Linguagem inclusiva não é “capricho”. É “igualdade e respeito”

Nos últimos anos, as questões de género têm trazido novos desafios ao sistema binário da linguagem. Para muitos jovens, encontrar palavras que descrevam as suas identidades e experiências ainda “é uma luta” — mas a linguagem inclusiva e neutra é um passo para se sentirem “visíveis”, encontrarem um sentido e uma comunidade.

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Jo, pessoa não-binária Nuno Ferreira Santos

Foi nos tempos de infância que ouviu pela primeira vez o nome Jo, inventado e repetido, entre brincadeiras, pelas suas duas irmãs. Ser tratado desta forma foi uma lufada de ar fresco para Jo Matos, agora com 23 anos, que sempre sentiu um desconforto com o seu nome de registo. “Ouvi-lo era como uma agulha que espetava no corpo”, recorda ao P3. “A pouco e pouco, comecei a pedir a toda a gente que me tratasse por Jo.”

Ao longo dos anos, e depois de inúmeras horas a conhecer novas realidades na Internet, Jo foi descobrindo a sua identidade não-binária. Esta descoberta trouxe inevitáveis mudanças e a linguagem foi uma das primeiras a concretizar-se, principalmente quando os pronomes femininos deixaram de lhe servir. “Não me sentia bem com os pronomes femininos, fazia-me confusão e decidi que não os queria. Comecei a explorar mais os pronomes masculinos, mas o que me deixa mesmo confortável são os neutros.”

Nos últimos tempos, Jo começou a reflectir sobre a sua linguagem, explorando a forma mais inclusiva e neutra de se referir a si e ao mundo. “A partir daí, tudo começou a fazer mais sentido para mim”, afirma. Também para Ness Costa, o mundo ganhou uma nova ordem com a descoberta de novas palavras. “O meu processo como pessoa não-binária já vem de há muitos anos, mas na altura não tinha palavras para descrever como me sentia”, diz Ness, de 27 anos.

Desde cedo que sabia que não correspondia aos padrões femininos que a família lhe projectava, fosse na roupa a usar ou nos comportamentos a ter, mas foi quando ouviu pela primeira vez a palavra “não-binário”, há alguns anos, que compreendeu a sua identidade. “Tudo começou a fazer mais sentido. Porque nunca me senti totalmente uma mulher, mas também não é como se me sentisse um homem.”

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Jo Matos tem 23 anos e sempre sentiu um desconforto com o seu nome de registo Nuno Ferreira Santos

Tanto para Ness como para Jo, encontrar novas palavras abriu portas para um novo mundo. “Teve o poder de me fazer sentir visível”, afirma Ness. “As palavras dão conforto e ajudam a encontrar uma comunidade”, corrobora Jo Matos. “Há pessoas que têm isto como garantido, têm palavras que descrevem as suas identidades. Para nós, isso é uma luta. A linguagem é muito importante para sentirmos que existimos à nossa maneira. Isso é uma coisa que não tem preço”, acrescenta.

Não só pessoas não-binárias, mas também agénero, gender-fluid ou transgénero desafiam o modelo binário que tem sido aplicado na linguagem nos últimos séculos. Como descreve a socióloga Mara Pieri, investigadora na Universidade de Coimbra, a linguagem sempre foi “plástica e dinâmica” com o avanço das sociedades e culturas e nas últimas décadas tem sofrido alterações com as questões de género. “A partir do momento em que começa a haver sensibilidade social para um determinado assunto, a mudança linguística torna-se inevitável”, acrescenta o linguista João de Matos, investigador do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa.

Se, por um lado, as mudanças sociais motivam as mudanças linguísticas, também é verdade que a língua pode desencadear mudanças na sociedade. “O mundo está a mudar e esta terá de ser a linguagem do futuro”, alerta Ness Costa.

O lado invisível da linguagem

Pelo menos desde o século XIX que a complexa relação entre a sociedade e a linguagem tem vindo a ser escrutinada. A linguagem permite interpretar e dar sentido ao mundo, ao mesmo tempo que nos ajuda a “organizar o pensamento e a construir a nossa realidade”, explica a socióloga e investigadora Mara Pieri. Além de ser fundamental para viver em sociedade (é através da língua que decorrem todas as experiências socioculturais), também é indispensável para as pessoas construírem uma identidade social, entendê-la e partilhá-la com a sociedade. Por causa disso, a linguagem é constantemente impactada por “variáveis socioculturais específicas de cada comunidade”, como “acontecimentos históricos, fenómenos sociológicos e inclinações ideológicas”, explica o investigador João de Matos.

