Memórias: 50 anos de viagens pela fotografia de Ricardo Fonseca

O fotógrafo Ricardo Fonseca, ex-membro da extinta Associação Fotográfica do Porto, começou a fotografar no final dos anos 1960 e nunca mais parou. O fotolivro Memórias, cujo conteúdo fotográfico se encontra parcialmente em exposição na Leica Gallery, no Porto, compila 50 anos de registos das suas viagens à volta do mundo.

MONSANTO, 1973 ©Ricardo Fonseca
Fotogaleria
MONSANTO, 1973 ©Ricardo Fonseca

Tudo começou na sede da já extinta Associação Fotográfica do Porto (AFP), no segundo andar do número 47 da Rua de Santa Catarina, na década de 1960. Até então, o hoje septuagenário Ricardo Fonseca "pouco além teria ido das fotos de família", recorda na introdução do fotolivro Memórias, que reúne as melhores imagens que realizou, ao longo de 50 anos, em Portugal, China, Tailândia, México, Cuba, Peru, Turquia, Angola, entre outrosFoi na AFP, em contacto com outros fotógrafos — entre eles António Mendes e Bernardino Pires — que foi aconselhado a trocar a sua câmara fotográfica Halina, "de qualidade manifestamente insuficiente", pela Rolleicord Vb, cuja compra foi feita com a intervenção do seu amigo Sérgio Godinho, que por viver e estudar em Genebra conseguia obter material fotográfico a melhor preço. "Desde miúdo, quando o meu pai comprou a primeira Kodak, que me senti atraído por câmaras fotográficas e pelo que elas faziam", contou ao P3, em entrevista. Essa paixão mantém-se intacta, talvez até fortalecida, até hoje.

A primeira avaliação do seu trabalho, realizada na sede da AFP por António Mendes, o director de fotografia do filme Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira, foi "bastante severa", recorda. "Na altura, a maioria dos fotógrafos fazia as suas próprias impressões e as minhas continham algumas imperfeições." Foi o fotógrafo portuense Bernardino Pires quem foi em seu auxílio e lhe explicou o que merecia correcção. "Eu tinha ficado muito triste com a crítica do António Mendes", confessa Ricardo Fonseca. Apesar da avaliação, três fotografias desse conjunto, "que até estavam bastante razoáveis", foram admitidas a um concurso organizado pela CP (Comboios de Portugal), em 1968. "Foram as minhas primeiras fotografias admitidas a concurso." A crítica foi, talvez, "excessivamente severa", relativiza. "Mas essa foi a altura em que mais aprendi sobre fotografia."

A sua linguagem fotográfica sofreu poucas alterações, desde 1968 até ao presente, sublinha. "Comparo as primeiras fotografias com as últimas e existe homogeneidade. Não consigo datá-las, se as avaliar esteticamente. Disto posso tirar uma de duas conclusões: ou aprendi pouco ao longo dos anos ou encontrei a minha voz enquanto fotógrafo muito cedo." Não se considera estritamente um fotógrafo de rua, embora grande parte do seu trabalho se insira nessa categoria — quiçá um reflexo da sua confessa admiração pelo trabalho de Henri Cartier-Bresson. "Fotografo muitas paisagens, muitos rostos humanos. Mas também me debruço profundamente sobre algumas realidades." As peregrinações a Fátima e a vida circense são dois dos temas que trabalhou mais a fundo, assumindo uma linguagem mais documental com enfoque no comportamento humano, "sem nunca perder de vista a estética, apesar da riqueza de conteúdo".

Ricardo Fonseca, que acabou por se formar em Economia pela Universidade do Porto, foi cultivando a fotografia como passatempo, apesar de lhe dedicar muitas horas. O seu percurso profissional, marcado pela administração da STCP (Sociedade de Transportes Colectivos do Porto), pela presidência da APDL (Administração dos Portos do Douro e Leixões), pela assessoria do Governo de Macau e vice-presidência da Televisão de Macau, deram espaço às viagens cujo registo figura em Memórias. "Gosto muito de viajar e fiz bastantes viagens — algumas de natureza profissional", refere. Os três anos que passou em Macau, entre 1990 e 1992, permitiram-lhe viajar por outros países do Oriente, "onde a panóplia de temas é praticamente inesgotável". Uma das viagens que mais o marcou foi ao Nepal. "Mais recentemente, adorei visitar o Vietname e o Camboja. São civilizações completamente diferentes da nossa, têm um ambiente exótico que convida a fotografia." Das muitas viagens a Oriente nasceram os livros Imagens/Miragens (1993), A Cidade do Levante (1994) e Oriente: Um Olhar (2005).

Com a passagem do tempo, o amor pelo analógico e pelo preto e branco não desvaneceram. "A esmagadora maioria do meu trabalho foi feito em analógico, mas mais recentemente, por força das circunstâncias, adoptei o digital", explica Ricardo Fonseca. "O ritmo do analógico, porém, é uma constante no meu trabalho. Continuo a disparar muito pouco." Uma selecção das melhores fotografias analógicas, a preto e branco, encontra-se exposta na Leica Gallery, no Porto, até 30 de Abril. A apresentação do fotolivro Memórias teve lugar no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, na mesma cidade, no dia 22 de Março.

FEZ, MARROCOS, 1978
FEZ, MARROCOS, 1978 ©Ricardo Fonseca
KERMAN, IRÃO, 2019
KERMAN, IRÃO, 2019 ©Ricardo Fonseca
ANGOLA, 1969 - Quedas do Queve
ANGOLA, 1969 - Quedas do Queve ©Ricardo Fonseca
TAILÂNDIA, 1991
TAILÂNDIA, 1991 ©Ricardo Fonseca
PORTO, PORTUGAL, 1968
PORTO, PORTUGAL, 1968 ©Ricardo Fonseca
PORTO, PORTUGAL, 1976
PORTO, PORTUGAL, 1976 ©Ricardo Fonseca
V. N. GAIA, PORTUGAL, 1970
V. N. GAIA, PORTUGAL, 1970 ©Ricardo Fonseca
ESPINHO, PORTUGAL, 1973 – Arte Xávega
ESPINHO, PORTUGAL, 1973 – Arte Xávega ©Ricardo Fonseca
PORTO, PORTUGAL, 1967
PORTO, PORTUGAL, 1967 ©Ricardo Fonseca
MESÃO FRIO, PORTUGAL, 1973
MESÃO FRIO, PORTUGAL, 1973 ©Ricardo Fonseca
PARQUE NACIONAL PENEDA-GERÊS, PORTUGAL, 1973
PARQUE NACIONAL PENEDA-GERÊS, PORTUGAL, 1973 ©Ricardo Fonseca
MOURÃO, PORTUGAL, 1981
MOURÃO, PORTUGAL, 1981 ©Ricardo Fonseca
MANGUALDE, PORTUGAL 2019
MANGUALDE, PORTUGAL 2019 ©Ricardo Fonseca
SEGÓVIA, ESPANHA, 1973
SEGÓVIA, ESPANHA, 1973 ©Ricardo Fonseca