Ventura: o fascista mal-educado que conquistou as redações

Makas de uma angolana 9 Sempre que ouvirmos André Ventura vozeirar mais uma ofensa a uma pessoa em particular ou a uma comunidade com generalizações, não nos esqueçamos de que devemos, nós também, preocupar-nos uns com os outros.

Não há nenhum diretor de informação ou comentador político que não lhe estenda o tapete vermelho. André Ventura é, inequivocamente, a estrela que mais brilho arranca aos diretores de informação, que mais deslumbra os moderadores, o mais querido dos canais de televisão.

Arrogantemente olhando de viés para os seus interlocutores, André Ventura veste o manto sebastiânico que se vai tecendo nos bastidores das redações ao ponto de arrancar, abertamente, sorrisos cúmplices a João Adelino Faria, jornalista na estação pública, que vai dando feedbacks positivos quer através da expressão facial quer da dupla sinalização com a cabeça à afirmação de André Ventura “A responsabilidade disto é do Governo porque o Governo sabia que isto podia acontecer e não o quis fazer” referindo-se, Ventura, a um possível aumento da abstenção nas eleições legislativas de 30 de janeiro por influência dos cidadãos em isolamento profilático.

André Ventura vai fazendo uso do mito do senhor bem-educado, pois trata os jornalistas pelo primeiro nome, para paralelamente ir destratando mulheres, migrantes, minorias étnico-raciais num compulsivo arremesso de fotocópias, como bem assinalou o primeiro-ministro António Costa que abriu o debate com este fascista mal-educado, sim Dr. Rui Rio, André Ventura é fascista e é com um fascista que o senhor deputado Rui Rio, homem que maioritariamente temos como educado, trabalhador e social-democrata, caso vença as eleições, deixou claro que vai dialogar ao fazer contas de cabeça às várias janelas de possibilidade relativas à aplicação da pena de prisão perpétua.

Ventura soma, a um discurso permanentemente crispado, repressivo, acusador e declaradamente fascista, a forma arrogante como destrata mulheres – atente-se na forma preconceituosa e machista com que pautou o debate com a líder do Bloco de Esquerda, numa postura falocêntrica e numa dinâmica de conversação de cima para baixo. “A diferença, Catarina Martins, é que enquanto a Catarina Martins era atriz, e bem, eu era inspetor tribuário, portanto também combati o crime económico e fiscal (…) ao contrário de si, que nunca fez nada por isso”. Acrescenta mais à frente “(…) é importante que as pessoas saibam disto porque senão ouvem as mentiras desta senhora de manhã à noite e acreditam que é verdade” e retesa “A Catarina Martins não sabe disso, provavelmente não sabe muito destas coisas que eu vou falar agora, mas fica a saber. (…) Duplicar. Sabe o que é duplicar? Estão em oito passam para dezasseis. (…) Não sei se sabe o que é (…)”

Foram 25 minutos a assistirmos à replicação de um modelo machista em que a sabedoria está no homem e a ignorância na mulher que, por esta via, precisa de ser ensinada. Mas também é preciso estarmos atentos à forma como destrata homens em posições sociais mais frágeis que logo engrossam a sua lista de inimigos pessoais.

Não é difícil vê-lo, debate após debate, exagerar no gesticular, usar de forma desmedida a linguagem corporal quase como que convidando a um peito a peito em defesa da honra pessoal, fazendo de cada interlocutor um inimigo, rebatendo expressões “orelhudas” como a clássica acusação aos que “têm Mercedes à porta” ou o vozeirar discriminatório do “quem aparece do Mediterrâneo com um telemóvel na mão” e ainda as farpas àqueles que “entram por onde quiserem, venham do Afeganistão, da Síria”, para continuar com o dedo acusatório apontado a um permanente duelo por entender que “a castração química de pedófilos e violadores é fundamental” e ironizando ou até mesmo subjugando as mulheres a uma visão reprodutiva ao referir com desdém “Uma mãe nepalesa vem de comboio para Portugal; enganou-se, queria ir para Espanha e passou por Portugal, o filho dela nasceu aqui (…) já é portuguesa (...). Portanto, pode-se enganar na estação de comboio, vir parar a Elvas em vez de Badajoz e, portanto, já é português

Ouvimos tudo isto sempre com o pano de fundo dos comentadores aplaudindo o one man show, talhado para televisão, um lutador de boxe que sabe vender bilhetes, um animal feroz ao qual ninguém escrutina o vocabulário caudaloso e uma verbosidade centrada no calão “eu sei que isto é chato” e na gíria popular “essas tretas que eles vêm para aqui inventar”.

