Ataques ucranianos em território russo expõem fragilidades de Moscovo

Kiev não assume a responsabilidade pelos ataques com drones em bases aéreas em território russo nos últimos dois dias, mas não os deixa de celebrar.

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Imagem obtida por satélite da base aérea russa de Engels Reuters/MAXAR TECHNOLOGIES

Um terceiro aeródromo russo foi incendiado esta terça-feira por um drone, um dia depois de a Ucrânia ter demonstrado uma capacidade aparentemente nova de penetrar centenas de quilómetros no espaço aéreo russo com ataques a duas bases.

Dirigentes da cidade russa de Kursk, localizada perto da Ucrânia, divulgaram imagens que mostram fumo negro a sair de um aeródromo, às primeiras horas da manhã desta terça-feira, após o ataque mais recente. O governador disse que foi atingido um depósito de combustível, mas não houve baixas.

O incidente ocorreu um dia depois de a Rússia ter confirmado ter sido atingida por dois drones de fabrico soviético: na base aérea de Engels, onde são desenvolvidos os bombardeiros estratégicos gigantes, e em Riazan, a poucas horas de Moscovo. Kiev não reivindicou a responsabilidade pelos ataques, mas celebrou-os.

“Se a Rússia concluir que estes incidentes foram ataques deliberados, irá provavelmente vê-los como um dos falhanços estrategicamente mais significativos na protecção das suas forças desde o início da invasão da Ucrânia”, disse o Ministério da Defesa britânico. “A linha de comando russo irá provavelmente tentar identificar e impor sanções pesadas aos oficiais russos responsabilizados por ter permitido o incidente.”

O Ministério da Defesa russo disse que três militares foram mortos no ataque em Riazan. Embora os bombardeamentos tenham visado alvos militares, Moscovo definiu-os como terrorismo e disse que o seu objectivo era incapacitar a sua aviação de longo alcance.

O New York Times, citando um dirigente ucraniano de topo, disse que os drones usados nos ataques de segunda-feira foram lançados do território ucraniano e que pelo menos um dos bombardeamentos foi alcançado com a ajuda das forças especiais perto da base.

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A Ucrânia não tem reivindicado a responsabilidade por nenhum dos ataques no território russo. Questionado sobre os bombardeamentos, o ministro da Defesa, Oleksii Reznikov, responde com uma piada habitual, dizendo que as explosões nas bases russas são causadas por fumadores descuidados.

“Muitas vezes, os russos fumam em locais onde é proibido fumar”, afirmou.

O conselheiro presidencial Oleksii Arestovich foi mais longe, sublinhando que Engels é a única base na Rússia que está totalmente equipada para os bombardeiros de grande envergadura que a Rússia tem usado nos seus ataques contra a Ucrânia.

“Eles vão tentar dispersar [a aviação estratégica] para outros aeródromos, mas isso complica a operação contra a Ucrânia. Ontem, graças aos fumadores descuidados, alcançámos um resultado muito importante”, afirmou.

Na Rússia, alguns comentadores sobre assuntos militares disseram nas redes sociais que, se a Ucrânia tinha a capacidade para atingir alvos em regiões no interior do território russo, então poderia ser capaz de visar Moscovo.

“A capacidade das Forças Armadas da Ucrânia conseguirem atingir alvos militares bastante dentro do território da Federação Russa tem um significado muito simbólico e importante”, afirmou o analista militar ucraniano Serhii Zgurets, num artigo no site da Espreso TV.

Bombardeamentos russos

Os enormes bombardeiros de longo alcance Tupolev que a Rússia tem estacionados na base aérea de Engels são uma parte importante do seu arsenal nuclear estratégico, semelhante aos B-52 usados pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. A Rússia usa-os na sua campanha iniciada em Outubro para destruir a rede eléctrica ucraniana com ondas de bombardeamentos semanais.

A base de Engels, perto da cidade de Saratov, está a 600 quilómetros do território ucraniano mais próximo.

A Rússia respondeu aos ataques de segunda-feira com o que caracterizou como “bombardeamentos maciços contra o sistema de controlo militar ucraniano”. Os bombardeamentos destruíram casas e causaram apagões, mas o seu impacto parece ser menos grave do que as ofensivas do mês passado que deixaram milhões de ucranianos sem luz e ao frio.

A Força Aérea ucraniana disse ter abatido mais de 60 dos 70 mísseis disparados.

Um míssil deixou uma cratera enorme na aldeia de Novosofiivka, a cerca de 25 quilómetros a leste da cidade de Zaporijjia no Sul da Ucrânia, e destruiu totalmente uma casa nas proximidades. Os trabalhadores dos serviços de emergência retiraram dois corpos deitados ao lado de um carro destruído.

Olga Troshina, de 62 anos, disse que os mortos eram os seus vizinhos que estavam ao lado do carro, enquanto se despediam do filho e da nora, quando o míssil os atingiu. Com as casas agora destruídas e o Inverno a chegar, a mulher não sabe para onde deve ir.

“Não temos nenhum lugar a onde regressar”, afirmou. “Não haveria problema, se fosse Primavera ou Verão. Podíamos fazer alguma coisa, se fosse a época quente, mas o que vou fazer agora?”

A Ucrânia alertou para apagões de emergência em várias regiões durante as reparações dos danos na rede eléctrica.

Pelo menos quatro pessoas morreram nos bombardeamentos russos mais recentes, disse o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. “Em muitas regiões vai voltar a haver apagões de emergência”, disse durante uma transmissão por vídeo. “Iremos fazer tudo para recuperar a estabilidade”, acrescentou.

A Rússia, que designa a invasão “operação militar especial” para derrubar nacionalistas, diz que há uma justificação militar para os seus ataques contra a infra-estrutura civil ucraniana. Kiev diz que os bombardeamentos não têm qualquer objectivo militar e visam prejudicar os civis, o que é um crime de guerra.

“Eles não percebem uma coisa: cada ataque de míssil apenas faz aumentar a nossa resistência”, disse o ministro da Defesa. “Além disso, eles também aumentam o desejo dos nossos parceiros em apoiar-nos”, acrescentou.

Os EUA disseram que vão organizar uma reunião virtual na quinta-feira com executivos dos sectores do petróleo e do gás para debater formas de apoiar a infra-estrutura energética ucraniana, de acordo com uma carta lida pela Reuters.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que a Rússia irá falhar na sua “aposta actual de tentar forçar o povo ucraniano a baixar os braços”.