Os jovens ativistas do clima e os velhos do costume

Não, não é possível ser ambientalista sem ser anticapitalista. Ser ambientalista e defensor do capitalismo é como ser vegetariano e trabalhar num matadouro.

A propósito da crónica em que falava da António Arroio tive oportunidade de me deter nos comentários de várias pessoas que criticavam os jovens manifestantes da causa climática. As críticas vão da incoerência entre o ativismo climático e os hábitos destes jovens, com especial insistência no facto de usarem iPhones, à violação do direito ao ensino e à circulação dos colegas e professores. Passarei adiante das críticas nefastas e da parte nefasta das críticas, mas deve ser dito que existiram e que é inaceitável a forma como tantos tentaram ridicularizar e descredibilizar os ativistas.

Não foi só na António Arroio, os protestos aconteceram também no Liceu Camões e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em comum a mobilização dos jovens estudantes e parte das reivindicações, mas as direções destas instituições de ensino determinaram a diferença entre os protestos. Miguel Tamen, diretor da FLUL, chamou as autoridades policiais, que acabaram por deter manifestantes que protestavam de forma pacífica. Há aqui uma simbologia que não pode ser desvalorizada. Polícia, detenção e um julgamento é a reação que obteve quem se manifestou por um mundo melhor. Lamentamos, rapaziada, mas foi o que se arranjou.

A vida são dois dias, mas dois dias muito agitados. Miguel Tamen estava na multidão que, há 47 anos, incendiou a Embaixada de Espanha e destruiu o seu recheio. Foram protestos atribuídos à extrema-esquerda, numa altura em que ela efetivamente existia e agia em conformidade. Manifestaram-se a propósito da decisão de condenação à morte, em Espanha, de cinco antifranquistas. O vídeo desse protesto pode ser encontrado nos arquivos da RTP e faz das imagens dos protestos dos jovens ativistas climáticos um programa de um canal infantil.

Também a história do ambientalismo tem sido agitada. Por cá, esteve associada ao partido e movimentos monárquicos, destacando-se, entre os vários intervenientes que se dedicaram à causa, Gonçalo Ribeiro Telles. Qualquer ligação que se tente estabelecer entre a concepção política e ideológica, que estava subjacente aos primeiros passos da causa ecológica, e a esquerda que agora protagoniza essa luta é pura ficção. Mas, reparem, não maior do que uma ligação que se tente estabelecer entre a visão política e ideológica de Gonçalo Ribeiro Telles e a defesa do capitalismo. Isto, como enquadramento da resposta à pergunta que foi ontem formulada na última página do PÚBLICO. E a resposta é: não, não é possível ser ambientalista sem ser anticapitalista. Já lá vamos.

Miguel Tamen tem direito a ter mudado de ideias relativamente à visão que tinha do mundo há quase 50 anos e a causa ambientalista teve mesmo de se reposicionar face ao que hoje é defendido pela esquerda e pela direita e sobretudo face ao que é o resultado de uma lógica de extração e esgotamento dos recursos naturais ditada pelas necessidades de crescimento económico do sistema capitalista. A causa ambientalista arrancou numa altura em que não se equacionava um cenário de colapso da vida no planeta. Criticava-se a modernização da agricultura, o estigma do mundo rural e procurava-se a criação de uma estrutura ecológica (verde) nas cidades. Foram lutas importantes, mas as causas da causa mudaram e a urgência também.

O modo de produção capitalista é o grande responsável pela perda de equilíbrio ecológico do planeta e pela destruição da natureza. Como lutar pelo reencontro do equilíbrio ecológico e contra esta destruição sem pôr em causa o capitalismo? Não sei, terão de perguntar a outra pessoa.

O capitalismo é exímio em absorver e apoderar-se de todas as formas de luta que o ponham em causa. Se existe um grande revolucionário anticapitalista, podem ter a certeza que aparecerá estampado em T-shirts fabricadas em escala para o efeito. A sua última conquista é precisamente o combate às alterações climáticas. É ver a agenda de prioridades de qualquer instituição que promova políticas neoliberais capitalistas. Lá está sem falta. O capitalismo é o problema, mas apresenta-se sempre como integrando a solução.

Não é bonito criticar os jovens, quando eles tentam fazer alguma coisa para ter um mundo melhor e não temos qualquer moral para essa crítica. Também não estamos em boa posição para lhes dar conselhos ou avisos, mas temos um dever mínimo: não lhes atirar areia para os olhos. Ser ambientalista e defensor do capitalismo é como ser vegetariano e trabalhar num matadouro.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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