O arrependimento e as saudades nas autarquias, segundo a direção do PCP

Do partido com cinquenta e tal câmaras já não têm memória nem, pelos vistos, saudades. É pena, porque esse grande partido faz muita falta, mesmo aos não comunistas.

Há frases que condensam de tal modo a densidade do pensamento dos seus autores que o Iluminam no sentido de revelarem toda a sua profundidade.

Quando há quatro anos Jerónimo de Sousa declarou, a propósito da perda do município de Almada, que os eleitores ainda se haviam de arrepender e quando João Oliveira afirmou, no passado dia 27 de setembro, que os eleitores dos municípios em que o PCP perdeu haveriam de ter saudades da CDU proferiram duas frases que fazem luz acerca da conceção do PCP sobre as eleições, no caso municipais.

De facto, estas duas ideias revelam, para aqueles dirigentes, que o PCP está sempre certo. O erro é das populações, daí o arrependimento pelo “mal” praticado. No fundo, o PCP avalia os eleitores como sendo incapazes de verem o que só o núcleo iluminado da direção vê.

O PCP perdeu dez municípios há quatro anos. O problema era do anticomunismo. Nestas eleições municipais volta a perder e a cobrir a derrota com a mesma manta.

Alegar anticomunismo em 2021 (comparando-o com o existente nos anos 70/80) é brincar com coisas muito sérias. Hoje, por exemplo, o PCP é um elemento decisivo na viabilização do Governo.

Esta teoria sucumbe ainda olhando, entre muitos outros exemplos, para o excelente trabalho do autarca de Carnide que venceu a freguesia enquanto nas freguesias ao lado os candidatos apoiados pelo PCP não se impuseram. Ora defender que foi o anticomunismo a explicação para as perdas é uma desculpa de muito mau pagador. Mais grave – é fugir à realidade e à possibilidade de a transformar, o que constitui a razão de ser da atividade dos militantes. A direção do PCP não é capaz de fazer a análise serena acerca do que correu mal.

Os resultados são, por outro lado, reveladores da escassez de quadros autarcas que se vem acentuando. O PCP teve centenas e centenas dos melhores quadros autarcas e hoje está à míngua.

A orientação político/ideológica da direção do partido de fechamento e de apego a um radicalismo verbal de fachada comunista isola os autarcas e retira-lhes credibilidade, salvo aquela(e)s que pelo seu excelente trabalho, pela sua competência e dedicação são eleitos, naturalmente apoiada(o)s na experiência do partido.

O sectarismo do núcleo dirigente do PCP chegou a tal ponto que vetou que um membro do partido fosse candidato por estar casado com alguém que saiu do partido.

A direção do PCP não se incomoda muito em sacrificar muitos dos melhores quadros para se manter ao leme, e isso leva-a a um isolamento da realidade, incluindo dos próprios membros do partido.

No início dos anos oitenta, o PCP chegou a ter tinha nas suas listas cerca de 70% de independentes, um período em que a política autárquica do PCP era admirada em todos os partidos comunistas da Europa, incluindo no PC Italiano.

O PCP tinha como eixo nas autarquias considerar que nesta área não havia esquerda, nem direita, salvo nas grandes cidades. A orientação em linhas gerais era esta - os que defendiam os interesses dos munícipes eram aliados e companheiros na defesa dos interesses da população.

Num momento em que o PCP é tão necessário para a defesa das populações e dos trabalhadores portugueses, a direção só para se manter insiste em tapar o sol com a peneira. Já nada os perturba. Se perderem mais municípios dirão felizes que ainda restam uns tantos, até sabe-se lá quando. Nada os faz arrepender-se. Do grande partido de autarcas com cinquenta e tal câmaras já não têm memória nem, pelos vistos, saudades. É pena, porque esse grande partido faz muita falta em Portugal, mesmo aos que não são comunistas.