Qual é a importância da agência Lusa para os media portugueses?

Os trabalhadores da agência de notícias iniciaram nesta quinta-feira um período de quatro dias de greve. Em que é que este protesto afecta o funcionamento dos órgãos de comunicação social portugueses?

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Greve dos trabalhadores da Lusa começou às 00h desta quinta-feira e dura até às 23h59 de domingo, 2 de Abril Filipe Arruda

Os trabalhadores da agência Lusa iniciaram nesta quinta-feira, à meia-noite, uma greve que dura até às 23h59 do próximo domingo, 2 de Abril. A paragem deve-se à exigência de "aumentos salariais dignos", depois de anos sem subidas na remuneração. A interrupção de quatro dias nos serviços da Lusa afecta todos os órgãos de comunicação de Portugal, que dependem da agência para garantir uma cobertura noticiosa completa. Mas o que faz ao certo a agência Lusa?

Para que serve a agência Lusa?

A agência Lusa é a única agência de notícias não religiosas de Portugal – já que a Ecclesia se foca em notícias da Igreja Católica – e a maior agência de notícias de língua portuguesa no mundo. Foi fundada em 1986, depois da extinção da Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) e da Notícias de Portugal (NP), e iniciou actividade a 1 de Janeiro de 1987.

A agência Lusa distribui serviço noticioso nacional e internacional, sendo o “principal fornecedor de notícias” dos meios de comunicação portugueses, pode ler-se no site.

A cobertura da Lusa vai da actualidade internacional até a acontecimentos locais em Portugal, sendo crucial para o funcionamento para os órgãos de comunicação nacionais e regionais. Garante uma cobertura abrangente que as redacções de cada jornal, televisão ou rádio – em particular dos meios regionais – não conseguem garantir por si. Para os utentes internacionais, permite a difusão de conteúdo de Portugal e da lusofonia.

O conteúdo difundido pela Lusa não é só texto: é a maior fornecedora de imagens em Portugal, sendo uma das agências fundadoras da European Pressphoto Agency (EPA) e a distribuidora exclusiva, em território nacional, das fotografias de todas as restantes agências europeias integrantes. Disponibiliza também serviço de vídeo e de rádio.

Quantas pessoas trabalham na Lusa?

A agência conta com 260 trabalhadores, dos quais 220 são jornalistas efectivos, de acordo com Irina Melo, da Comissão de Trabalhadores da Lusa. A estes, somam-se ainda “90 jornalistas com avença” ou que recebem “à peça” (por cada trabalho desenvolvido utilizado pela agência).

Irina Melo lembra também que a Lusa tem jornalistas em todos os países de língua portuguesa, assim como em outros pontos do mundo.

Que outras agências existem?

As principais agências de notícias internacionais são a Agence France-Presse (AFP) – a mais antiga do mundo, fundada em 1835 –, a Reuters e a Associated Press (AP). Estas três têm uma cobertura mais ampla do que as outras agências, com escritórios na maior parte dos países do mundo, e servem a maioria dos órgãos de comunicação social de Portugal. A estas três segue-se a agência EFE, a maior distribuidora de conteúdos noticiosos em língua espanhola.

As agências podem ser entidades privadas ou detidas pelos Estados. Em alguns casos podem servir de veículo de informação dos próprios governos – a Xinhua, da China, ou a TASS, da Rússia, têm sido várias vezes acusadas de serem veículos de propaganda e desinformação.

A agência Lusa é maioritariamente detida pelo Estado português, que controla 50,15% das acções.

O que reivindicam os trabalhadores da Lusa?

Os trabalhadores da Lusa reclamam por um aumento salarial depois de vários anos sem aumentos “reais”. “Há 12 anos que [os trabalhadores da Lusa] não têm aumentos reais”, precisa ao PÚBLICO Irina Melo.

Os trabalhadores da agência aprovaram, a 3 de Novembro de 2022, um caderno reivindicativo que previa a exigência de um “aumento condigno”, sublinha Irina Melo. A lista de reivindicações incluía ainda a actualização do subsídio de refeição e a criação de um subsídio parental de 100 euros por cada filho, entre outros.

O anúncio da greve foi feito no início de Março, depois de a administração da agência ter apresentado uma contraproposta de aumento salarial de 35 euros, em resposta ao pedido de 120 euros feito pelos trabalhadores. Na sequência de uma reunião com a administração nesta segunda-feira, foi apresentada uma proposta para subir o aumento de 35 para 74 euros, um valor que não é suficiente para os reivindicadores.

Os trabalhadores da Lusa baixaram o pedido de aumento de 120 para 100 euros, pedindo ainda o aumento do subsídio de alimentação para o máximo não tributado e a aglutinação do subsídio de transporte sem aumento. A administração não aceitou e a greve foi marcada: com início às 00h desta quinta-feira, dura quatro dias, até às 23h59 de 2 de Abril.

Qual o impacto da greve no funcionamento dos órgãos de comunicação social?

A greve condiciona os conteúdos divulgados pelos jornais nacionais e regionais, que recorrem muitas vezes ao serviço da Lusa para noticiar eventos ou acontecimentos para os quais não há jornalistas disponíveis – tanto em questões internacionais, como no âmbito regional. Esta utilização aplica-se tanto nos jornais nacionais, como o caso do PÚBLICO, como em órgãos de comunicação regionais, em que a cobertura abrangente da agência serve de complemento ao trabalho no terreno.

No caso de alguns meios de comunicação locais, principalmente rádios, o serviço da Lusa é indispensável para os blocos noticiosos.

"A Lusa tornou-se um parceiro incontornável para as rádios subscritoras deste serviço, muito especialmente para as rádios locais, que contam com o nosso trabalho diário para lhes levar a voz dos protagonistas da actualidade", escreve a agência no site.

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