica antes da final, na Luz, frente ao Atlético, um futuro titular numa equipa quase só de reservas. A 23 de Maio, primeiro jogo pelo Benfica, primeiros golos, três, tal como a sua estreia pelo Sporting de Lourenço Marques. Minutos 11, 76 e 80, o do meio o primeiro penálti que marcou. Os benfiquistas estavam lá para ver o “disputadíssimo”. “Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso”, contou Eusébio na sua biografia.

A equipa seguiu para Berna e conquistou o primeiro dos seus dois títulos europeus, com uma vitória por 3-2 sobre o Barcelona. Eusébio ficou em Lisboa e, no dia seguinte à final europeia, fazia a sua estreia oficial pelo Benfica, na segunda mão dos oitavos-de-final da Taça de Portugal no Campo dos Arcos, frente ao Vitória de Setúbal. Eusébio seria titular e marcaria o único golo “encarnado” nesse jogo que os sadinos venceriam por 4-1, anulando a desvantagem de 3-1. Nessa época, ainda houve tempo para se estrear no campeonato, na Luz frente ao Belenenses, ao lado dos senhores José Augusto e Coluna. Eusébio marca o segundo de uma goleada por 4-0 e ganha o direito a ser campeão.

O que Eusébio perdeu nesses primeiros meses foi largamente compensado na década e meia seguintes. Com Eusébio na equipa, o Benfica foi 11 vezes campeão em 15 anos. O moçambicano foi sete vezes o melhor marcador do campeonato português, duas vezes o melhor goleador da Europa. Conquistou mais cinco taças de Portugal e um título de campeão europeu de clubes. Ao todo, foram 17 títulos pelo Benfica: 11 campeonatos, cinco taças de Portugal e a Taça dos Campeões. Foi ainda o primeiro português a ser considerado o melhor jogador da Europa, em 1965. Depois dele, só Figo, em 2000, e Cristiano Ronaldo, em 2008.

Em 1961-62, a sua primeira época “a sério”, Eusébio ainda não está entre os cinco mais utilizados por Bela Guttman, mas já é o melhor marcador, com 29 golos em 31 jogos, mais do que o consagrado José Águas (26). O Benfica não seria campeão (terceiro lugar, atrás de Sporting e FC Porto), mas esta seria uma época histórica, a do Benfica bicampeão europeu, na final de Amesterdão, frente ao Real Madrid. Eusébio enfrentava o seu ídolo de infância, Alfredo di Stéfano. Na primeira das quatro finais que haveria de jogar na sua carreira, Eusébio marcou dois golos (os dois últimos e decisivos) naquele triunfo emocionante por 5-3, em que o Benfica chegou a estar a perder por 2-0 e 3-2.

O jovem moçambicano de 20 anos “destruía” a lenda hispano-argentina merengue, 16 anos mais velha, mas manteve a deferência para com “don Alfredo, como mantinha para com os seus companheiros de equipa mais velhos. “Tinha dito ao senhor Coluna para pedir ao senhor Alfredo di Stéfano para me dar a camisola. E consegui. Ele sabia lá quem era o Eusébio! Quando ganhámos, fui a correr para junto dele. Ele deu-me a camisola e ficou com a minha. Nessa altura roubaram-me o fio da minha mãe, os calções, mas consegui guardar a camisola nas cuecas. Apareço numa fotografia com uma mão à frente: estou a defender a camisola.”

O Mundial de Inglaterra

Eusébio precisou apenas de nove golos em cinco jogos pelo Benfica para se estrear na selecção portuguesa, por quem haveria de disputar 64 jogos (41 golos). O adversário era o fraco Luxembrugo e estava em causa a qualificação para o Mundial de 1962, no Chile. Peyroteo, antigo avançado do Sporting e membro dos famosos “cinco violinos”, estreava-se como seleccionador. A equipa era totalmente de Lisboa, um jogador do Belenenses, cinco do Sporting e cinco do Benfica, Eusébio era um deles.

A 8 de Outubro de 1961, um domingo, no Estádio Municipal do Luxemburgo, o herói foi outro. Adolphe Schmit, médio que nunca foi mais alto na sua carreira do que a segunda divisão francesa, marcou os três primeiros golos do jogo em 57 minutos. Portugal só reage aos 83’, com o primeiro golo de Eusébio ao serviço da selecção nacional, mas a selecção do grão-ducado repõe as diferenças no minuto seguinte. Yaúca, o único do Belenenses, fixou o resultado em 4-2. A derrota humilhante e inesperada afastou a selecção portuguesa do Mundial e o jogo seguinte, em Wembley, frente à Inglaterra (o tal em que Eusébio passou a ser o Pantera Negra), seria para cumprir calendário.

