A Maia vai lançar um museu virtual para fixar as suas memórias

Município aproveitou balanço do processo participativo de revisão do PDM para recolher elementos sobre história de um território em rápida transformação. Museu deve ser lançado no final do Verão.

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Com este projecto, os "novos maiatos” podem estabelecer “com o território uma espécie de vínculo afectivo”. Paulo Pimenta/Arquivo
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A Maia de hoje é um território de difícil definição, com um enorme parque industrial, manchas de área agrícola intervaladas pelo resultado de um processo de urbanização que muito tem avançado nas últimas décadas. Uma grande fatia dos seus habitantes não nasceu ali, o que pode colocar questões sobre a sua relação com o lugar e conhecimento sobre a história do território.

Esta velocidade de transformação e o desaparecimento gradual das pessoas que ainda mantêm as memórias da Maia que já não existe ou que se vai dissolvendo levaram a Câmara Municipal da Maia a lançar um projecto que olhasse para esse património.

O Museu de Memórias da Terra da Maia vai reunir testemunhos, textos e fotografias sobre o passado do concelho. A coordenadora do projecto que deverá ser lançado no final do Verão, Margarida Campolargo, explica que havia "urgência em captar memórias” sob pena de “que desaparecessem”.

A ideia é um produto do processo colaborativo que levou à revisão do Plano Director Municipal da Maia (PDM). Sendo o PDM um instrumento “fundamental para o ordenamento do território”, é preciso lembrar que “o território não é apenas uma entidade física, mas também mental”, diz o vereador da Câmara Municipal da Maia com o pelouro do Planeamento Territorial, Mário Nuno Neves.

O processo participativo tinha como objecto desmentir duas afirmações tidas como verdadeiras: “que as pessoas não se interessam por estas questões e que os decisores políticos têm receio do contacto com os cidadãos”. Ambas, assegura, “acabaram por ser amplamente desmentidas” na sequência das várias sessões.

As pessoas participaram nas sessões conduzidas pelo docente e investigador do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, José Carlos Mota, e levaram as suas ideias e memórias, um caudal de informação ao qual a autarquia quis dar continuidade.

Relação com o território

Na Maia, a seguir à Páscoa, a Feira das Amêndoas tinha um particular significado. Era onde os jovens “iam oferecer uma caixinha de amêndoas talhadas em madeira às meninas que queriam namorar”, conta Margarida Campolargo, explicando que, provavelmente, era um gesto associado “à primavera e à fertilidade”.

Esta é apenas um pedaço das várias histórias recolhidas pela equipa contratada pela CMM para montar o museu virtual. A coordenadora refere que a pessoa mais velha entrevistada tem 103 anos, mas diz que a maioria tem cerca de 60 anos.

O projecto do museu virtual começou por ter duas grandes fontes: Museu de História e Etnologia da Terra da Maia e os mapas desenhados colaborativamente durante a revisão do PDM. Antes de partirem para a recolha de depoimentos, a equipa que está a montar este museu de memórias alinhavou cerca de 30 pontos relacionados com profissões, pessoas ilustres, lugares e eventos ou festas, conta Margarida Campolargo.

Foi a partir daí que convidaram as pessoas a contar a sua história, tendo a preocupação de seleccionar quem tenha vivido os acontecimentos, quem seja descendente directo ou quem tenha conhecido as pessoas em questão.

A recolha, explica Mário Nuno Neves, serve para captar a “memória de uma Maia que acaba por desaparecer”. Contextualiza que “a maioria da população maiata de hoje não é natural do município” e considera que este projecto pode fazer com que “estes novos maiatos” estabeleçam “com o território uma espécie de vínculo afectivo”.

Este trabalho de recolha não toca só as gentes da Maia, explica. É que as fronteiras do concelho foram mudando ao longo do tempo, encolhendo a sua área. Daí que o seu património cultural seja partilhado “por uma população que excede em muito o território da Maia”, refere o vereador, lembrando que há partes que hoje pertencem a Matosinhos ou a Vila do Conde que já foram maiatos.

Essa partilha reflecte-se em profissões, actividades e hábitos, nota, exemplificando que “a experiência de um agricultor maiato não há-de ser muito diferente de um agricultor de um território que agora pertence ao município da Trofa”.

Apesar de haver um primeiro momento de apresentação, o museu pode crescer e mostrar mais conteúdo. Muito do material recolhido ficará num repositório virtual da câmara municipal. Não está excluída a possibilidade de este museu ter uma presença física.

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