Stonehouse, ou o político que afinal não tinha morrido

Matthew Macfadyen é John Stonehouse (1925-1988), o britânico que foi ministro e depois fingiu a sua própria morte, numa minissérie de John Preston que nos chega via Filmin.

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A esposa, o político e a amante: Keeley Hawes, Matthew Macfadyen e Emer Heatley em Stonehouse DR

Em 1974, o político britânico John Stonehouse (1925-1988), que tinha sido ministro do Governo trabalhista de Harold Wilson com o pelouro dos correios e telecomunicações, desapareceu. Deixou a sua roupa e a sua identificação numa praia de um hotel de luxo em Miami e, apesar de ninguém ter encontrado um corpo, assumiu-se logo que teria morrido. O seu obituário chegou a ser publicado em vários jornais. Mas afinal tal não aconteceu: com negócios a correr mal, Stonehouse decidiu fingir a sua própria morte e, roubando a identidade de um dos seus eleitores já defunto, fugir para a Austrália onde foi apanhado. Mesmo a ser julgado, continuou a ser deputado.

Stonehouse, um original da estação de televisão britânica ITV, é uma minissérie cómica de época que conta toda esta história. Uma criação de John Preston, a série de três episódios estreou-se originalmente no início do ano, e chegou no final do mês passado até nós através da plataforma de streaming Filmin, que tem investido cada vez mais em séries, lançando uma diferente por semana. Preston, que foi jornalista, escreveu, por exemplo, o livro no qual a série A Very English Scandal foi baseada. A realização está a cargo de Jon S. Baird, que acabou também de ser responsável por Tetris, o filme Apple TV+ sobre o videojogo que lhe dá o nome.

No centro de tudo está Matthew Macfadyen, que até há poucos anos era mais famoso como o Mr. Darcy do Orgulho e Preconceito assinado por Joe Wright em 2005, mas é hoje mais visível como um dos membros do elenco de Succession, que começou a despedir-se dos nossos ecrãs na semana passada. O seu Stonehouse é um palhaço pouco competente em tudo o que faz, sem grande personalidade e muito que o distinga. É capaz de ser patético, ambicioso e mesquinho como Tom Wambsgans, a personagem a quem Macfadyen ainda dá vida em Succession, mas de uma forma totalmente diferente – e menos cruel. É algo que só atesta a capacidade enorme do actor e os seus dotes variados, em particular para a comédia e para encarnar seres humanos pouco virtuosos. Aqui, Macfadyen contracena com a sua própria esposa da vida real, Keeley Hawes, que faz de Barbara Stonehouse, a esposa do político (que a traía a torto e direito).

A história não é só feita dos negócios falhados e do fingimento da própria morte. Há ainda a amante, a sua secretária mais de 20 anos mais nova, interpretada por Emer Heatley. E também a ligação que Stonehouse, que era economista, tinha à Checoslováquia. Diz-se que o político era um agente duplo que trabalhava com os serviços secretos da República Socialista da Checoslováquia, só que era péssimo nesse trabalho. Tudo parece indicar que seria mesmo, mas continua a ser algo que a filha do político, Julia Stonehouse, contesta, e tentou lutar contra a série, tal como tinha tentado impedir que um documentário sobre o seu pai fosse para a frente. Contudo, a série, que tem Julian Hayes, autor de um livro sobre este aspecto de Stonehouse e alguém que é filho do sobrinho do político, como consultor, assume como verdadeiro. Ainda assim, a série avisa logo ao início que, mesmo sendo baseada numa história verídica, algumas partes foram "reimaginadas".

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