No que diz respeito às questões de género e linguagem, estas começaram a ganhar maior amplitude na década de 1960, com o feminismo da segunda vaga nos Estados Unidos da América — e rapidamente o tema começou a ser discutido em alguns dos círculos mais proeminentes da linguística. O linguista João de Matos destaca por exemplo Robin Lakoff, aluna de Noam Chomsky, um dos nomes incontornáveis da linguística após a segunda metade do século XX. Em 1973, Lakoff escreveu a obra Language and Woman’s Place, onde denuncia como as línguas reflectem a “natureza sexista das sociedades onde circulam” e estão repletas de conotações, expressões e construções linguísticas que “descrevem as mulheres como secundárias, subservientes ou até mesmo como objectos sexuais dos homens”, explica João de Matos, autor da investigação Poderá uma Língua Natural ser Sexista?.

Na tentativa de contrariar este cenário, houve um esforço para equalizar o tratamento linguístico entre homens e mulheres. Como explica o linguista, deu-se a “feminização dos nomes e papéis sociais que estavam reservados apenas a homens”, como acontece, por exemplo, com o nome “presidenta”. Mas também se recorreu à neutralização da linguagem, onde se apaga as marcas de género nas frases — por exemplo, substituir “os alunos” por “comunidade estudantil”.

“Agora sabermos que a utilização do masculino para referir grupos que não são compostos apenas por homens é problemática, na medida em que contribui para a invisibilidade conceptual de todas as pessoas que não sejam homens”, alerta o investigador João de Matos, partilhando o exemplo das experiências da sua dissertação, que mostram que a representação mental mais acessível de uma palavra como “alunos” é a de um grupo composto exclusivamente por homens, independentemente da intenção de quem a mencionou. Por outro lado, há estudos que mostram as vantagens da linguagem inclusiva: uma investigação publicada em 2015 revela que a apresentação de profissões utilizando a forma masculina e feminina de nomes de empregos estereotipadamente masculinos (por exemplo, engenheiro e engenheira) a crianças do ensino primário contribui para que as crianças reportem níveis superiores de auto-eficácia relativa a essas profissões.

A linguagem neutra: do “x” ao “elu”

A terceira vaga do feminismo e, em particular, a emergência da teoria queer (que reflecte sobre o papel sexual e de género) veio revolucionar novamente o paradigma das línguas naturais. Foram criadas várias estratégias discursivas (sem impacto na gramática) que alteram a forma de comunicar com e sobre outras pessoas. Recorre-se ao uso de “x”, “*”, “@” ou “_” no lugar das vogais: por exemplo, escrever “todxs” em vez de “todos”. Nestes casos, também é comum encontrar o “e” a substituir o “a” ou o “o” — por exemplo, “todes”. Foram ainda desenvolvidas alterações na gramática, como no caso dos recém-criados pronomes neutros hen (no sueco) ou iel (no francês), ou do sistema elu no português, que estabelece “neopronomes” pessoais como “elu”, “delu”, “nelu”, “aquelu” para referir, por exemplo, pessoas não-binárias.

Para Jo, tem sido importante esta tentativa de reformar alguns aspectos estruturais da língua para a tornar mais inclusiva. “Primeiro usava-se o X e o @, que não são verbalizados, mas à medida que o tempo passa houve soluções melhores”, diz Jo. “No meu caso, uso mais o ‘e’ nas palavras, porque acho que o ‘elu’ ainda será difícil para muitas pessoas”, partilha Ness. Ainda assim, consideram que o sistema ‘elu’ poderá ser “uma solução bastante boa”. “Acho que é uma das opções que cabem melhor na língua portuguesa porque recorre a vogais no sítio onde é suposto estarem vogais”, conclui Jo Matos.

“É cansativo lidar com isto todos os dias”

Ness Costa trabalha há cinco anos na restauração, mas só agora encontrou um trabalho onde a sua equipa respeita a sua identidade e os seus pronomes. “Neste trabalho fui a primeira pessoa não-binária a aparecer e as pessoas foram incríveis. Nas conversas de grupo sinto que há um esforço para me incluir”, diz Ness, que trabalha num bar na Graça, em Lisboa.

Por outro lado, são raros os dias em que não é tratado como “menina” ou “senhora” pelos clientes. “Pode não ser por mal, mas é cansativo lidar com isso todos os dias.” Também quando visita a sua família, é comum ouvir o seu nome de registo. “Em família, acaba por ser muito doloroso”, confessa. “Estou tão na minha bolha que depois vou a casa e oiço aquele nome… é uma sensação indescritível. Parece que estão a falar com uma pessoa antiga, já não sou eu.” Apesar de já se identificar como pessoa não-binária há dois anos, ainda não encontrou a melhor abordagem para falar com a família. “É difícil falar sobre isto porque acho que poderá ser estranho para eles. Ainda não há muita informação sobre isto”.

