Casa Vermelha: a casa-jardim do atelier Extrastudio que “sabe envelhecer”

Uma conversa com os arquitectos João Caldeira Ferrão e João Costa Ribeiro, do atelier Extrastudio, sobre a Casa Vermelha, situada numa pequena aldeia em Vendas de Azeitão. O podcast No País dos Arquitectos é um dos parceiros da Rede PÚBLICO. Subscreva nas plataformas para podcast.

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No 38.º episódio do podcast No País dos Arquitectos, Sara Nunes, da produtora de filmes de arquitectura Building Pictures, conversa com os arquitectos João Caldeira Ferrão e João Costa Ribeiro, do atelier Extrastudio, sobre a Casa Vermelha, situada numa pequena aldeia em Vendas de Azeitão, em Setúbal.

O projecto parte da transformação de uma antiga adega numa moradia unifamiliar. Logo no início da entrevista, o arquitecto João Caldeira Ferrão lembra como tudo começou: “A adega pertencia aos meus avós. (...) A Sónia Caldeira quis transformá-la em casa e contactou-nos por causa deste projecto”. Como a Sónia é arquitecta paisagista e o marido é agrónomo, os Extrastudio optaram por criar uma casa que promovesse uma relação “muito directa” entre o interior e o exterior.

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A preservação do laranjal ditou grande parte do projecto e os arquitectos garantem que a liberdade que a casa proporciona aos moradores é mais importante do que a imposição de uma “experiência estética”: “A casa, de repente, torna-se uma parte do jardim. Ou o jardim torna-se uma parte da casa. Tens alguns momentos no pátio, que está no tardoz da casa, onde existem divisões. Tens o duche, em que existe uma janela que abre completamente. De repente, estás a tomar banho na rua e encontras-te protegido. Ou seja, estás no interior, mas ao mesmo tempo estás no exterior. Esta tentativa de não fazer uma arquitectura que é só uma composição (...) para nós foi uma espécie de descoberta”, explica João Caldeira Ferrão.

Durante a entrevista, percebe-se que nesta casa-jardim existiram duas grandes alterações: no piso térreo, na fachada poente, foi rasgada uma janela com 14 metros; e no canto, em contacto com as propriedades vizinhas, foi inserido um pátio para a entrada de luz nas áreas mais escuras da casa. Para sublinhar o carácter mediterrânico da casa, introduziu-se também uma piscina no jardim.

Durante o projecto, os arquitectos quiseram que todos os materiais encontrados fossem preservados: as telhas foram reutilizadas, a estrutura de madeira da cobertura transformou-se num deck exterior, as pedras, “que faziam parte da adega, são utilizadas ou para fazer a entrada na piscina, ou a entrada na casa” e as paredes, “envelhecidas de forma interessante”, também foram aproveitadas.

João Costa Ribeiro defende ainda que “a lógica da economia circular” tem de voltar para a arquitectura não só por uma questão de pragmatismo, mas também para quebrar a obsolescência programada: “Acho que nós devemos pensar – a arquitectura, enquanto prática, e os arquitectos, enquanto classe – em edifícios resilientes e edifícios que possam contornar esta questão do tempo”. Ou seja, “há uma questão de justiça que é aliada à economia”, onde o envelhecimento não só faz parte do projecto, como é visto com bons olhos.

O arquitecto lembra ainda, a título de exemplo, o Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela, da autoria de Álvaro Siza Vieira, onde acontece algo semelhante: “Nesta cultura, tudo o que acontece ao edifício com o tempo é muitas vezes considerado como patologia, não é? Vê-se isso como uma coisa que não é necessariamente boa e tem de ser tratada. E isso não é verdade. (...) É preciso pensar na arquitectura neste prazo mais alargado, perceber como é que ela se comporta nesse prazo mais alargado e como tem também essa capacidade de lidar com o tempo”.

Portanto, não se deixem enganar nem com o tempo nem com o nome. A Casa Vermelha não é vermelha. Ou, pelo menos, não é consistentemente. Ao longo dos dias e das estações do ano, a cor muda. Pode dizer-se que a casa é, na verdade, camaleónica. A cor reage ao ambiente, ficando mais clara ou mais escura dependendo da humidade. Estas transformações acontecem porque foi adicionado um pigmento natural à argamassa para reforçar a presença da casa. Em dado momento, os arquitectos explicam que o que motivou o uso desta cor foi o facto de ter existido ali previamente uma adega e reconhecem que esta seria “uma forma de deixar uma certa memória, uma certa relação com uma coisa que já tinha sido”. Foi assim que nasceu uma casa com “dois tempos”.

Todo o revestimento é de cal aéreo pigmentado, que em contacto com o ar vai petrificando lentamente e muda de tonalidade, atingindo um tom muito escuro quando chove. Pode dizer-se que, tal como um bom vinho, também a Casa Vermelha sabe envelhecer, mudando de cor sem necessitar de pinturas extra.

João Caldeira Ferrão revela que este “tema” da cor acabou por ser transportado para outros projectos que os Extrastudio estão a desenvolver e explica o seu impacto na arquitectura: “A partir de uma certa escala, a cor tem uma relação física contigo (...). É uma espécie de um elo, que eu penso que as pessoas reconheciam no passado. Quando vais a Marrocos, a Itália ou a Espanha há uma relação muito directa entre a matéria e tu próprio”. Também aqui a cor é “um encontro” e a Casa Vermelha torna-se um corpo vivo, com surpresas ao virar de cada esquina.


No País dos Arquitectos é um dos podcasts da Rede PÚBLICO. Produzido pela Building Pictures, criada com a missão de aproximar as pessoas da arquitectura, é um território onde as conversas de arquitectura são uma oportunidade para conhecer os arquitectos, os projectos e as histórias por detrás da arquitectura portuguesa de referência.

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