Foi horrível, mas…

Defende-se o “equilíbrio da resposta”, mas já se viu alguma guerra equilibrada? Propõe-se a proporcionalidade, mas o que significa isso? Fazer aos palestinianos o que o Hamas fez aos israelitas?

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A palavra “mas” diz tudo sobre como pensa a grande maioria das pessoas, quando se exprimem sobre o massacre de 1400 civis israelitas pelo Hamas e a propósito do que alguns qualificam de genocídio por parte de Israel sobre os palestinianos.

A estas pessoas eu gostava de perguntar o seguinte: já pensaram que o Hamas pode estar a impedir os palestinianos do Norte da Faixa de Gaza de fugirem para melhor poder acusar Israel de matar civis indiscriminadamente, como aconteceu com o Hospital Al-Ahli? Já pensaram que as estradas que conduzem ao sul podem estar armadilhadas para impedir a fuga e mais uma vez culpar Israel pelos palestinianos mortos? Saberão ao menos que genocídio é um acto premeditado, planeado e executado para fazer desaparecer da face da terra pessoas que se considera não terem o direito de partilhar o mesmo planeta? Ou já estarão esquecidos do que é um genocídio, o que, aliás, é natural, porque a palavra foi criada por um judeu polaco, Raphael Lempkin, em 1944, e aprovada pelas Nações Unidas em 1948.

A essas pessoas, especialmente àquelas que escrevem e eu cito “Neste momento não se está a testemunhar uma guerra entre o Hamas e Israel, mas sim uma segunda Nakba – o genocídio e o planeado extermínio total do povo palestiniano”, eu respondo para quem ainda não saiba ou esteja distraído: contrariamente aos terroristas do Hamas, Israel pediu aos palestinianos do Norte de Gaza para irem a caminho do Sul para não correrem o risco de serem apanhados pela retaliação de Israel. Em contrapartida, o braço armado do Hamas coloca os seus alvos militares junto à delegação da ONU, a escolas e mesquitas.

O alvo de Israel não são os civis palestinianos, é o Hamas e toda a sua estrutura de terror. Terá por acaso o Hamas prevenido Israel de que iria atacar o Sul do país? Claro que não, porque o objectivo da sua carnificina eram deliberadamente civis entre os zero e os 90 anos, tratando-se de um plano longamente amadurecido e planeado com o apoio do Irão, esse país que aprisiona e assassina mulheres a quem escapou um fio de cabelo.

Israel tem o direito de se defender e às pessoas que dizem que concordam, mas “não assim”, eu pergunto: então, como? E ninguém responde, porque ninguém sabe. Defende-se o “equilíbrio da resposta”, mas já se viu ao longo da história alguma guerra equilibrada de parte a parte? Propõe-se a proporcionalidade, mas o que significa isso? Fazer aos palestinianos o mesmo que os terroristas do Hamas fizeram aos israelitas? O certo é que, neste preciso momento em que escrevo, estão a cair mísseis do Hamas no centro de Israel e a população israelita está desesperada sem saber se os seus familiares e amigos estão mortos ou vivos, e o que espera o Governo para os tirar dali. Tal como está também a população palestiniana. Dói ver civis palestinianos a morrer? Dói, sim, porque são pessoas como os israelitas, como todos nós, e ninguém pode ficar indiferente.

Em todo o mundo têm-se realizado manifestações contra Israel. As palavras de ordem são inevitavelmente, “Israel Estado terrorista”, “culpado de crimes de guerra e contra a humanidade”, “Israel genocida” e, talvez o mais popular “Free Palestine from the river to the sea”, ou seja, por uma Palestina livre do rio (Jordão) até ao mar, slogan que subentende simplesmente o desaparecimento de Israel do mapa.

O que significam estas palavras de ordem? Em primeiro lugar que, para esses manifestantes, as vidas humanas não têm todas o mesmo valor e os 1400 ou mais israelitas que foram barbaramente assassinados ou raptados pelo Hamas não entram na categoria, que realmente são, de alvo e vítimas de crimes contra a humanidade. Em segundo lugar, e principalmente, que, Israel como país e como população não tem direito à vida. Eu acrescento: desse ponto de vista, nem lá nem em lado nenhum.

Não vou aqui contar a história da criação do Estado de Israel, mas recomendo vivamente a quem escreve, e sobretudo a quem se apresenta como investigadora de Estudos do Médio Oriente, que dedique um pouco mais do seu tempo a estudar, porque a ideologia por si só não ajuda e o problema é que, quanto mais ignorante, mais extremista se é.

Apenas para que fique claro: Israel não é o país ocupante nem controla a Faixa de Gaza. Israel saiu de lá em 2005 e quem comanda, condiciona e controla é o Hamas, eleito em 2006 e submetendo a sua população a uma ditadura feroz que celebra os seus mortos em atentados terroristas contra Israel como mártires que entregam a sua vida a Alá.

Mais do que isso: a ajuda internacional da ONU e da União Europeia dedicada ao desenvolvimento palestiniano, que também inclui a Universidade em Gaza, é estimada em milhares de milhões de dólares e euros ao longo dos anos. Mas essa ajuda tem vindo a diminuir, devido a suspeitas de que grande parte desse dinheiro vá para a organização terrorista, e não para o desenvolvimento da sua população. Creio que isto devia alertar todos os que neste momento se preocupam com a situação dos palestinianos de Gaza…

Foto
Crianças feridas resgatadas dos escombros de edifício bombardeados por Israel e Gaza MOHAMMED SABER/LUSA

Em paralelo com as manifestações ditas pró-palestinianas, temos vindo a observar o crescendo de actos anti-semitas, não só em alguns países muçulmanos, mas nomeadamente na Europa, onde, para muito boa gente, o Holocausto não foi suficiente. Vemos sinagogas vandalizadas, atentados, comunidades atingidas, estudantes universitários maltratados, senão expulsos, e a pergunta é: porquê?

As respostas variam, seja porque os judeus “são” ricos (quem me dera!) e controlam sectores fundamentais da economia e da comunicação, isto nos EUA; seja, na Europa, porque muito frequentemente se importam os conflitos israelo-palestinianos para os países onde residem judeus e muçulmanos; e porque muitos judeus, mesmo aqueles que discordam das políticas do Governo israelita, defendem o país, porque sabem que no final o seu destino colectivo está ligado a Israel. Já aqui escrevi isto e repito, porque a história também se repete.

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