Milhares assinam petição contra substituição de vitrais na Catedral de Notre Dame

Petição contesta a contemporização no restauro das capelas laterais da Catedral de Notre Dame, em Paris. Projecto de substituição das janelas deriva do incêndio de 2019 e tem o apoio do Presidente.

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Horas depois do incêndio, Macron já sugeria que o restauro incluísse um “gesto contemporâneo”, um pináculo “inventivo” PHILIPPE WOJAZER/Reuters

A petição “Vamos preservar os vitrais de Viollet-le-Duc em Notre-Dame de Paris”, lançada a 10 de Dezembro, já soma mais de 124 mil assinaturas. Originalmente publicada na revista La Tribune de l’Art, contesta o projecto de substituição dos vitrais de seis das sete capelas da nave sul — classificados, à semelhança de todo o edifício, como monumentos históricos —, que não foram danificados no incêndio de 2019. “O Presidente da República [Emmanuel Macron] decidiu sozinho, sem ter em conta a lei do património”, critica a petição.

A medida foi anunciada a 8 de Dezembro pelo Presidente da República francês, embora em 2019 o então Ministro da Cultura, Franck Riester, tivesse afastado essa possibilidade. Horas depois do incêndio, recorde-se, Macron já dizia que a reconstrução devia incluir um “gesto contemporâneo”, e mencionava que tal poderia passar por um novo pináculo “inventivo”. Este elemento, porém, acabou por manter-se fiel ao original destruído. De acordo com o The Guardian, a ideia de substituir os vitrais terá partido do arcebispo de Paris, Laurent Ulrich.

No mesmo discurso, o Presidente também anunciou a criação de um novo museu. “Para acalmar os protestos, que adivinhava fortes, o Presidente da República acrescentou que [os antigos] vitrais seriam expostos no museu, o que é absurdo”, escreve Didier Rykner, fundador e editor da revista francesa. Para o historiador de arte, os vitrais do “incontornável” Eugène Viollet-le-Duc “só têm interesse no local, como parte integrante da arquitectura”. No museu, “ocupariam muito espaço”, condicionando a exposição de outras obras.

Na visão dos peticionários, a substituição de um “conjunto coerente”, que o arquitecto do século XIX “quis manter fiel às origens góticas da catedral”, por criações contemporâneas demonstra imodéstia. Afinal, “quem deu mandato ao Chefe de Estado para alterar uma catedral que não lhe pertence, mas a todos?”, questiona Rykner.

“Os vitrais contemporâneos têm o seu lugar na arquitectura antiga quando os originais desaparecem”, esclarece o historiador, sugerindo que o Governo francês os instale na torre norte, onde o incêndio provocou mais danos.

O restauro da Catedral de Notre Dame, cuja reabertura está prevista para 8 de Dezembro de 2024, contou com a mobilização de milhares de doadores, muitos deles internacionais.

Texto editado por Inês Nadais

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