As lontras voltaram a um estuário na Califórnia e a erosão costeira diminuiu

Um novo estudo demonstrou a importância do regresso da lontra-marinha, um predador de topo, na desaceleração da erosão de uma zona de sapal, num estuário da Califórnia, nos Estados Unidos.

Foto
Uma lontra-marinha alimenta-se de um caranguejo Kiliii Yüyan
Ouça este artigo
00:00
07:08

Desde a década de 1980 que as lontras-marinhas (Enhydra lutris) têm vindo a recolonizar a região estuarina de Elkhorn Slough, na Califórnia (Estados Unidos). Esta zona de sapal fica a 150 quilómetros a sul de São Francisco e tem sofrido erosão nos últimos 80 anos. Mas uma nova investigação mostrou que a acção das lontras no ecossistema, ao alimentarem-se dos caranguejos que povoam os sapais, teve um impacto positivo e desacelerou a erosão daquele habitat. O estudo foi publicado nesta quarta-feira na revista Nature e sublinha a importância dos predadores de topo para a manutenção dos ecossistemas.

“O nosso estudo oferece um bom exemplo de como a recuperação dos predadores de topo pode promover a resiliência de um ecossistema, e que isso pode ser muito mais barato do que alternativas de restauro” ao nível da conservação, diz ao PÚBLICO Brent Hughes, do departamento de biologia da Universidade Estadual Sonoma, em Rohnert Park, na Califórnia, primeiro autor do artigo que contou com vários investigadores.

As lontras-marinhas são das poucas espécies de lontras que vivem no mar. Quem visitar o Oceanário de Lisboa pode ver indivíduos daquela espécie. Este mamífero é conhecido pela sua densa pelagem protectora. “É o animal com mais pêlo do planeta, com cerca de 15.000 pêlos por centímetro quadrado”, lê-se na ficha sobre aquele mustelídeo, no site do Oceanário. Além disso, para manter o seu alto metabolismo, a lontra-marinha tem de comer diariamente alimentos que perfazem 30% do seu peso.

Já se conhecia a importância ecológica das lontras-marinhas na manutenção das florestas de kelp, ao longo da costa oeste dos Estados Unidos. Ao alimentarem-se dos ouriços-do-mar, que comem as algas que formam aquelas florestas marinhas, as lontras permitem o kelp crescer. Agora, o novo estudo demonstra a importância do regresso destes mamíferos para a manutenção da estrutura ecológica do sapal de Elkhorn Slough.

A importância dos sapais

Devido à caça pela sua pele, as lontras-marinhas sofreram um declínio enorme ao longo de séculos. Quando em 1911 a espécie passou a ser protegida por um tratado internacional sobre a caça de animais por causa da pele, como as focas, havia menos de 2000 lontras-marinhas. Desde então, as populações foram recuperando. Em meados da década de 1980, uma população de lontras-marinhas voltou a ocupar Elkhorn Slough, uma importante zona de sapal daquela região.

Os sapais são ecossistemas costeiros associados às zonas temperadas que vivem submetidos a regimes de submersão e imersão graças às marés, com concentrações altas de salinidade, o que levou à adaptação de certos tipos de plantas. “Os sapais são cruciais para a vida selvagem e para os humanos, providenciando habitats essenciais, alimentos, armazenamento de carbono e protecção da linha costeira”, lê-se no artigo da Nature. Ao mesmo tempo, “estão entre os ecossistemas mais ameaçados na Terra, e são excepcionalmente vulneráveis à modificação de habitats”.

Foto
Uma lontra-marinha no estuário de Elkhorn Slough Emma Levy

Em Elkhorn Slough a situação da erosão das margens dos sapais era particularmente grave. Por um lado, a subida do nível médio do mar vai progressivamente ameaçando as zonas costeiras, mas outros factores estão em jogo. A construção de sistemas de paredões para a protecção de uma zona portuária aumentou a velocidade das águas no estuário. Por fim, e talvez a situação mais grave, o aumento de eutrofização daquelas águas – uma subida na concentração dos nutrientes, causado pelos efluentes – foi tendo um efeito perverso nas plantas dos sapais, que passam a apostar menos no crescimento das raízes, perdendo por isso capacidade de segurar o solo.