Três anos e meio depois, Portugal iniciava nova campanha para o Mundial de futebol, que seria em Inglaterra. Eusébio marcou sete golos na qualificação, um deles deu uma vitória surpreendente e dramática em Bratislava frente à poderosa Checoslováquia, vice-campeã mundial. Pela primeira vez a selecção portuguesa chegava à fase final de uma grande competição internacional. Comandados por Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, os portugueses iam a Inglaterra com algum crédito. E com Eusébio, considerado no ano anterior como o melhor jogador europeu.

Eusébio ficou com o número 13 e a campanha com um triunfo em Old Trafford, o estádio do Manchester United, sobre a Hungria por 3-1, o único jogo do Mundial em que Eusébio não marcou qualquer golo. Depois, foi a história que bem se conhece. De novo em Old Trafford, Eusébio marcou o golo do meio no triunfo sobre a Bulgária. Seguia-se o Brasil de Pelé, no Goodison Park em Liverpool. Pelé ficou a zeros, Eusébio marcou dois e subiu ao trono de rei do Mundial. Portugal derrotava o campeão vigente e avançava para os quartos-de-final.

O jogo seria em Liverpool, o adversário seria a Coreia do Norte, uma equipa que também estava a ser uma sensação, depois de ter deixado a Itália de fora. Os "baixinhos com as caras iguais" (o mais alto tinha 1,75m), como disse um dia José Augusto, um dos membros da equipa portuguesa, começaram por surpreender os "magriços" de forma bastante afirmativa, colocando-se a vencer por 3-0. Mas Portugal tinha Eusébio, que, quase sozinho, destruiu os asiáticos, marcando quatro golos na partida dos quartos-de-final que terminaria em 5-3 para Portugal.

O golo que concretizou a reviravolta, o do 4-3, ainda hoje é mostrado nas escolas do Ajax de Amesterdão, aquela cavalgada de Eusébio desde o meio-campo até à área norte-coreana, onde só foi parado em penálti. “A bola está meio metro à frente dos meus pés. Parece que tenho cola. E eu aumento a velocidade, meto as mudanças. Dei 17, 18 toques desde que o Coluna me entrega a bola. Sofro uma pancada à entrada da área, mas continuo, porque nunca fui de me atirar para o chão. Só que, depois, chega outro que me dá uma sarrafada... Penálti!”, foi como Eusébio descreveu o lance em entrevista ao Expresso.

Na sua primeira presença em Mundiais (seria a única até ao México 86), Portugal já estava entre as quatro melhores. Seguia-se a anfitriã Inglaterra. O jogo era para ser em Liverpool, de novo no estádio do Everton, mas, com o acordo da Federação Portuguesa de Futebol, mudou-se para Wembley e foi a selecção portuguesa que teve de mudar de base. Segundo contou Eusébio, a federação não era obrigada a aceitar a mudança, mas deu o consentimento a troco de compensação monetária. Mais uma viagem depois do duro jogo com a Coreia e as pernas dos portugueses já não estavam tão frescas para evitar o desaire por 2-1.

“A nossa federação vendeu-se e pronto”, acusou Eusébio, que marcou, de penálti, o golo português. Sem poder discutir o título, os “magriços” ganharam o jogo de consolação para o terceiro lugar, contra a URSS, por 2-1. Um golo de Eusébio, que foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. Duas imagens ficaram deste Mundial de 66: Eusébio a ir buscar a bola à baliza coreana, um gesto simbólico para a reviravolta que acabaria por acontecer; Eusébio a chorar após a derrota com a Inglaterra, quando já nada havia a fazer.

Património de Estado

Eusébio foi grande num tempo em que o futebol era diferente. Em que o futebol português era diferente. Em tudo. Nas rivalidades, nos hábitos, nos comportamentos. “Às segundas-feiras juntávamo-nos todos – do Sporting, do Benfica, do Belenenses –, almoçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E andávamos sempre de metro ou de eléctrico, porque era mais barato. As pessoas paravam na rua só para nos verem juntos. Para tirar a carta tive de pedir autorização à minha mãe: 'Mas você vai tirar a carta porquê? Não há aí machimbombo [autocarro]?'”

