As coisas de que os sonhos são feitos

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Michael Putland/Getty Images

Neste ano e meio, durante vários passeios nocturnos, foi bem-vinda a companhia de Sentimento dum Ocidental (1880) de Cesário Verde. Errámos os dois pela avenida abaixo, agora sem gente, de uma cidade calada. No lugar do gás, a luz intensa de electricidade coloria os semáforos. Como reluziam, solitários, por cima do asfalto. Ao fundo, dançava, tosco, sozinho, leve, um saco de plástico. Escapou-se-me. Debaixo de uma arcada, sobre a qual se iluminavam os andares, um cão ladrava. Não se viam coristas ou floristas, não se escutavam varinas. Procurei, em vão, o “cheiro salutar e honesto a pão no forno” ou “o tinir de louças e talheres”. A rua pesava vazia nos ecos breves e metálicos dos carros e era capaz de jurar que, embora fosse noite, connosco se cruzou a beleza magnética de uma pessoa e que, no canto de um prédio, encontrámos um homenzinho idoso a pedir esmola.

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