“Temos de mostrar respeito e dar aos residentes a capacidade de decidirem” o turismo que querem

JoAnna Haugen trabalha na intercepção entre turismo sustentável, storytelling e impacte social. “Temos estado demasiado focados na bela fachada e nas actividades agradáveis sem complicar a narrativa.”

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Joanna Haugen dr
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E se, em vez de nos perguntarmos para onde queremos viajar nas próximas férias, nos questionássemos por que queremos ir? É só pelas fotografias maravilhosas que vamos partilhar nas redes sociais? É porque aquele é o sítio mais in do momento? Ou porque queremos riscá-lo da lista? Quereríamos ir se não pudéssemos partilhar a experiência em lado nenhum?

Para JoAnna Haugen, viajar de forma mais consciente e sustentável (e mais memorável também, mas já lá vamos) pode começar simplesmente por fazermos melhores perguntas a nós mesmos no momento de decidir o destino. Antes do “onde”, o “porquê”. Qual é o nosso propósito? Por que razões queremos partir ou visitar determinado lugar durante a viagem? Depois, além de escolher “o que” queremos fazer, pensar no “como” o vamos fazer.

Um workshop de cozinha: “Vai-se inscrever num espaço massivo ou procurar uma empresa social, como a Migrateful, por exemplo, onde refugiados dão pequenas aulas de culinária enquanto falam sobre a sua história de migração para o Reino Unido?” A caminhada num trilho local pode ser conciliada com a apanha de lixo ou feita num percurso menos popular para não contribuir para a sobrecarga do ecossistema?

Durante mais de uma década, JoAnna Haugen escreveu sobre viagens para (futuros) viajantes, como jornalista e blogger​. Até ter começado a sentir “que estava a participar em coisas que a deixavam desconfortável”, recorda à Fugas, numa entrevista à margem do ABVP Travel Fest, onde foi uma das oradoras convidadas desta terceira edição, realizada no final de Setembro em Guimarães. “Muitas vezes nem pensamos nelas ou desvalorizamo-las porque nunca queremos sentir que somos os maus da fita.” Coisas simples, tantas vezes tão omnipresentes na oferta turística que nem as questionamos, como nadar com golfinhos nas Honduras, uma experiência “muito popular nas Caraíbas​”, ou o excesso de comida às refeições.

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JoAnna Haugen defende formas mais responsáveis de viajar dr

“Fui-me apercebendo que estava convenientemente a não falar sobre os aspectos problemáticos, a ignorá-los ou a dar-me um desconto, enquanto muitos viajantes [e leitores] talvez nem soubessem o quão nocivo para os animais são este tipo de experiências ou que o desperdício alimentar é um enorme problema no turismo.” Foi numa viagem ao Quebeque, no Canadá, diante de “uma refeição muito chique”, com “toneladas de comida” prestes a parar no lixo, que JoAnna decidiu mudar o rumo da sua carreira.

“Comecei a pensar como poderia fazer a diferença sendo apenas uma pessoa, e apoiar e promover uma forma mais responsável de viajar.” Actualmente, através da Rooted, uma plataforma que trabalha na intersecção entre turismo sustentável, storytelling e impacte social, fundada em 2019, JoAnna procura trabalhar junto de entidades gestoras de destinos, empresas turísticas e produtores de conteúdos de viagens sobre como “criar experiências ou contar histórias de uma forma que incentive, realmente, os viajantes a se tornarem cidadãos globais activos”.

“Acredito que existem muitas soluções locais realmente poderosas para os nossos desafios globais, vozes que estiveram à margem no passado e que são agentes de mudança nas comunidades. Se as apoiarmos, amplificarmos e promovermos através do turismo, então podemos construir uma forma realmente poderosa de usá-lo como ferramenta para apoiar um mundo próspero onde todos possamos viver.”

A sustentabilidade tem de ser a opção predefinida

Para a norte-americana, actualmente a viver na Tunísia, ainda que os viajantes tenham “uma parte da responsabilidade” —​ e possam fazer a diferença de várias formas, às vezes tão simples como viajar na época baixa ou evitar destinos massificados —, a verdade é que “muita da mudança que precisa de acontecer tem de vir do lado da indústria”, defende.

Para que ela aconteça a tempo de mitigar os impactes negativos e impulsionar a capacidade transformadora e positiva do turismo (e o tempo é “o maior desafio”, relembra, uma vez que o sector não existe à margem da emergência climática, da inflação, da falta de habitação ou da crise dos refugiados), a sustentabilidade tem de surgir como a opção predefinida na oferta turística.