No caso de Jo, também é necessário fazer um “esforço mental” para estar constantemente a explicar o que é o não-binarismo ou como usar uma linguagem neutra nos diversos lugares do seu dia-a-dia, seja na faculdade, onde estuda Psicologia, ou no restaurante onde trabalha. “Muitas vezes, penso: será que quero ter essa conversa com pessoas que não sabem nada sobre o assunto e que depois possivelmente não me vão tratar muito bem, ou o ambiente vai ser desconfortável o suficiente para eu ficar sem trabalho, porque não me apetece estar naquele ambiente?...”, questiona Jo Matos. “Muitas pessoas não usam uma linguagem neutra porque dizem ‘eu não percebo, eu não vou fazer’. Mas esta linguagem significa tratar as pessoas com respeito e igualdade.”

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Ness Costa trabalha há cinco anos na restauração, mas só agora encontrou um trabalho onde a sua equipa respeita a sua identidade e os seus pronomes Nuno Ferreira Santos

“Que pronomes usas?”

Usar uma linguagem inclusiva e neutra “não é assim tão difícil”, assegura Ness. Quando se trata de pessoas não-binárias, o primeiro passo é “não assumir à partida o género das pessoas que não conhecemos”, alerta. Em caso de dúvida, basta perguntar: “Que pronomes usas?” ou “Como te devo tratar?”, acrescenta Jo Matos.

Além das conversas do dia-a-dia, Ness e Jo defendem que a linguagem inclusiva e neutra também deve constar nos documentos oficiais. Em 2008, o Parlamento Europeu elaborou um conjunto de recomendações estilísticas com vista à utilização da linguagem neutra e, em Portugal, o Conselho Económico e Social também publicou um manual de linguagem inclusiva, onde incentiva o uso de voz passiva e pronomes invariáveis. Por exemplo, sugere substituir “direitos do Homem” por “direitos humanos”, “os jovens” por “pessoas jovens”, “os eleitores” passa a “eleitorado” e em vez de escrever “o candidato deve enviar o formulário”, sugere a opção “o formulário deve ser enviado”.

Ainda assim, esta linguagem ainda “não chega a espaços como as escolas ou os media”, defende Ness. “As palavras neutras existem, simplesmente os media ou mesmo as escolas ainda não estão habituados a recorrer a elas”, acrescenta. No entanto, alerta Jo, a atenção à linguagem deve ser acompanhada de outras preocupações. “Na minha faculdade vejo o @ em algumas coisas que escrevem, mas sinto que funciona como um penso rápido para parecerem mais inclusivos, porque, além da linguagem, não existe uma mudança real. Por exemplo, a questão das casas de banho neutras, ou mesmo da separação de género que existe no desporto nas escolas.”

Não é “capricho”, é igualdade

A linguagem inclusiva e neutra não pode ser apenas responsabilidade de pessoas não-binárias, dizem. “É preciso que toda a gente tenha esse papel. É preciso educar os familiares, as pessoas mais velhas”, alerta Ness. “Alivia o peso que recai sobre nós”, justifica.

Este não é um tema que apenas diga respeito a quem não se enquadra no sistema binário, mas figura “um instrumento poderoso para tornar as sociedades mais inclusivas”, defende a investigadora Mara Pieri, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. “A implementação de linguagem inclusiva na comunicação quotidiana não é um capricho de minorias sociodemográficas. É um dos vários caminhos que teremos de percorrer para construir uma sociedade de iguais para iguais”, corrobora o investigador João de Matos. “A luta para usar uma linguagem inclusiva é uma mudança na forma de pensar em geral que pode beneficiar todas as pessoas, tal como a luta para um mundo mais justo não é apenas responsabilidade das pessoas que sofrem com as injustiças”, acrescenta Mara Pieri.

Para Jo Matos, esta mudança na língua portuguesa é inevitável. “É ingénuo pensar que a língua não está a mudar. Ou que esta é a única mudança na língua”, defende. “A língua muda todos os dias, os dicionários acrescentam palavras, as ortografias e as gramáticas mudam. Mas quando as mudanças estão relacionadas com uma minoria marginalizada parece que é mais difícil de aceitar. Por estas mudanças estarem ligadas ao movimento LGBT+, de repente é uma questão que divide.”

“Ainda há muito trabalho pela frente para alcançar uma consciencialização plena da importância que a linguagem tem em moldar a sociedade”, considera Mara Pieri. No futuro, juntamente com a luta para que a linguagem se torne menos binária, a investigadora defende que será “preciso incentivar reflexões que abatam os vestígios coloniais, racistas, sexistas e capacitistas que ainda usamos todos os dias”. E como se começa este caminho? “É preciso ouvir e aprender com a comunidade de activistas e pessoas que trabalham para estas mudanças.”

Ao mesmo tempo, entre os jovens, há uma voz que existe, que cresce e que não será mais silenciada. “Não podemos continuar a meter a nossa identidade numa gaveta trancada a sete chaves”, reforça Jo Matos. “Pessoas como nós sempre existiram, só que a nossa história, a nossa identidade sempre foi apagada”, acredita Ness. “Não vai ser mais assim.”

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