Nina

A nossa conversa teve a economia que a distância opera nas pessoas. Antes de me despedir, olhei por acaso para a mesa da entrada da casa. A minha fotografia numa moldura simples de madeira.

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Papel de mulher: Nina Getty images
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Nina não queria ser Nina no final da peça, não queria ser destituída de si própria e condenada por Tchékhov ao voo raso da gaivota. Nina queria ser Nina e manter o desejo intacto à beira do lago, sentir por toda a vida o conforto que é ser-se amado por um alguém inseguro, pelo rapaz que nunca seria um Trigorin, o célebre escritor, na sua ou noutras épocas, porque não tinha dedos para a escrita, mas para o gatilho.

No primeiro dia de ensaios, a actriz que faria de Nina subiu para o palco devagar. Apresentou-se ao resto da equipa. Trazia vestida uma gabardina fina, de Outono, e o ar frágil de quem não vai aguentar ser Nina à beira do abismo. Deram-me as melhores recomendações: "actriz revelação, um talento em bruto, diamante por lapidar", e muitos outros clichês do meio em que fingi acreditar. No fundo era-me indiferente, uma vez que a Nina que eu desejava não estava disponível.

Conhecera-a bem em tempos, uma rapariga nem bonita nem feia, bastante vulgar, mas que tinha alguma coisa de inexplicável quando entrava em cena; iluminava-se. Meses antes tentei convencê-la a aceitar o papel. Seria um regresso aos palcos em grande; ela merecia. Foi inflexível. Disse-me que não. Não seria capaz de subir para cena uma única vez mais na vida. Conhecemo-nos há muitos anos. Sei da força do seu "não" e da vontade inequívoca de a trazer novamente para mim. "É a Nina, entendes? Seria maravilhoso." Não quis. Penso que ficou até um pouco ofendida com a minha insistência. Não quer saber do teatro, nunca desejou protagonismo. Bem diferente da Nina. Só gostava de representar, nunca teve ambição ou desejou fama.

Sei que gostava do papel, foi por isso que fui até sua casa tentar convencê-la. Já não nos víamos há anos. Estava bonita, um pouco mais madura, com as aspas bem visíveis em torno da boca. Faria uma Nina magnífica. Trazia o cabelo penteado para trás, com a testa lisa e limpa, como eu me lembrava dela. Uma cara aberta. Ofereceu-me um café, que aceitei. Tive vontade de lhe dizer que nestes anos todos de separação estive à espera do momento certo para encenar A Gaivota e que a parte mais importante era estar novamente com ela. Vê-la em cena. Estar perto. Ainda me lembro da marca do perfume que usava quando nos conhecemos, embora me tenha esquecido do cheiro.

A nossa conversa teve a economia que a distância opera nas pessoas. Conhecia-a e ao mesmo tempo não sabia quem era aquela pessoa. Antes de me despedir, olhei por acaso para a mesa da entrada da casa. A minha fotografia numa moldura simples de madeira. Foi aí que comecei a falar ininterruptamente. Disse-lhe tudo o que fui guardando ao longo dos anos. A minha infelicidade, a frustração como artista, falei-lhe da minha mãe e do seu companheiro que sempre detestei. Falei de tudo o que trazia na alma, surpreendi-me por descobrir junto dela que tinha afinal uma alma. Descontrolei-me um pouco, é verdade, mas depois voltei a mim. A este mim que existe agora. À Nina de voo raso. Rodei a chave na fechadura da porta de casa. Estava em segurança. Deslizei o dedo sobre a parte superior da moldura com a minha fotografia. Arrastei o pó.

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