Mas é também preciso uma mudança de paradigma na forma como a sustentabilidade é definida, como o impacte e o sucesso são medidos, e que valores são privilegiados, aponta. “Tem havido muita ênfase na parte ambiental, mas a sustentabilidade é uma questão de acesso da comunidade, serviços, respeito e protecção da cultura e dos recursos naturais.” Para medir o seu sucesso é necessário ir além da quantificação de visitantes e dinheiro gasto. “Em alguns destinos estão a encontrar formas criativas de contabilizá-lo, através do índice de felicidade dos residentes ou da percentagem de espaços verdes”, exemplifica.

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JoAnna Haugen dr

Ainda que lembre que “viajar continua a ser algo absolutamente reservado a pessoas privilegiadas”, JoAnna defende que “temos de estar muito conscientes em relação ao facto de algumas medidas que a indústria está a escolher para abraçar a sustentabilidade também poderem contribuir para continuar a restringi-la”. Dá o exemplo das taxas diárias e dos limites de acesso e reservas antecipadas, que exigem maior disponibilidade financeira ou conhecimentos tecnológicos.

“Temos de estar dispostos a refinar a nossa definição de valor, e a olhar para lá dos números. Acho que isso também nos ajudará a não fazer com que as viagens se tornem apenas uma actividade para as elites”. Dá o exemplo do mochileiro, que pode deixar menos dinheiro no destino, mas ficar mais tempo, investir em aprender mais sobre a cultura, ou viajar mais dentro do país, contribuindo para diferentes negócios pequenos. Por contraste, um viajante de luxo pode ficar todo o tempo num resort de uma cadeia internacional.

Se o objectivo é que o turismo se torne “mais acessível, saudável, seguro e melhor para as comunidades locais, então precisamos de repensar o que é viajar, por que é importante e quem queremos deixar entrar”. E perguntá-lo às populações locais. É fundamental lembrarmo-nos que “quando entramos numa comunidade estamos a entrar na casa de alguém”, sublinha. “Temos de encontrar formas de mostrar respeito e de dar aos residentes a capacidade de decidirem como querem que o turismo apareça no seu espaço.” Questionar, debater, é um primeiro passo. “Não vai mudar da noite para o dia, e implica tempo, esforço, dinheiro e uma mudança de mentalidade. É muito difícil, mas temos de inverter o anterior modelo hierarquizado e quantitativo, para uma abordagem de baixo para o topo, qualitativo, holístico e complexo.”

O poder das histórias

“As pessoas não sabem aquilo que não sabem.” Para JoAnna, não se trata de julgar aquilo que é feito de forma errada inconscientemente, mas sim de começar a longa jornada, que nunca termina, de nos tornarmos viajantes, empresas turísticas e entidades promotoras cada vez mais conscientes do impacte, positivo e negativo, do turismo. As histórias que contamos sobre os destinos têm um papel fundamental. “Temos estado demasiado focados naquela bela fachada e nas actividades agradáveis sem complicar a narrativa nem entrar nos detalhes mais difíceis. Mas não podemos pedir aos viajantes que reduzam o desperdício se não estivermos dispostos a admitir que o desperdício é um problema.”

Para incentivá-los a participar em limpezas de praia e recuperação de trilhos, é preciso assumir que existe lixo nos areais e percursos pedestres a necessitar de melhorias. Para dar destaque a iniciativas sociais que trazem para a oferta turística refugiados, pessoas sem-abrigo e outras comunidades marginalizadas, há que admitir que elas fazem parte do tecido social e dar-lhes voz e espaço no sector. Para a escritora, consultora e conferencista, estão a surgir cada vez mais destinos e empresas a “olhar para além das listas de sítios a visitar e a mostrar as pessoas e os negócios que tornam um lugar vibrante, que o tornam único”.

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É preciso "estarmos abertos ao que vier na nossa direcção, são essas as histórias de que nos vamos lembrar" DR

Enquanto viajantes podemos procurar activamente este tipo de ofertas e ser críticos e meticulosos quanto àquilo que partilhamos — e de que forma — nas redes sociais, por exemplo. Sem esquecer uma última reflexão: “qual foi realmente a experiência mais memorável” da última viagem que fez. “Descobri que para mim e para muitas pessoas com quem tenho falado sobre viagens é aquele momento inesperado em que parámos para beber um café e tivemos uma conversa óptima com o barista ou com a pessoa que estava na mesa ao lado.”

“Se viajarmos sem estarmos sempre a olhar para o telemóvel, nem tão presos àquilo que temos de ver, como lá chegar e preencher a lista de coisas a fazer, e deixarmos algum espaço para a humanidade, para a espontaneidade e o acaso, para estarmos abertos ao que vier na nossa direcção, são essas as histórias de que nos vamos lembrar.”

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