Mas os investigadores perceberam que havia um quarto factor em jogo, a que as lontras-marinhas vieram responder. Os caranguejos da espécie Pachygrapsus crasspies, que habitam o sapal, esburacam o solo e comem as raízes e os rizomas da planta que domina aquele ecossistema, fragilizando a estrutura do solo e facilitando a sua degradação. Mas a recolonização das lontras-marinhas, que se alimentam do caranguejo, veio travar o impacto do caranguejo.

“A nossa análise histórica do alargamento dos riachos associados às marés [do estuário], que é uma medida da erosão e da acreção das margens dos riachos [do sapal], mostra que os riachos alargaram a uma taxa de 0,09 metros por ano entre 1937 e 2000, depois disso a taxa aumentou para 0,35 metro por ano entre 2000 e 2007, antes de reduzir de novo para 0,1 metros por ano entre 2008 e 2018”, de acordo com o artigo.

O aumento da erosão no início do século está associado à diminuição do número de lontras devido ao grande episódio do El Niño ocorrido em 1997-1998, de acordo com o artigo. Depois disso, a população de lontras voltou a aumentar de 11 indivíduos, em 2005, para 119, em 2018. Paralelamente a este aumento, houve uma redução na erosão no estuário.

Um estudo "notável"

Apesar destes dados serem importantes para estabelecer uma relação entre o número de lontras e o seu efeito benéfico contra a erosão, a equipa fez vários tipos de análises ao longo de anos para confirmar aquela hipótese. Por um lado, comparou os mesmos pedaços do sapal antes e depois da colonização de lontras-marinhas e verificou que a predação dos caranguejos aumentou ao mesmo tempo que a erosão das margens do sapal diminuiu.

Outra observação foi feita através da comparação de áreas do sapal em que as lontras-marinhas usavam mais com outras áreas que usavam menos. “Descobrimos que maiores densidades de lontras-marinhas estavam geralmente relacionadas com maior predação de caranguejos, com um aumento da biomassa do sapal e menos erosão”, relata Brent Hughes.

Foto
Uma lontra-marinha no estuário de Elkhorn Slough Kiliii Fish

Finalmente, a equipa introduziu uma experiência no terreno. Foram construídas cinco jaulas de exclusão para as lontras-marinhas – com dois metros por um metro de lado –, mas que deixavam entrar os caranguejos. Depois, as jaulas foram colocadas em cinco pontos diferentes na margem dos sapais ao longo de três anos. “Descobrimos que (…) as densidades de caranguejos e de buracos era menor, e a biomassa do sapal e a massa dos sedimentos eram maiores em áreas onde as lontras-marinhas tinham acesso comparado com as áreas com a jaula” onde não tinham acesso, explica o investigador.

Ao todo, as lontras fizeram desacelerar a erosão dos sapais em 90%, de acordo com o estudo. “A grande conclusão do artigo é que os gestores dos ecossistemas e os praticantes do restauro da natureza devem considerar o restauro dos predadores de topo e das cadeias de alimentação nos planos em que estão a trabalhar”, defende Brent Hughes.

Os vários ângulos que a equipa usou para confirmar a sua hipótese tornam este estudo “notável”, diz por sua vez Johan S. Eklöf, investigador da Universidade de Estocolmo, que não integrou a equipa de investigação, mas escreveu uma análise sobre o artigo também publicada na Nature. “Isto soma-se ao extenso corpo de trabalho que mostra que a predação, tal como outros factores como os nutrientes e a temperatura, é importante para o funcionamento dos ecossistemas”, acrescenta o investigador, recordando que estas conclusões são particularmente significantes num momento em que há quem queira “limitar a população de predadores de topo nas zonas costeiras para reduzir o conflito entre a vida selvagem e o stock de pesca”.

Este embate, entre os interesses das populações humanas, que não querem que certos animais ponham em causa as suas actividades, e o bem-estar dos ecossistemas, não passa despercebido a Brent Hughes: “É um dilema que provavelmente vai continuar no futuro à medida que os predadores vão recuperando os seus velhos habitats. Muda-se isso através da educação e de conversas com todos aqueles que possam ser afectados pela recuperação dos predadores de topo para se descobrir soluções baseadas na natureza que tragam ganhos para todos.”

Sugerir correcção
Comentar