Nan Goldin: a sobrevivente e a câmara fotográfica

A presença de Nan Goldin em Portugal é a oportunidade para revisitar um património sempre em transformação. O próximo projecto será um filme de ficção.

Foto

Depois de um intenso período de activismo nos últimos anos no âmbito do grupo PAIN, Sirens (2019-2020) e Memory Lost (2019-2021), ambos incluídos no programa de cinema projectado para o Porto, são os filmes (ou slidewshows, como a artista lhes prefere chamar) com que Nan Goldin retomou a sua prática artística. Comum ao dois e aos restantes previstos para o Teatro Rivoli (Fire Leap, The Ballad of Sexual Dependency e The Other Side) está a sua ontológica instabilidade, expressa no modo como, ao longo dos anos, a artista os foi constantemente remontando. A instabilidade como única invariável possível, sim — embora avultem imutabilidades (até ver), caso, em The Ballad, da transição de uma sequência de imagens de relações sexuais para outra de cemitérios e campas, o orgasmo como fim de todas as coisas, inclusivamente da juventude. Aliás, em All The Blood And The Bloodshed (grande ausente do programa do Rivoli), documentário realizado por Laura Poitras que venceu o Leão de Ouro em Veneza, Goldin brinca (?) assim: “Eu utilizava a fotografia para sublimar o sexo. Geralmente, a fotografia é melhor do que o sexo”… Movimento (re-montagem) a que, mais do que uma noção de aperfeiçoamento, subjaz uma funda intenção em voltar a olhar para as imagens e as reactualizar à luz das contingências (físicas, emocionais, psicológicas, filosóficas) da artista a cada momento, prática que é possível de fazer remontar ao historiador de arte alemão Aby Warburg e ao seu monumental Mnemosyne Atlas. O corpo da artista e as imagens que este um dia produziu como espelho do inexorável processo de envelhecimento — e, ainda assim, haverá algo de mais jovial do que o ímpeto para a transformação constante?

Sugerir correcção
Comentar