Cinco anos depois de chegar a Portugal, Eusébio casou-se com a sua namorada, Flora (conheceram-se dois anos antes), em 1965, no evento que a revista Flama (que fez capa com Flora vestida de noiva) descreveu como “O remate final é o amor”. Tiveram duas filhas, por esta ordem, Sandra e Carla, respectivamente em 1966 e 1968. Foram fazendo vida em Lisboa, apesar das muitas propostas que Eusébio ia recebendo de grandes clubes. Mas o regime não o deixava sair. Salazar considerava-o património de Estado e isso, como o próprio admitiu várias vezes mais tarde, impediu-o de ganhar muito dinheiro.

Eusébio fez o seu último jogo pelo Benfica a 29 de Março de 1975. Foi no Estádio da Luz, frente ao Oriental, vitória por 4-0, nenhum dos golos marcados por Eusébio. O último de “encarnado” marcara-o uma semana antes, no Bonfim, ao Vitória de Setúbal. Nessa época, Eusébio fez apenas 13 jogos (dois golos), entre o campeonato e a Taça das Taças, a sua pior época desde a primeira, a de 1960-61 (dois jogos), menos de um terço dos jogos oficiais do Benfica.

Já depois da revolução de 25 de Abril de 1974, o clube “encarnado” deixou-o sair e Eusébio juntou-se a uma das maiores colecções de craques da história do futebol, a North-American Soccer League (NASL), todos eles seduzidos pelos dólares norte-americanos. Pelé, Franz Beckenbauer, George Best, Johan Cruijff, Carlos Alberto, Teófillo Cubillas, Gordon Banks, Gerd Muller, Carlos Alberto, Graeme Souness. Eusébio não foi o único português nos EUA. Acompanhou-o Simões, a quem sempre chamou o seu “irmão branco”. No país onde o futebol não é “football, mas sim “soccer”, a NASL conseguiu impor, por alguns anos, o futebol como desporto de massas, assente no princípio de que grandes estrelas dão grandes espectáculos e que grandes espectáculos (isto é especialmente verdade na América) atraem sempre muito público.

Eusébio era, de facto, uma estrela global, mas não foi desta que conseguiu jogar na mesma equipa de Pelé. Foram, novamente, adversários, como tinha acontecido em outras ocasiões. Pelé ficou no Cosmos de Nova Iorque, Eusébio foi para Boston, onde havia (e há) uma grande comunidade portuguesa. “Os grandes jogadores não podiam jogar na mesma equipa, era para ter ido para o Cosmos, mas fui para Boston. Com o mesmo contrato e a ganhar muito bem. Tinha casa, motorista. Até nos davam guarda-costas”, contou.

Em 1975, nos Minutemen, onde estavam muitos portugueses para além dele (Simões, Jorge Calado, Fernando Nélson e Manaca), Eusébio fez sete jogos e marcou dois golos – o jogo de estreia foi contra o Cosmos de Pelé. Bem melhor foi o ano de 1976, ao serviço dos Toronto Metro-Croatia, em que Eusébio marcou 13 golos e conduziu a formação canadiana ao título da NASL. Na passagem pelo continente americano, Eusébio esteve ainda no Monterrey, do México, nos Las Vegas Quicksilvers e nos New Jersey Americans.

Nos intervalos da aventura americana, Eusébio regressava a Portugal, não para descansar, mas para manter a forma e ganhar mais alguns escudos. Foi assim que jogou no Beira-Mar os seus últimos minutos e marcou os seus últimos golos na primeira divisão portuguesa e foi assim que andou pela segunda divisão a fazer carrinhos pelo União de Tomar, o seu último clube em Portugal. Eram contratos de curta duração. Eusébio e Simões, os irmãos, jogaram juntos até ao fim. Eusébio ainda teve a hipótese de jogar no Sporting, por convite de João Rocha, antes de ir para Aveiro.

No Beira-Mar, Eusébio teve o seu último contacto com o principal escalão do futebol português. Não com a camisola encarnada do Benfica, mas com o equipamento amarelo e negro da equipa aveirense. Pagavam-lhe 50 contos por mês. Dois momentos são importantes nesta breve passagem por Aveiro. Quando defrontou o rival Sporting e o seu clube do coração, o Benfica. Foi contra os “leões” que marcou, a 6 de Março de 1977, o seu último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a par do Belenenses) como a maior “vítima” dos seus remates certeiros, 24.

