Em Pardilhó, terra de tecedeiras, o tear não se limita a ser peça de museu

A Casa do Tear tem espaço para exposições, ateliers, loja e um café. O seu propósito é muito maior do que a antiga casa de agricultores que lhe dá guarida: preservar a tradição das tecedeiras.

CASA DO TEAR EM PARDILHO ESTARREJA
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É possível assistir, ao vivo, à produção de tapetes, e, nos dias em que há ateliers, dá para pôr as mãos no tear ADRIANO MIRANDA
CASA DO TEAR EM PARDILHO ESTARREJA
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É possível assistir, ao vivo, à produção de tapetes, e, nos dias em que há ateliers, dá para pôr as mãos no tear ADRIANO MIRANDA
CASA DO TEAR EM PARDILHO ESTARREJA
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Há uma pequena loja onde se podem comprar artigos de artesanato ADRIANO MIRANDA
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Há uma pequena loja onde se podem comprar artigos de artesanato ADRIANO MIRANDA

É a irmã do meio, Anabela, quem mais horas passa de volta do tear mas, sempre que é preciso, Manuel e Rosa vão dar uma ajuda na sala dedicada à produção de tapetes de trapos. Aprenderam todos com a mesma mulher, a mãe, que passou grande parte da sua vida no tear, certamente longe de imaginar que os filhos iriam, um dia, seguir-lhe as pisadas. Na tentativa de preservar o saber fazer das tecedeiras de Pardilhó (município de Estarreja), Anabela, Manuel e Rosa Tavares decidiram transformar a casa dos avós maternos num pequeno museu, com espaço para exposições, ateliers de tecelagem, loja de artesanato e um café aberto ao público. Chama-se Casa do Tear, mas tem mais do que um aparelho em plena actividade e à vista de quem por ali passa.

Dentro daquela antiga casa de lavrador tenta-se recriar a realidade de outrora de quase todas as habitações de Pardilhó. “Em praticamente todas as casas existia um tear”, introduz Anabela, explicando que esta actividade “era um complemento das finanças das famílias”. Durante o dia trabalhavam nos campos e “à noite iam para o tear” para produzir tapetes, ilustra a engenheira civil, de 47 anos, que agora se dedica por inteiro ao projecto da família, à semelhança do irmão Manuel, engenheiro electrotécnico. Apenas Rosa, de 57 anos, continua com um pé na Casa do Tear e outro na escola onde dá aulas.

Aos três irmãos juntam-se duas mulheres da terra que continuam a dedicar-se à tecelagem em jeito de part-time. “Têm os seus empregos e nas horas vagas vão fazendo alguma coisa”, conta Anabela, que não consegue esconder a preocupação por poder ver a arte desaparecer. “Os mais jovens não querem pegar nisto”, lamenta, consciente de que o artesanato é uma actividade “muito incerta”. Para ajudar a mudar este cenário, a Casa do Tear faz questão de promover vários ateliers de tecelagem e também reserva uma das suas salas para a venda de artesanato, inclusive peças produzidas por outros artesãos.

É por lá que começamos a nossa visita, a olhar para os chinelos feitos com retalhos de pano, as peças de cestaria, os brinquedos de madeira e as peças da Casa do Tear. Aos típicos tapetes, os irmãos Tavares decidiram juntar algumas peças inovadoras - nomeadamente, carteiras, aventais, pegas para a louça e individuais de mesa com estojo para os talheres -, sem abdicar do princípio basilar: “É tudo produzido artesanalmente e com tecidos reciclados, 100% algodão”, destacam, assegurando que esta aposta na eco-sustentabilidade é particularmente valorizada pelos clientes estrangeiros. “Até a componente mecânica do processo, que é a máquina de coser, é amiga do ambiente. Funciona a pedal”, vincam.

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Anabela, Manuel e Rosa Tavares decidiram transformar a casa dos avós maternos num pequeno museu ADRIANO MIRANDA

Da sala dos teares à cafetaria com lareira

Entre as quatro paredes daquela antiga casa de agricultores repousam várias peças antigas - desde mobiliário a alfaias agrícolas - que fazem parte da história da própria habitação e que vão convivendo, em harmonia, com os aparelhos que ajudam a explicar o processo da tecelagem. Da dobadoura (dispositivo que permite transformar as meadas em novelos) à urdideira (ferramenta utilizada para urdir a teia), cada peça é parte da história que os irmãos Tavares insistem em salvaguardar. E para que não restem dúvidas da longevidade da arte que outrora preenchia as noites das mulheres de Pardilhó, há uma divisão na qual se recria um dos quartos da casa, decorado com tapetes e mantas saídos dos teares da aldeia.

A recriação do quarto na Casa do Tear ADRIANO MIRANDA
O exterior da Casa do Tear ADRIANO MIRANDA
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A recriação do quarto na Casa do Tear ADRIANO MIRANDA

O ponto alto da visita fica reservado para a sala dos teares, onde é possível assistir, ao vivo, à produção de tapetes, e, nos dias em que há ateliers, dá para pôr as mãos no tear. São três equipamentos, de diferentes larguras, representativos de “três diferentes gerações”. “O mais pequeno é novo, tem cinco anos, mas temos aqui um, que era da nossa tia, e que terá certamente mais de 70 anos”, destacam, evidenciando, depois, o terceiro tear, por ter sido aquele em que a mãe deles “trabalhou grande parte da vida”. “Este tear deve ter uns 60 anos”, contabilizam.

Para fechar a visita em grande, o convite passa por aproveitar o espaço da cafetaria. Nestes dias frios, a lareira mantém-se acesa, convidando a uma das bebidas quentes da casa - há chocolate quente, café, café com natas, capuccino, galão e chás. Nos dias de temperaturas amenas há uma esplanada e um grande jardim para aproveitar, assim como uma carta carregada de bebidas frescas - cervejas, caipirinhas e gins, entre outros - e de petiscos mais ou menos leves - rojões, chouriça assada, tostas, torradas e omelete. Paredes meias com o café, encontrará a sala multiusos, que vai sendo ocupada com regularidade por exposições, além de acolher eventos particulares.

Entre as visitas escolares, familiares ou de lares de idosos, a Casa do Tear também vai arranjando calendário para promover várias festas e encontros. Um dos eventos mais populares parte de uma tradição antiga daquela região. “Na quinta-feira gorda, fazia-se um caldo comunitário e nós recuperámos essa ideia para fazer a festa do ‘caldinho’. Convidamos as pessoas a trazerem os ingredientes e nós cozinhamos o caldo”, desvendam, assegurando que quem costuma participar rende-se ao “caldinho”, feito à base de carnes e legumes. Este ano, a tradição volta a cumprir-se.

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