Se a linguagem inclusiva te parece um labirinto, este dossier pode guiar-te

O Dossiê de Linguagem Neutra e Inclusiva, criado por Pri Bertucci, aborda temas como o binarismo gramatical e a empatia e contém guias práticos.

Foto
Broadly

O Instituto Ssex Bbox e a consultora Divertity Bbox lançaram o Dossiê de Linguagem Neutra e Inclusiva, criado por Pri Bertucci, que fundou a Marcha de Orgulho Trans de São Paulo. Nesta publicação são respondidas perguntas como “Por que motivo existe uma comunicação inclusiva?” e dadas sugestões de como adoptar uma linguagem neutra, e que não seja sexista, no dia-a-dia. O dossier dá também a conhecer a diversidade de género ao longo da história mundial, a evolução da linguagem neutra no Brasil e o que é a inclusão radical.

A versão digital do livro pode ser adquirida no site da Diversity Box, por cerca de sete euros (49,99 reais). Tal como para os cursos online da consultora, é necessário que a pessoa se registe na plataforma para ter acesso ao e-book. Por enquanto, o dossier em formato físico não está à venda, mas já se pode fazer a reserva no site do mesmo.

A publicação aborda temas como empatia, acessibilidade, dialectos da comunidade LGBTQIAP+, binarismo gramatical e melhores práticas. Contém ainda alguns guias e manuais e um glossário/contraglossário. O Dossiê de Linguagem Neutra e Inclusiva foca-se também em como e porque é que se deve fazer a indicação dos pronomes de género em actividades, aulas e redes sociais, algo que, segundo Pri Bertucci, se deveria tornar um hábito para todas as pessoas. Nos workshops do Ssex Bbox, que tiveram início no final de 2014, em São Paulo, Pri conta ao P3 que quem participa escreve sempre o nome e o(s) pronome(s) de género preferido(s) (PGP) “numa etiqueta que cola na roupa”. 

“O público-alvo do Dossiê de Linguagem Neutra e Inclusiva não é apenas a comunidade LGBTQIAP+”, diz Pri Bertucci. O objectivo do mesmo é a promoção de uma “sociedade menos polarizada e com uma mente mais aberta”. Na opinião de Pri, é fundamental que se fale sobre questões de género, sexualidade e inclusão nas escolas e universidades, e, por essa mesma razão, está a pensar criar “uma versão mais reduzida do dossiê para professores”. No entanto, acredita que o ensino “não é a única forma de consciencializar a população”. Para Pri, a indústria do entretenimento tem um papel tão ou mais importante, através do uso de linguagem neutra e inclusiva e da presença de personagens não-binárias em filmes e séries, algo ainda pouco comum.

Pri Bertucci, que se identifica como transgénero, pessoa não-binária e gender queer, começou no início de 2014, em conjunto com a linguista Andrea Zanella, uma busca pelo primeiro pronome neutro em português. Esta pesquisa nasceu da “própria necessidade de falar de si” a outras pessoas em língua portuguesa sem ter de usar os termos ingleses they/them, revela ao P3. Em 2015, foi lançado o Manifesto Ile para uma Comunicação Radicalmente Inclusiva, que estabeleceu o sistema “ile”/“dile”, derivado do pronome illud, do latim, idioma que já considerava pronomes neutros.

Este dossier, inédito na língua portuguesa, é o culminar de sete anos de pesquisa de Pri Bertucci sobre linguagem neutra e inclusiva. Artista social há pelo menos duas décadas, Pri fundou, em 2009, o Instituto Ssex Bbox, tornado público em 2011, a partir de um conjunto de web-documentários que exploram a sexualidade, o género e o universo LGBTQIAP+. Está, ainda, à frente da Diversity Bbox, uma consultora especializada para a equidade social e a promoção da diversidade em empresas, organizações e instituições.

Dossiê de Linguagem Neutra e Inclusiva foi apresentado ao público português entre 25 de Setembro e 4 de Outubro, com três sessões de lançamento em Lisboa e duas no Porto e transmissão em directo no YouTube. O lançamento no Brasil está previsto para o início de 2022 e as versões em espanhol e inglês vão ser editadas durante o primeiro semestre de 2022.

Texto editado por Ana Maria Henriques