O homem que mais adora a vida tem um novo disco

Jonathan Richman canta o deslumbramento com a natureza, a feliz banalidade do amor, a imensidão das galáxias. Não traz surpresas. Não era preciso. Simplesmente reencontrá-lo é suficiente.

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Jonathan Richman continua a fazer o que faz desde que se lembra — “como sou cantor, escrevo canções para ter o que cantar” Driely S.

Portanto, eu e ela na praia, diz ele, o cantor que veste pele de narrador no início da canção. Gostam de correr juntos, de ir aos mesmos penhascos juntos, de ganhar velocidade à maré, de ver os corvos que se riem deles. “Me and her and the beach are a good combination”, canta ele, quando é já cantor novamente, à frente da guitarra acústica solar, vagamente sul americana, do órgão bailarino, da percussão bamboleante e dos coros descontraídos. Simplicidade desarmante, quer na melodia e execução da canção, quer na letra que alternará entre o inglês e o castelhano. Ilusória simplicidade: a canção é um cenário e é um lugar, é um mundo idílico, uma ideia de felicidade que ganha corpo em duas pessoas felizes na companhia uma da outra, uma praia, os caranguejos que são enviados de novo para o mar — vieram com a maré e é preciso ajudá-los a regressar, explica. Não é o mundo, o mundo não é assim, mas nesta canção, como em (quase) todas as canções, temos Jonathan Richman a extrair dele aquilo que interessa, com a sua ainda surpreendente e intrigante naturalidade (como é que ele consegue alinhar as frases aparentemente mais banais, realismo de narrador sem juízos a fazer, só a descrição lhe interessa, sem nunca soar simplório e/ou redundante?).

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