Memória e sensualidade

Bonito documentário de Luísa Homem sobre a quase centenária geógrafa franco-portuguesa Suzanne Daveau.

Foto
Um relato na primeira pessoa, a voz off da geógrafa Suzanne Daveau

Certos filmes, mais do que trabalharem sobre arquivos (de imagens ou de sons), constituem-se eles próprios em pequenos arquivos, em “filmes-arquivo”. Assim é Suzanne Daveau, bonito documentário de Luísa Homem sobre a quase centenária geógrafa franco-portuguesa. É a história de uma vida, narrada pela própria (sempre em off, evitando-se o formato mais que batido do “depoimento para a câmara”), e isto é objectivamente um factor arquivístico, porque ao procurar e guardar a voz de Suzanne Daveau, e o seu relato na primeira pessoa, o filme transforma-se num documento de história oral, que também, primeiro, procura, e depois guarda. A voz off da geógrafa é o elemento que estrutura a colecção de diferentes materiais apresentados pelo filme, de excertos de velhos filmes a, sobretudo, fotografias (imensas fotografias, Suzanne Daveau, em parte, é um filme sobre fotografias, num círculo infindável que dá a volta ao habitual: não é a voz que está a comentar as imagens, são as imagens que estão a comentar o relato oral), sem esquecer as imagens novas feitas por Luísa Homem, sempre ou quase sempre em super 8 — e essas imagens, com aquele grão, aquela luz, aquela textura da película de formato “doméstico”, para além de serem uma “memória” (o arquivo, outra vez…) de uma matéria em extinção, introduzem no filme uma sensualidade que é fundamental na sua respiração, e no seu vai e vem entre o registo ou o documento do registo e uma aura mais evocativa, mais etérea.

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