Exército vai passar a fazer testes de despiste para uso de estimulantes no curso de Comandos

Houve várias hospitalizações de militares, incluindo a de um formando que necessitou de um transplante de fígado. O Exército negou que algum desses jovens tivesse tomado anabolizantes

Foto
Curso de Comandos passa para 17 semanas LUSA/MIGUEL A. LOPES

O Exército vai reforçar o “controlo do estado de saúde” dos militares do curso de Comandos, tanto física como psicológica, e aumentar “a abrangência” de exames médicos, incluindo análises de despiste de substâncias estimulantes ou “narcótico-analgésicas”.

Isto acontece depois de ter havido várias hospitalizações de militares, incluindo a de um formando que necessitou de um transplante de fígado. O Exército negou sempre que algum desses jovens tivesse tomado substâncias anabolizantes ou estimulantes para ajudar a melhorar o desempenho nas provas físicas.

Em comunicado, o Exército anunciou que, na sequência da revisão feita ao 138.º curso de Comandos por um grupo de trabalho criado no início deste mês, foi aprovado pelo chefe do Estado-Maior do ramo o “reforço da monitorização sanitária e controlo do estado de saúde ao longo do curso, actualização da gestão de risco e do programa de desenvolvimento de robustez psicológica”.

Foi também decidida a “adequação do faseamento do curso, de modo a garantir a progressividade da formação e a salvaguarda da integridade física, psicológica e sanitária dos formandos, considerando uma fase preparatória para aclimatização, monitorização, testagem e adaptação gradativa dos militares à dinâmica das exigências do curso”.

A duração do curso de Comandos passa de 16 para 17 semanas.

Quanto às “acções de controlo médico”, vai ser aumentada a “abrangência dos exames médicos, nas fases de admissão e de frequência” deste curso, “incluindo testagem serológica para SARS-CoV-2 e análises de despiste de substâncias estimulantes, narcótico-analgésicas, anabolizantes, diuréticas e hormonais dos candidatos e formandos”.

O ramo decidiu ainda aumentar o recurso a meios tecnológicos, como sensores biométricos, “para monitorização, segurança e avaliação fisiológica dos formandos, com vista a um maior controlo da imprevisibilidade, de provas que exigem um maior esforço físico e psicológico dos formandos”.

O Exército decidiu ainda aumentar a preparação dos formadores do curso, através de “sessões fundamentais, no âmbito da gestão do risco, fisiologia do esforço, stress térmico e lesões de calor, e de avaliação dos indicadores de stress psicológico em contexto de treino de alta intensidade”.

A equipa do 138.º curso de comandos será reformulada, com o Exército a salientar que não estarão integrados “os três militares aos quais foram instaurados processos disciplinares decorrentes dos acontecimentos ocorridos no início do curso”.

O 138.º curso de Comandos, que estava suspenso depois de várias hospitalizações de militares, incluindo a de um formando que necessitou de um transplante de fígado, vai ser reiniciado no próximo dia 28, com 36 formandos, que “foram submetidos às acções de controlo médico adequadas”, lê-se na nota.

No passado dia 9 de Novembro, o Exército instaurou processos disciplinares a três militares da equipa de instrução do 138.º curso de Comandos por “eventual violação dos deveres de obediência, zelo e responsabilidade” e criou um grupo de trabalho para rever este curso.

De acordo com a nota enviada pelo ramo, este grupo “multidisciplinar” foi “coordenado por um oficial superior da Inspecção-Geral do Exército e composto por oficiais superiores, de diferentes âmbitos de expertise, oriundos das áreas operacional, formação militar, saúde militar e psicologia militar”.

O grupo de trabalho apresentou as suas propostas ao chefe do Estado-Maior do Exército, general Nunes da Fonseca.

Em Setembro, o Estado-Maior do Exército ordenou a interrupção do 138.º Curso de Comandos até ao apuramento do processo de averiguações àquela formação.

Na altura, o Exército indicou um total de seis intervenções em estabelecimento hospitalar no âmbito do 138.º curso: ao militar que foi transplantado, a um segundo militar que sofreu uma interrupção respiratória e que teve alta nos dias seguintes, e ainda a quatro militares no Hospital das Forças Armadas, no pólo de Lisboa, “decorrente da revista de saúde feita a todos os instruendos, em 8 de Setembro”.