Ministro da Saúde britânico demite-se após quebrar distanciamento para beijar conselheira

Matt Hancock, que é um dos responsáveis pela aprovação das regras de combate à pandemia de covid-19 no Reino Unido, foi acusado de hipocrisia e de enviar uma mensagem errada à população.

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Matt Hancock e Gina Colangelo, a assistente que o ministro beijou Reuters/HENRY NICHOLLS

O futuro político do responsável pela pasta da Saúde no Reino Unido, Matt Hancock, desmoronou-se em pouco mais de uma semana, culminando com o anúncio da sua demissão, este sábado, no meio de uma nova subida no número de casos de covid-19 no país.

Na sexta-feira, o jornal The Sun publicou imagens de um vídeo captado por uma câmara de segurança, colocada no gabinete do ministro da Saúde, em Londres, em que Matt Hancock surge a beijar a sua conselheira Gina Coladangelo — uma antiga colega de universidade cuja nomeação como directora não executiva do Departamento de Saúde, em Setembro de 2020, foi muito criticada pela oposição.

Tanto Matt Hancock como Gina Coladangelo são casados há vários anos, e ambos têm três filhos. As imagens publicadas pelo jornal britânico, na sexta-feira, causaram indignação e levaram várias figuras do Partido Conservador a exigirem a demissão do ministro da Saúde (que é também deputado na bancada conservadora), porque no dia em que o vídeo foi gravado — 6 de Maio, segundo o jornal —, as regras de combate à pandemia no Reino Unido exigiam um distanciamento físico entre pessoas de diferentes agregados familiares.

“Trabalhámos muito, como país, para combatermos esta pandemia”, disse Matt Hancock na carta de demissão que enviou ao primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. “A última coisa que desejo é que a minha vida privada desvie as atenções dos esforços para tirarmos o país desta crise.”

Em resposta, Boris Johnson disse que Matt Hancock pode sentir-se “muito orgulhoso daquilo que alcançou — não só no combate à pandemia, como também pelo que fez antes de a covid-19 nos ter atacado.”

Segurado por Johnson 

Para além da pressão do seu próprio partido, Hancock estava também a ser acusado de hipocrisia por associações de familiares de vítimas da covid-19.

“Se ele tivesse de anunciar outro confinamento, ou novas regras de distanciamento, porque é que alguém iria ouvir uma pessoa que não segue as suas próprias regras?”, questionou Rivka Gottlieb, do grupo Covid-19 Bereaved Families for Justice, num programa da BBC Radio.

A demissão do ministro da Saúde surgiu de forma surpreendente, depois de o primeiro-ministro britânico ter dito, na sexta-feira, que tinha aceitado o seu pedido de desculpas e que o assunto estava encerrado.

A recusa de Boris Johnson em afastar Hancock foi também criticada pelo líder trabalhista, Keir Starmer, que acusou o primeiro-ministro britânico de falta de liderança. 

Rivka Gottlieb, do grupo de familiares de vítimas da covid-19, comparou o caso de Matt Hancock ao de Dominic Cummings, o antigo conselheiro de Boris Johnson que violou o confinamento, em Março de 2020, sem que tivesse sido afastado pelo primeiro-ministro.

Há pouco mais de uma semana, a 16 de Junho, o polémico Dominic Cummings contribuiu para a fragilização do ministro da Saúde, ao revelar uma conversa privada em que o primeiro-ministro britânico se referiu a Hancock como “totally fucking hopeless, queixando-se da alegada incompetência do responsável em várias decisões relativas ao combate à pandemia.

Conflito de interesses

A continuidade de Matt Hancock na liderança da pasta da Saúde, que assumiu em 2018, era posta em causa pela oposição há vários meses, mas a queda só aconteceu este sábado, na sequência de um episódio que não se limita ao relacionamento amoroso entre o responsável e a sua conselheira no Departamento da Saúde.

Gina Coladangelo, directora de marketing na empresa fundada pelo seu marido, o milionário Oliver Tress, foi contratada pelo ministro da Saúde, em 2020, por um período de seis meses como conselheira no Departamento da Saúde, um cargo não remunerado. Depois disso, em Setembro de 2020, foi nomeada directora não executiva — cargo com um salário de 15 mil libras (12.500 euros) por ano, em troca de poucos dias de trabalho.

Na sexta-feira, a Sky News noticiou que um familiar da amante de Matt Hancock, Roberto Coladangelo, trabalha numa empresa de saúde privada que tem garantido uma série de contratos com o sistema nacional de saúde britânico.

De acordo com os media do Reino Unido, Gina Coladangelo é também grande accionista da empresa de lobbying Luther Pendragon, que promete aos clientes “um conhecimento profundo das mecânicas da governação”.

Sajid Javid, ex-ministro das Finanças, assume agora a pasta da Saúde.