O bisturi dos auéééu disseca o desprezo

A partir de O Desprezo, de Godard, o colectivo estreia no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, um espectáculo homónimo que viaja entre a citação, a exploração de um conceito, e a relação entre indivíduos e instituições. Final feliz não incluído.

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Há uma natureza quase fractal em O Desprezo, peça que o colectivo auéééu cria a partir do filme homónimo de Jean-Luc Godard — o qual, por sua vez, se baseava no livro homónimo de Alberto Moravia. Se na cena inicial tínhamos BB (Brigitte Bardot) a pedir a Michel Piccoli, na figura do seu marido argumentista, que confirmasse a devoção por cada centímetro de pele do corpo dela, agora temos BB (Beatriz Brás) a aplicar o mesmo questionário — “são bonitos os meus pés, as minhas pernas, os meus joelhos, as minhas coxas, o meu rabo?”, etc. — a Miguel Cunha, reproduzindo a mesma cena e as mesmas personagens do filme (Camille e Paul). O Desprezo é a base de O Desprezo, com apresentações no Centro Cultural de Belém, Lisboa, de 8 a 11 de Outubro, mas Godard aparecerá citado também numa outra longa-metragem, Week-End, e, desde os primeiros segundos, as personagens que conhecemos do cineasta franco-suíço partilham a cena com uma dupla silenciosa (Joana Manaças e Frederico Barata). Uma dupla que, indiferente às discussões alheias sobre o cinema comercial e o cinema de autor, disputam a atenção ao desenvolverem uma relação entre cuidadora e moribundo inspirada pelo texto de Ortega y Gasset Unas Gotas de Fenomenologia.