Dois meses antes, tinha defrontado as “camisolas berrantes”, como lhes chamava Luís Piçarra na canção que serve como hino das “águias”. Tal como acontecera 20 anos antes em Lourenço Marques, Eusébio tinha de jogar contra si próprio. A 5 de Janeiro de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio Mário Duarte, em Aveiro, a contar para a 12.ª jornada do campeonato. Eusébio não iria ser profissional. “Já tinha avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. Quinze minutos antes do jogo, fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos. [No jogo] não rematei, não marquei faltas, nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola aos outros.”

Com o jogo empatado 2-2, o Beira-Mar beneficia de um livre à entrada da área que seria mesmo ao jeito de Eusébio. Mas o Pantera Negra recusou-se a marcar. Palavra a António Sousa, futuro jogador do FC Porto e do Sporting e internacional português, então um jovem a dar os primeiros passos no Beira-Mar: “O sentimento dele era enorme e jogar contra a equipa do coração e da vida foi marcante para ele. Porventura o mal-estar dele em relação ao próprio jogo era porque ele gostava de ganhar. O facto de o Eusébio não marcar um livre e dizer para eu marcar é sinónimo disso.” Sousa atirou por cima e o jogo acabou empatado.

Depois do Beira-Mar e de mais uma temporada nos EUA, Eusébio foi para o União de Tomar, da segunda divisão. Estreou-se com a camisola vermelha e negra do União a 1 de Dezembro de 1977, frente ao Estoril. Em 12 jogos disputados pelo clube ribatejano, marcou três golos, mas, nesta fase, ele já não era um avançado. Andava mais pelo meio-campo, tal como António Simões. “O nosso estilo era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres, era igual”, recorda Simões. Em Tomar, até carrinhos fazia.

De Tomar para Buffalo. Buffalo é relevante na vida de Eusébio? É e não é. Em toda a sua carreira é apenas uma nota de rodapé, mas é nesta cidade do estado de Nova Iorque que irá cumprir os seus últimos jogos. A camisola dos Buffalo Stallions, equipa da Liga indoor norte-americana, será a sua última. Fica o registo do rendimento de Eusébio, veterano avançado de 38 anos e com os joelhos em mau estado, em 1979-80, a sua última época: cinco jogos e um golo.

Quando deixou de ser jogador, Eusébio nunca quis ser treinador principal. Foi ficando pelo Benfica, como adjunto, para ensinar uns truques a diferentes gerações de futebolistas. Por exemplo, como marcar golos estando atrás da baliza, um truque que tinha começado numa aposta com Fernando Riera. Eusébio apostou um fato com o treinador chileno em como conseguia marcar três golos em dez tentativas. O desfecho foi o mesmo das vezes em que apostava berlindes com os outros miúdos da Mafalala. Ganhou.

A lenda foi-se mantendo intacta. King em todo o mundo. Ninguém melhor para servir de embaixador do Benfica e de Portugal. Mas o homem passou um mau bocado nos últimos anos de vida, uma decadência natural da idade, mas acelerada por alguns excessos. Os seus últimos tempos foram uma constante de alertas médicos e idas para o hospital, que terminavam sempre com um sorriso e a garantia de que tudo estava bem.

Quando fez 70 anos, numa festa com centenas de convidados, Eusébio já era um homem debilitado, de poucas palavras. Mas fazia questão de acompanhar a selecção para todo o lado e estava lá, no Euro 2012, para ver a sua contraparte do século XXI, Cristiano Ronaldo, conduzir a equipa portuguesa até às meias-finais – ao contrário de Ronaldo, Eusébio nunca foi capitão, apenas desempenhou essa função episodicamente. Eusébio sentiu-se mal após o jogo com os checos e já não estava na Ucrânia quando a selecção portuguesa foi eliminada pela Espanha nas meias-finais.

Ele era o homem que todos os guarda-redes temiam, mas também era aquele que cumprimentava os guarda-redes que defendiam os seus remates que pareciam indefensáveis. Ele era o homem que gostava de jazz e de caril de marisco, que almoçava quase diariamente no seu restaurante preferido desde que chegou a Lisboa em 1960, a Adega da Tia Matilde. Foi objecto de uma banda desenhada, de músicas com o seu nome no título e no refrão, de uma longa-metragem, de inúmeras homenagens e distinções, sempre nas listas dos melhores de sempre. Essa é uma equipa onde nunca será suplente.

Notícia alterada às 18h40: muda o número de golos marcados por Eusébio em jogos ofíciais para 671, acrescentando os 77 golos marcados pelo Sporting de Lourenço Marques.
 
 
 
 
 
 
 

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