O primeiro-ministro António Costa terá sido o único que, tratando André Ventura como um eleitor – “quais são as dúvidas que ainda tem sobre a vacinação. (…) Se tem dúvidas eu gostava de estar aqui, aproveitar esta oportunidade, para o esclarecer abriu e fechou o frente-a-frente sendo claro. Olhos nos olhos disse-lhe: “Relativamente às opções políticas há um mundo que nos separa. O senhor felizmente elegeu-me como o seu inimigo número um. Eu sou um democrata, não o defino como inimigo, mas tudo nos separa. Comigo o senhor não passa, as suas ideias não passam, eu não estou aqui para o moderar nem para o mitigar. Agora acho que temos de aproveitar este tempo, já agora, para o esclarecer quais são as suas dúvidas contra a vacinação.” No final do debate confrontou-o: “Lembre-se sempre do seguinte, a última vez que fez acusações num debate acabou o senhor condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Nos rodapés da emissão, as escolhas editoriais da estação pública permaneciam concentradas em justificar as afirmações de André Ventura “Vacinar é uma questão pessoal”, lia-se. Será mesmo uma questão pessoal ou a liberdade de uns termina quando começa a liberdade dos outros? Talvez seja de equacionar que a questão da vacinação pode ser do foro da responsabilidade coletiva, de um país, de um continente, do mundo ou não é uma pandemia o que estamos a enfrentar?

Moderar também é colocar questões às partes, distribuir o jogo obriga a uma escuta ativa e a um refazer perguntas sobre questões levantadas por uma das partes que necessitam de clarificação pela outra parte quando indicativas de interesse público. Mas no que aos debates com André Ventura diz respeito os moderadores, exceções feitas a Rosa Oliveira Pinto, na SIC Notícias, e João Povoa Marinheiro, na CNN Portugal, optam apenas por serem mestres-de-cerimónias do líder fascista da extrema-direita, abrindo caminho a um atirador furtivo que verborreia e destila ódio fazendo-se valer de técnicas de chantagem barata e demagogia primária, ofensas em massa a comunidades tendencialmente marginalizadas, exibindo recortes de jornais com rostos a quem atira balas sem que estes, ausentes, se possam defender e sem que os editores de informação respondam com linhas vermelhas e códigos de estilo sobre quando desviar a câmara do recurso abusivo à imagem de terceiros.

Consentâneo em todos os debates, André Ventura, o eterno antagonista, já colocou no dicionário eleitoral o desígnio nacional de “reduzir a subsidiodependência” e “acabar com este país em que metade trabalha para sustentar a outra metade”, assumindo-se claramente, e afirmou-o no debate com o deputado do PSD Rui Rio, como um “partido que tem ideias de rutura”. Pergunta: é legítimo que num Estado Democrático e Republicano confirme um discurso que coloca sistematicamente em questão a ordem jurídica e administrativa da III República, contrariando vários artigos da Constituição Portuguesa como o 13.º no que ao Princípio da Igualdade diz respeito?

André Ventura não podia ter sido mais esclarecedor de que é contra a Constituição e contra a República Portuguesa e afirma-o quando, também no debate com o deputado Rui Rio refere “Pela primeira vez em 46 anos serão feitas reformas a sério (…)”.

Os 46 anos que André Ventura ostraciza são as quatro décadas da III República que coloca em causa, os anos que abril abriu revolucionando, para depois ir construindo, obrando, erguendo depois da seca de liberdade a que o Estado Novo legou Portugal, fazendo do país um outsider da Europa e da estratégia global dos países nas Nações Unidas, um orgulhosamente herdeiro do fascismo de Benito Mussolini e um honrosamente neutro perante o testamento nazista de Adolf Hitler.

Se temos de nos preocupar com a vassalagem mediática perante um Chega com deputado único? Temos e muito. É que contrapondo o deputado único André Ventura com outros partidos como o PCP, o BE, o PAN ou o CDS, verifica-se que qualquer um destes tem grupos parlamentares sólidos, mas que, estranhamente e segundo as contas das redações, não impactam tanto a sociedade como o Chega. Nós, nas fileiras das minorias de género, étnico-raciais, de território ou orientação sexual temos de nos preocupar, e muito, quando confrontadas com o tratamento mediático que é dado a André Ventura comparativamente ao dos partidos com o dobro, quando não o quádruplo, de eleitores do que os que suportam o Chega, que paradoxalmente aparece como o grande diamante a lapidar para servir às 21h na mesa dos portugueses e dos residentes em território português.

É preciso estarmos atentos para que em 14 dias de debates com 25 minutos não ganhe quem opta por falar mais alto, gesticular com mais força, ofender com mais proficiência e gravar nas nossas mentes chavões orelhudos e mensagens alarmistas: homicidas, violadores, pedófilos, bandidos, terroristas, corruptos, castração química, prisão perpétua, ideias de rutura, subsidiodependência

Porque, tal como afirmou o primeiro-ministro António Costa, “O grande perigo de partidos como o Chega é quando começam a ter capacidade de condicionar e influenciar os partidos democráticos.” O mesmo António Costa que mais do que candidato, mas primeiro-ministro eleito não se esqueceu que André Ventura não é líder de um grupo parlamentar, mas antes deputado único presente em todas as maratonas ora como candidato à Presidência da República ora como candidato à Presidência do Município de Lisboa. Socialista, António Costa fez questão de, simultaneamente, demonstrar o dever de governante, afirmando: “Obviamente preocupo-me consigo, não é pelo facto de sermos adversários que eu não tenho consideração. Para mim os seres humanos são todos iguais, são todos iguais. Eu preocupo-me consigo como com todos os outros portugueses”.

Sempre que ouvirmos André Ventura vozeirar mais uma ofensa a uma pessoa em particular ou a uma comunidade com generalizações, não nos esqueçamos de que devemos, nós também, preocupar-nos uns com os outros.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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