A mesma pintura, duas causas: activistas pelo clima visam Vénus que sufragista rasgou

Protesto esta segunda-feira na National Gallery visou Vénus ao Espelho, sete vezes esfaqueada por uma sufragista em 1914. Velázquez estava protegido e conservadores estão a examinar potenciais danos.

Foto
Vénus ao Espelho The National Gallery
Ouça este artigo
00:00
04:09

Dias depois de um alargado grupo de museus nacionais e regionais britânicos se ter comprometido a agir sobre a crise climática, falando mais do tema e gerindo as suas colecções de forma mais sustentável, os activistas pelo clima voltaram a usar um museu britânico como palco dos seus protestos. Dois membros do grupo Just Stop Oil “parecem ter atacado The Toilet of Venus (também conhecido como The Rokeby Venus), de Velázquez com o que parecia ser um martelo de salvação em emergência”, descreve a National Gallery de Londres em comunicado.

O objectivo do colectivo Just Stop Oil, como é descrito pelos próprios na sua conta no X (antigo Twitter), era chamar a atenção para a atribuição de novas licenças para exploração de gás e petróleo no Reino Unido. Desta feita, associa-se a uma outra causa, a da igualdade de género, já que a mesma pintura, intitulada em português Vénus ao Espelho (1644-48), já foi pano de fundo de um protesto pelo direito ao voto das mulheres no início do século XX.

É mais um de vários protestos que utilizam como palco espaços laicos mas socialmente sacralizados como os da arte, em que a ideia de protecção se associa à de mediatismo, para passar uma mensagem que os grupos, espalhados pelo mundo, consideram urgente. Pelo que é visível no vídeo do Just Stop Oil, duas pessoas aproximaram-se da pintura, ergueram as ferramentas e desferiram vários golpes rachando a protecção do quadro. Não é possível aferir se atingiram a pintura em si.

A Vénus ao Espelho, protegida por aquilo que parece ser um vidro ou uma placa de acrílico, está agora nas mãos dos conservadores do museu, que depois do protesto ocorrido cerca das 11h da manhã desta segunda-feira estão a avaliar se houve estragos. O jornal especializado The Art Newspaper recorda que a mesma pintura foi alvo de um acto de protesto em 1914 pela sufragista Mary Richardson, que rasgou a tela em sete lugares, obrigando ao seu restauro. A escolha da obra para mais um protesto do género, que recentemente visou também um Picasso protegido com um acrílico no MAC/CCB, tem um lastro histórico.

“As mulheres não puderam passar a votar votando. É tempo de feitos e não palavras”, diz a activista. “Temos simplesmente de parar com o petróleo”, diz o outro activista, citando também o ano da conquista do sufrágio universal em Inglaterra. Depois, os dois sentaram-se frente ao cordão que limita a aproximação à pintura e, como indicam as práticas da resistência não violenta delineadas nomeadamente pelo intelectual Gene Sharp, limitaram-se a esperar. A Just Stop Oil já se tornou notícia e chamou a atenção para a sua causa na National Gallery, com duas activistas a colar-se a uma pintura de John Constable, e noutros museus colando-se a obras de Van Gogh ou Turner.

Foto
O protesto com Os Girassóis de Van Gogh EPA

Acção colectiva

Enquanto isso, na semana passada e conforme relata o diário britânico The Guardian, líderes e representantes de museus e instituições culturais britânicas reuniram-se na Tate Modern para a primeira UK Museum COP, encontro do qual terá saído um compromisso de acção colectiva contra a crise climática. É a primeira vez que falam em conjunto sobre o tema, dizem, citados pelo Guardian, e sentem “a responsabilidade de falar sobre a crise climática e a biodiversidade”.

Isto acontece depois de vários museus e galerias britânicos terem já posto fim ao mecenato de empresas associadas a combustíveis fósseis - o caso mais visível era o patrocínio da petrolífera BP ao British Museum. A National Portrait Gallery fez o mesmo no ano passado e a National Gallery já não tem o polémico mecenas Shell, outra petrolífera que deixou de estar associada a uma prestigiada instituição cultural após anos de protestos e intervenções de activistas, que foram desde a colocação de panos à entrada da galeria até a actuações teatrais ou musicais.

Os museus agora reunidos na sua própria COP (Conferência das Partes, o órgão decisor sobre os parâmetros da Convenção das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas) são eloquentes: como instituições “com visão de longo prazo”, e reconhecendo que “estamos agora no Antropoceno”, os líderes dos museus “sentem que têm a obrigação ética de agir”.

Na prática, comprometem-se a usar os seus acervos, programação e outros activos pedagógicos para envolver o público na temática da crise climática “e inspirá-lo a agir positivamente” e também a aumentar a biodiversidade nos seus próprios espaços verdes e implementar planos de descarbonização e políticas de “opção mais verde primeiro”. No comunicado não apresentam objectivos concretos, quantificáveis ou calendarizáveis.

Sugerir correcção
Comentar