Excerto de Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro

As mulheres do meu País: uma leitura em viagem é o título deste capítulo do livro de Susana Moreira Marques que chegou às livrarias numa nova colecção de não-ficção literária da Companhia das Letras.

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Susana Moreira Marques é também autora dos livros "Agora e na hora da nossa morte" e "Quanto tempo tem um dia" PEDRO CUNHA

Unes pontos no mapa. Observas o desenho. Perguntas se é isso o país.

Levas cadernos, canetas, câmaras, instrumentos digitais ou analógicos mas sempre com a mesma função de registar
o que se vive.

Levas também um livro. Levas o livro como se fosse um guia de viagem, mas um guia que poderia servir para muitas outras viagens para o resto da vida, oferecendo várias possibilidades e não um só percurso. Leva-lo como se leva uma bíblia, para ter perto da cama quando se descansa, à mão em momentos de grandes dúvidas e receios. Leva-lo como um manual que torna mais fácil a compreensão da vida prática que tem sempre que ser desvendada. Ou como se fosse um volume esotérico, um instrumento mágico, que dará acesso ao que há muito está desaparecido.

Em 1949, a escritora Maria Lamas tem 56 anos. Tem uma máquina de escrever. Tem uma máquina fotográfica. Tem coragem.

Acaba de ir falar com mulheres por todo o país.

Levas roupa para todas as ocasiões.

Levas um guarda-chuva.

Levas uma lista de contactos razoável.

Levas uma lista demasiado longa de expectativas.

Levas ideias, boas e más.


Levas coordenadas para locais de interesse que não tens interesse em visitar.


Levas estatísticas (sabendo de antemão que as das mulheres não costumam ser as melhores estatísticas).


Levas espaço extra na mala para o caso de quereres trazer souvenirs para casa.

Levas pesquisa prévia.

Levas calçado prático.

Levas estratégias de empatia, testadas há muito.


Levas hipóteses de conversas sobre experiências de vida alheias, por testar.

Levas memórias, voluntárias mas também involuntárias.


Levas um plano, convencendo-te de que poderá ser cumprido, para percorrer aquele que dizem que é o teu país.

Em 1949, eu não existia. Em 1949, poucas pessoas sonhavam que eu viesse a existir. Eu: uma mulher que escreve, que ganha
o seu dinheiro, que não é casada mas partilha a vida com alguém, que tem filhas pequenas e, em vez de ficar em casa
a cuidar delas, viaja.

Fazes também, mentalmente, uma lista do que não levas:

Não levas um marido.

Não levas o pai.

Não levas a autorização de um homem para viajar.

Instruções e ordens alheias.

Uma série de regras não escritas mas bem estudadas.

Não levas percursos interditos assinalados no mapa.


Nem, no itinerário, paragens proibidas por questões de moral.

Em 1949, a minha mãe está na barriga da minha avó.

Em 1949, a minha avó tem 23 anos. Está casada. Tem um filho de um ano. Anda com cargas à cabeça sem se desequilibrar do rio para as fábricas.

Sei que a minha avó não está entre essas mulheres com quem Maria Lamas acaba de ir falar, mas eu procuro-a.

Para título do projecto sobre as mulheres com quem acaba
de falar, Maria Lamas escolhe «As Mulheres do Meu País» e não «As Mulheres de Portugal», como lhe tinha sugerido, a dada altura, o escritor Ferreira de Castro. Ela escreve a Ferreira
de Castro: «Daria a impressão de uma obra oficial e eu quero fugir absolutamente a tal confusão.»

Acaba de ser afastada da revista Modas e Bordados, viu
o Conselho Nacional das Mulheres Portugueses, que dirigia, encerrado, e não tem perspectiva de emprego.

Sem editora, sem uma organização, sem apoios, sem ajuda, monta uma sociedade (com o editor Fróis de Figueiredo) para publicar As Mulheres do Meu País. Edita em fascículos e procura assinantes.

Imagina que pode ganhar algum dinheiro, imagina que pode provar que as mulheres não estão protegidas pelo país fora como o governo dizia que estavam, talvez imagine mesmo que pode ajudar à mudança, ainda que não seja claro que aspecto terá essa mudança para as mulheres.

Em retrospectiva, tudo ambições com grande probabilidade de saírem falhadas.

Voltas a pegar naquele livro. A abri-lo. A folheá-lo. Revês as mesmas passagens para tentar encontrar pistas diferentes, não só para os passos de quem o escreveu mas para os passos de quem lê.

Não é um livro «de» Portugal mas é um livro «para» Portugal.

Uma outra maneira de utilizar um guia é procurar nele não orientação para descobrir para onde vamos mas orientação para descobrir de onde vimos.

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