Esquecemo-nos do Afeganistão?

Milhares de afegãos são ameaçados e atormentados por redes criminosas. Amedrontados com o que lhes possa acontecer, a eles ou às suas famílias, pese embora todo o sofrimento por que passam.

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Reuters/MURAD SEZER

Há meses que milhares de trabalhadores afegãos não recebem salários. Cerca de 23 milhões (entre 39) vivem em pobreza extrema sem água potável, e, segundo a Organização Mundial de Saúde, um milhão de crianças pode morrer à fome ainda este Inverno.

No seguimento de sanções económicas internacionais, em particular dos Estados Unidos, a fim de impedir que os líderes islâmicos pudessem aceder ao sistema financeiro internacional, a invasão taliban, em Agosto deste ano, mergulhou o país numa crise económica e humanitária sem precedentes e é, no mínimo, estranho que pouco se fale, se investigue, se procure saber mais.

Em pleno séc. XXI, o retrocesso, o tráfico humano e a imigração ilegal estão mais presentes do que nunca, porém, ultimamente, fica a ideia de que o tema passou despercebido e desvaneceu na espuma dos dias.

Milhares de afegãos são ameaçados e atormentados por redes criminosas. Amedrontados com o que lhes possa acontecer, a eles ou às suas famílias, pese embora todo o sofrimento por que passam. Não protestam nem se queixam, aceitam, de forma tácita, ser violentamente agredidos e explorados, em condições precárias de trabalho forçado (algo que apenas se aplica aos homens), envoltos num contexto de pobreza a que não conseguem escapar e que cresce desmesuradamente, desafiando a sua capacidade de resistência, quase rogando, em silêncio, por uma alforria que não chega, colocando-os abaixo do limiar do aceitável, do humano, de forma ignóbil e vergonhosa, num mundo que se diz regido pela Declaração dos Direitos Humanos.

Grande parte tenta fugir, com vistos turísticos, à procura de trabalhos temporários e melhores condições de vida. De uma forma geral, vão por pouco tempo, desembocam em trabalhos agrícolas, afastados dos grandes meios urbanos, através de redes clandestinas, mas acabam por ficar indefinidamente e sem escolha. Destas redes clandestinas pouco se sabe: são meandros tecidos por fios secretos, criminosos, suportados pela apropriação de documentos de identificação, facilitando, deste modo, o acesso a mão-de-obra baratíssima, com lucro máximo imediato, onde não cabe a expressão livre e democrática, o poder de negociar, de reivindicar por melhores condições de vida, como seria desejável e expectável, num século que se arroga de liberdade, respeito e democracia.

Vamos percebendo que as redes de tráfico humano geram muito dinheiro, encerram muitos interesses individuais e cooperativos onde tudo tresanda a ganância, a ambição, a desumanidade, num submundo paralelo ao mundo dito cívico e tolerante. São dois mundos que, não se cruzando, coabitam de forma hipócrita, pacífica e silenciosa.

Mais do que inseguro, perigoso, pobre e desnutrido, o Afeganistão está também cada vez mais poluído. Isto resulta da utilização excessiva de carvão, dado que se trata da alternativa mais barata de aquecimento. Contudo, e ainda que muitos afegãos não tenham poder de compra para o adquirir, o carvão tem um grande impacto ambiental, que aumenta rápida e substancialmente a poluição e origina doenças respiratórias graves.

Tudo isto representa uma crise de saúde pública aliada a uma ameaça vil aos direitos humanos, à igualdade e à dignidade, cuja negligência consentida pelas entidades responsáveis é inqualificável.

Se é verdade que, em Portugal, temos vindo a assistir ao melhor e ao pior da justiça, a uma crise de saúde pública que não tende a melhorar e a disputas e debates por parte de partidos rumo às legislativas, não percamos o foco de algo que é tão ou mais sério. O que fica disto é a presença de um submundo onde imperam o menosprezo e a indiferença. Um caso triste, onde o silêncio e a benevolência de organizações não-governamentais, governos e outras entidades acentuam a fragmentação social, a falta de valores, de empatia e de respeito que nunca gostaríamos de ver num mundo democrático e cívico.

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