Natal em família: como enfrentar conflitos e lidar com pessoas difíceis

Pensa antes de falares, está atento às expressões faciais durante as conversas e deixa de lado temas como política e religião.

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Vais passar o Natal em família? Sabe como enfrentar conflitos e lidar com pessoas difíceis Getty Images

Para muita gente, a época festiva vem acompanhada de muita tensão. Esta altura do ano pode ser um campo minado de momentos desconfortáveis, desentendimentos e conflitos directos. Não admira que muitos jovens fiquem apreensivos por regressarem a casa para a quadra depois de viverem longe.

Há muitas razões que explicam o surgimento de discussões entre as pessoas durante esta época. Talvez a tua tia não goste do que fizeste com a receita de tarte dela, ou o novo companheiro da tua amiga tenha opiniões políticas preocupantes. Talvez já não vivas em casa há algum tempo, mas a tua família ainda fale contigo como se fosses a mesma pessoa que eras na escola. Talvez tragas o teu parceiro para a conhecer pela primeira vez, e não tenhas a certeza se todos se vão dar bem.

As pessoas têm socializado menos com amigos e familiares desde a pandemia e sentir-se destreinadas. Isto pode ser agravado por todos os temas em que possam discordar.

Alguns assuntos são mais arriscados para discussões e as coisas correm melhor se forem evitados, tais como religião e política, para começar. Quer seja ou não verdade, parece que nunca existiram tantos temas fracturantes. Atreves-te a falar de vacinações ou do custo de vida? Até o facto de trazeres o telemóvel para a mesa pode trazer-te problemas.

Sendo assim, o que acontece se o teu tio tiver bebido demais e disser alguma coisa que te aborreça ou que até te choque? Os conflitos familiares são comuns nas épocas festivas, mas as soluções dadas raramente são realistas e pouco baseadas em investigação empírica. Ao percebermos como estas coisas funcionam no contexto de interacções reais, podemos passar do que soa bem em teoria para o que podemos pôr em prática.

Pensa antes de falares

Em situações reais, as interacções podem escalar antes mesmo de teres plena consciência de que está a acontecer. Pode ser que sejas capaz de antecipar porquê e como é que uma conversa poderá tornar-se num problema. O álcool costuma levar a discussões na tua família? Os teus pais costumam ser hipócritas em relação aos teus novos companheiros? Pensa em como evitar problemas antes de eles começarem.

No momento, podes procurar por "pistas" que indicam que algo está prestes a dar para o torto. Os problemas, por norma, não costumam surgir apenas por causa de uma pessoa, mas pelos argumentos entre pessoas. Presumires demasiado sobre quem será "a pessoa difícil" e porquê não é útil por si só.

Tens de aprender a reconhecer as acções que as pessoas fazem durante a conversa (incluindo tu) e ver como os outros respondem. Algumas expressões faciais podem manifestar dúvida ou desconfiança, e gestos de desprezo (tais revirar os olhos) podem significar que uma conversa se pode transformar num insulto em vez de um debate. Da mesma forma, uma resposta que comece com "bem" ou "bom" pode ser um sinal de uma eventual discórdia.​

À medida que vais percebendo que formas de falar recebem que tipo de reacções, podes ser mais cuidadoso naquilo que escolhes dizer. Até mudares uma única palavra pode mudar a direcção de uma conversa. Um sinal comum de que um diálogo começa a escalar de forma inútil é o facto de as pessoas começarem a comentá-lo e a acusarem-se mutuamente de terem um comportamento despropositado. Aprenderes a estar mais consciente disso pode ajudar-te a reflectir sobre como responderes de forma a que possas acalmar os ânimos... se for esse o teu objectivo.

Enquanto discutem

Existe um dilema nestes casos: por vezes, recuar em relação a um conflito desafia os nossos valores de autenticidade e compromisso com os nossos ideais. Se alguém disser algo insultuoso, seja de forma discreta ou grosseira, sentes-te desonesto e moralmente irresponsável por acalmar as coisas. Às vezes, vale a pena envolveres-te em algum conflito, especialmente com alguém de quem gostes e que está disposto a ouvir e a pensar nas coisas. O problema é que nem sempre é esse o caso.

Geralmente, quando as pessoas discutem sobre algum assunto que lhes interessa, acabam em pólos opostos ou "a falar para o boneco", onde já nem sequer falam da mesma coisa. Cada conversa tem uma trajectória, mas é perfeitamente possível que tenha caminhos paralelos ou divergentes. Nesses casos, é improvável que qualquer conversa com boas intenções seja, de facto, produtiva.

Por último, também vale a pena considerares o que torna uma pessoa ou uma conversa "difícil". Atribuíres essa palavra a alguém não é uma afirmação neutra ou objectiva. Talvez sejas tu a pessoa difícil. Talvez devas querer ser difícil, para alguns tipos de conflito. E, por vezes, talvez não haja problema se fores lá para fora descomprimir.

Exclusivo P3/The Conversation
Jessica Robles é professora de Piscologia Social na Universidade de Loughborough, em Inglaterra

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