NASA enviou vídeos de um gato para a Terra, a partir do espaço profundo — e em nome da ciência

O vídeo mostra o felino a perseguir um laser no sofá de casa do dono. A NASA enviou-o para uma nave espacial próxima de Marte que a reencaminhou para a Terra.

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O vídeo que a NASA transmitiu a partir do espaço mostra o gato a perseguir um laser NASA/Twitter

No caminho para Marte, a quase 19 milhões de quilómetros da Terra, o gato Taters foi a estrela.

O felino malhado com pêlo alaranjado protagonizou o primeiro vídeo da NASA transmitido a partir do espaço, uma experiência bem-sucedida da estação espacial que representa um marco para o avanço da capacidade humana de enviar comunicações além da órbita da Terra.

Na semana passada, o vídeo que mostra Taters, animal de companhia de um funcionário da NASA, a brincar [com um laser] foi enviado de uma nave espacial para a Terra, anunciou a estação espacial esta segunda-feira, dia 18 de Dezembro. Segundo os cientistas, em breve, a mesma tecnologia laser que transportou o gato para um observatório no estado norte-americano da Califórnia permitirá que os astronautas enviem vídeos a partir de Marte.

De acordo com a NASA, a tecnologia pode ainda transformar a forma como as naves espaciais comunicam em missões interplanetárias, e já está a ser preparada para ser utilizada pelos próximos astronautas que forem à Lua. O sistema vai permitir enviar vídeos de banda larga, informação científica e imagens de alta resolução a partir de distâncias muito além da Lua e com grande rapidez.

"O que fizemos foi pegar nesta tecnologia que tem sido utilizada em satélites que orbitam perto da Terra e à volta da Lua e alargámos esse alcance ao espaço profundo", afirma Malcolm Wright, que trabalha no Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA (JPL, na sigla original) em Pasadena, na Califórnia. "Esta demonstração que acabámos de fazer está a mostrar a capacidade da tecnologia", completa.

O vídeo, que foi enviado pelo transceptor a laser Deep Space Optical Communications, apanhou boleia para o espaço profundo na Psyche, uma nave espacial numa missão à principal cintura de asteróides entre Marte e Júpiter. Segundo a agência, o sinal de vídeo demorou 101 segundos a chegar à Terra.

O vídeo de Taters a brincar com um laser — um brinquedo popular para gatos e uma referência à tecnologia laser utilizada na transmissão — foi o primeiro de uma série de experiências planeadas com a Psyche para os próximos dois anos. Segundo Malcom, os cientistas e engenheiros da NASA vão experimentar todas as semanas e, à medida que a nave espacial se afasta da Terra, a transmissão de vídeo a distâncias maiores até atingir a distância de Marte em meados de 2024.

"O mais importante agora é mostrar a fiabilidade e a robustez para que não seja apenas uma novidade, uma peça única, mas possa ser um cavalo de batalha. Queremos mostrar a capacidade que tem", destaca ao The Washington Post.

A 19 milhões de quilómetros de distância, a nave estava a uma pequena fracção de distância de Marte quando enviou o vídeo do gato. O sinal chegou ao Telescópio Hale do Observatório de Tecnologia Palomar, na Califórnia, que o descarregou e enviou para o Laboratório de Propulsão a Jacto que reproduziu o vídeo.

Quando a filmagem chegou ao laboratório, as equipas do observatório e do laboratório falaram através do Zoom, e o entusiasmo espalhou-se. "Pensámos previamente em tudo o que pode correr mal. [Depois, pensámos: 'Ó, meu Deus, está tudo a funcionar'", recorda Malcom. "Faz com que todos os anos de trabalho e esforço valham a pena", acrescenta. Taters, por outro lado, não teve de se esforçar muito.

Porquê um gato?

O gato de três anos pertence a Joby Harris, um estratega visual da equipa de design do laboratório da NASA, que utiliza a arte para comunicar missões ao público. Segundo o dono, a equipa foi desafiada a criar um vídeo pertinente mas divertido para enviar para a Terra.

Os designers quiseram manter-se fiéis às imagens técnicas clássicas da NASA, como o texto "isto é um teste". Mas, segundo Joby, também se inspiraram na história da transmissão nos primórdios da televisão quando a agência espacial mostrava uma figura do desenho animado Felix the Cat (Gato Félix, em tradução livre).

Com isto em mente e já que a missão envolvia lasers, os designers pensaram em usar um gato a perseguir um laser. Joby carregou um vídeo de Taters como marcador de posição, mas nunca teve intenção de utilizar o animal. Por outro lado, a equipa "estava sempre a lembrar-se do gato e de como era encantador e simples", destaca o designer.

Como queriam um vídeo de maior qualidade, Joby foi para casa e preparou uma sala para a filmagem. Colocou luzes e câmaras e pôs pilhas novas no laser. Mas Taters, é claro, não queria ter nada que ver com isso. "Ele sabia que algo estava a acontecer. Tentei durante uma hora que ele brincasse", confessa.

Mas o gato recusou-se. Frustrado, Joby desmontou todo o equipamento e quando regressou à sala de estar, o animal estava a descansar no sofá. A pose era tão perfeita que pegou no telemóvel. O felino "ficou louco com o laser" que Joby apontava.

Apesar de os membros da equipa estarem nervosos sobre se o público ia gostar tanto do vídeo como eles, parece ter sido bem-sucedido. "A comunicação através da luz é bastante complexa, mas como é que se consegue que as pessoas falem sobre isso? Fazemos com que as pessoas falem sobre coisas que normalmente falam", destaca Joby. "A arte passa simplesmente por construir pontes de coisas complexas para o maior número possível de pessoas — e não consigo pensar em nada que faça mais isso do que os gatos."

Ao contrário do brinquedo de Taters, o laser enviado para o espaço é infravermelho e invisível a olho nu. A equipa de Malcom no observatório aponta um laser para a nave espacial que envia depois um laser codificado para baixo. Tal como acontece com a fibra ótica da Internet de alta velocidade, os dados viajam ao longo do sinal laser em vez de ondas de rádio e podem deslocar-se muito mais rapidamente do que através da transmissão de rádio.

"A utilização de lasers é mais ou menos como o que fizemos com a fibra ótica na Terra. O desafio é que não há fibra no espaço, por isso, temos de o fazer através da linha de visão", explica o funcionário da NASA.

Segundo Malcom, apontar o laser para a nave espacial para que o transmissor-receptor saiba para onde apontar é a parte mais difícil. E como a Terra e a nave espacial estão em movimento, os lasers têm de apontar para o local onde o destino estará dentro de alguns minutos. "O raio é tão apertado que não pode apontar apenas para a Terra. Tem de saber exactamente em que ponto da Terra. Tentar acertar numa moeda de dez cêntimos a uma milha de distância enquanto nos deslocamos a 17 mil quilómetros por hora — é esse o desafio."

A nave Psyche foi lançada no dia 13 de Outubro e vai demorar cerca de seis anos até chegar à cintura de asteróides, mas durante pelo menos dois anos, os engenheiros e cientistas da NASA planeiam continuar a testar o transmissor-receptor. Depois de uma pausa este mês para celebrar a época natalícia, vão realizar um teste todas as segundas-feiras. E no próximo, que vai acontecer em Janeiro, a nave vai estar a 30 milhões de quilómetros de distância.

Taters, por outro lado, tem estado demasiado ocupado a dormir a sesta para ouvir falar da fama crescente. "Ele diria que é um analista de movimentos de raios laser. Acho que está feliz por ajudar", adianta o dono.


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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