Emissões de gases com efeito de estufa têm género: homens emitem mais que as mulheres

Economista do Banco de França faz análise sobre as diferenças entre homens e mulheres no nível de emissões de dióxido de carbono.

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Um estudo de opinião francês concluiu que as mulheres são a maioria daqueles que escolhem um regime alimentar vegetariano ou flexitariano, com uma pegada ecológica mais leveegetarianas e 65% das flexitarianas. Adriano Miranda

Há alguma diferença entre homens e mulheres quando estão em causa as emissões de dióxido de carbono, gases com efeito de estufa que causam as alterações climáticas? Uma análise feita por uma economista do Banco de França, disponibilizada online nesta quarta-feira, dia da mulher, diz que sim.

A análise assinada por Oriane Wegner, da Unidade de Economia do Clima do banco central francês, parte do pressuposto do trabalho dos cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que estabeleceram que as alterações do clima são uma grande ameaça. “Mas se pode parecer, à primeira vista, que este fenómeno atinge toda a população da mesma forma, há estudos que põem em evidência disparidades de género, não apenas nos comportamentos que estão na origem das emissões de gases com efeito de estufa, mas também nos efeitos associados à desregulação do clima”, escreve Wegner, no blogue do Banco de França.

Vejamos a análise que faz sobre as diferenças de comportamentos entre os géneros que pode levar a níveis diferenciados de emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa. “As diferenças nos modos de transporte, no regime alimentar, ou na forma como se passa o tempo livre, têm consequências em termos de emissões, e o género faz parte das variáveis susceptíveis de diferenciar as escolhas dos indivíduos”, diz.

A economista do Banco de França cita, por exemplo, um estudo de 2021 que, ao procurar formas como os cidadãos poderiam reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, estudando a população sueca, encontrou diferenças claras entre três tipos de famílias: uma classificada como pessoa média (que vive numa casa com mais pessoas, sejam os filhos, outros familiares ou amigos), homens celibatários e mulheres que vivem sozinhas. As diferenças estão num gráfico reproduzido neste artigo.

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“Abstraindo de todos os outros critérios, enquanto o volume total de despesas de um homem celibatário é apenas 2% mais elevado que o de uma mulher celibatária, o consumo dos homens origina, em média, 16% mais gases com efeito de estufa do que as mulheres”, analisa Oriane Wegner.

Quer isto dizer que as mulheres consomem mais produtos e serviços com uma pegada ambiental mais ligeira, enquanto os homens celibatários, diz Oriane Wegner, “gastam 70% mais em bens e serviços com uma forte intensidade de emissões de gases com efeito de estufa, como combustível”, frisou.

Rendimento é factor essencial

Estas disparidades têm que ver com diferenças nos padrões de consumo individual, como o de alimentos. Por exemplo, a opção por uma dieta com mais carne aumentará a pegada ecológica individual, sublinha. Os 3500 milhões de ruminantes criados como gado em todo o mundo geram cerca de 6% das emissões de gás com efeito de estufa antropogénicas com origem no homem, estima um estudo de 2020.

“Ora a escolha de regime alimentar tem uma correlação com o critério do género: em França, em 2020, 2,2% da população dizia adoptar um regime alimentar sem carne, e 24% consideravam-se flexitarianos [preferir alimentos de origem vegetal sem cortar de vez a carne]. Citando um inquérito do instituto IFOP junto de 15 mil franceses, a economista salienta que as mulheres representam 67% das pessoas vegetarianas e 65% das flexitarianas.

Embora a análise feita para a Suécia seja confirmada por outros estudos, na União Europeia ou nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) – Portugal faz parte de ambos –, isto não significa que todos os homens e todas as mulheres tenham os mesmos padrões de consumo e correspondam fielmente a este retrato do nível de emissões.

"O que estes trabalhos mostram é que o género é uma determinante pertinente entre outras variáveis explicativas, como o local de residência, ou o estado de saúde. Mas o nível de rendimento desempenha mais frequentemente um papel mais importante para explicar as disparidades de emissões no seio de uma população”, sublinha Oriane Wegner.

Mas este indicador também é influenciado pelo género: o diferencial remuneratório entre homens e mulheres tem vindo a diminuir em Portugal, mas persiste uma desigualdade salarial de 17,2%, avança o estudo Gender Pay Gap-E, coordenado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, cujos primeiros resultados foram apresentado já este mês, e relatados pela agência Lusa. Um outro relatório, elaborado pela empresa de estudos de mercado Spirituc a pedido da farmacêutica Merck e apresentado no ano passado, concluía que são precisos 30 anos para acabar com o fosso salarial entre homens e mulheres em Portugal.

Mulheres mais sujeitas a riscos

Há, no entanto, outras formas em que homens e mulheres podem ter um impacto diferente sobre o nível de emissões de gases com efeito de estufa. “Se as mulheres ocupam cargos de direcção numa empresa, é mais provável que a conduzam para estratégias mais sustentáveis”, afirma Oriane Wegner, com base em alguns estudos sobre o desempenho das mulheres na gestão empresarial. Nas empresas portuguesas, no entanto, os homens ocupam 85% dos cargos de topo nas empresas portuguesas, segundo um relatório da consultora Mercer, divulgado no início de 2021.

O género é também uma das dimensões da avaliação dos riscos a que as populações estão sujeitas devido às alterações climáticas. “O IPCC estabeleceu que esses efeitos são particularmente graves para os grupos populacionais mais pobres, que dependem directamente dos recursos naturais para a sua subsistência e têm uma menor adaptação aos fenómenos climáticos extremos”, lembra a economista francesa. Nestas populações, as mulheres têm geralmente menos acesso à terra, à educação, à informação e aos recursos financeiros.

“Há uma exposição relativamente mais elevada das mulheres aos efeitos das alterações climáticas, em comparação com a população global”, engendrada pela conjugação destes factores de vulnerabilidade às alterações climáticas, conclui Oriane Wegner.