O trauma da fita de Santana, Sanna Marin e o “exemplo” Paulo Rangel

Em Portugal, gostamos de nos vangloriar do nosso profundo respeito pela privacidade dos políticos. Mas esta ideia dos nossos brandos costumes é falsa.

A primeira-ministra finlandesa incendiou o país, não por quebrar a histórica neutralidade, com a adesão à NATO, mas por aparecer num vídeo manhoso de smartphone a dançar e ter amigas que fazem topless na piscina da residência oficial. Ridículo, não é? Sanna Marin prosseguiu o ridículo iniciado pelos seus opositores: fez um duvidoso mea culpa declarando que misteriosamente “é humana” e sujeitou-se a um humilhante teste de detecção de drogas.

Uma coisa nunca vista.

É um facto que as mulheres em lugares de poder continuam com o ónus de terem de se comportar, mesmo na vida privada, como “uma lady na sala”, mas tudo isto é muito patético.

Em Portugal, gostamos de nos vangloriar do nosso profundo respeito pela privacidade dos políticos. Não há adultério que leve à queda de ministros como aconteceu há um ano no Reino Unido quando Matt Hancock foi filmado a beijar uma mulher que não fazia parte do seu agregado familiar. Mas aí o adultério misturou-se com as regras impostas durante o confinamento e até esse outrora famoso adúltero Boris Johnson acabou a demitir o ministro.

Mas esta ideia dos nossos brandos costumes é falsa, aliás como a maioria das outras. O facto de Santana Lopes ter usado uma fita no cabelo num cruzeiro privado no século XX persegue-o até hoje e o trauma é tão evidente que o facto de a fotografia ter sido exposta breves minutos no ecrã da CNN levou o actual presidente da Câmara da Figueira da Foz a abandonar o debate sobre a privacidade dos políticos que a estação organizou. Aqui há dias, entrevistei Magalhães e Silva, o advogado e antigo consultor de Jorge Sampaio que contou que disse ao Presidente da República que não podia invocar “razões nocturnas” para não empossar Santana Lopes depois da saída de Durão Barroso. Na verdade, o facto de Pedro Santana Lopes frequentar discotecas (e aparecer em fotografias nas revistas sociais) contribuiu muito mais para o seu julgamento político do que os actos da sua vida política até aí. Não, não temos brandos costumes ou temos brandos costumes selectivos.

O caso de Paulo Rangel nas ruas de Bruxelas tem sido apontado como “bom exemplo” e como contraponto ao que a oposição finlandesa fez a Sanna Marin. Em Portugal ninguém usou politicamente o assunto e houve alguma onda de solidariedade com o agora número 2 do PSD. Isso é verdade. Mas uma andorinha não faz a Primavera: se sair à noite em Bruxelas não foi politicamente explorado por ninguém, parece-me bastante óbvio que a homossexualidade de Paulo Rangel foi usada contra a sua candidatura. Publicamente houve uma capa do Tal e Qual a “noticiar” que militantes do PSD “exigiam” a Rangel que saísse do “armário”. Paulo Rangel optou por dar uma entrevista ao programa Alta Definição, da SIC, que foi ridicularizada por dirigentes afectos a Rui Rio.
E nas redes de WhatsApp dos militantes do PSD dava-se como argumento para votar contra Paulo Rangel o facto de ser gay... Provavelmente, Paulo Rangel poderia ter sido eleito líder do PSD em Dezembro se não fosse a sua vida privada — perdeu por pouco.

Brandos costumes? Existem, mas só para alguns.

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